sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Autismo: Ainda temos muito que aprender


Entenda como funciona a mente de um autista.

Fonte: Revista Super Interessante

Enquanto sua irmã gêmea se desenvolvia normalmente, o progresso da canadense Carly Fleischmann era lento. Logo foi descoberta a razão: aos dois anos de idade, ela foi diagnosticada com autismo severo. Hoje, Carly é uma adolescente que não consegue falar – mas encontrou outro meio de se comunicar. Aos 11 anos, ela foi até o computador, agitada, e fez algo que deixou toda a sua família perplexa: digitou as palavras DOR e AJUDA e saiu correndo para vomitar no banheiro.

Supostamente, Carly nunca tinha aprendido a escrever. Mas aquilo mostrou que acontecia muito mais em sua mente do que qualquer um poderia imaginar. E foi assim que começou uma nova etapa em sua vida: ela foi incentivada a se comunicar mais desta forma e a criar contas em redes sociais, como o Twitter e o Facebook. Também ajudou o pai a escrever um livro sobre a sua condição e deu as informações para a criação de um site que simula a sua experiência diária com toda a descarga sensorial que recebe em situações cotidianas, como ir a um café. “O autismo me trancou em um corpo que eu não posso controlar”, diz ela no site.

Depois que sua história foi para a mídia, Carly começou a receber muitos e-mails de pessoas perguntando sobre o autismo e criou um canal para esponde-las. “As pessoas têm muitas de suas informações vindas dos chamados especialistas, mas eu acho que esses especialistas não conseguem dar uma explicação a algumas questões”, escreveu.
Veja a resposta que ela deu em seu site e entenda melhor o comportamento dos autistas:

Pergunta: Meu filho de seis anos ​​fica triste e chora com frequência, e eu não consigo entender o porquê. Você tem alguma sugestão de como eu posso descobrir o que está errado?
Carly: Pode ser muitas coisas. Será que ele está tomando algum medicamento? Eu tive muitas mudanças extremas de humor, como chorar e sentir raiva sem motivo, por causa da medicação. Também poderia ser algo que aconteceu mais cedo ou dias atrás e que ele está processando apenas agora.

Alguma vez você gritou aparentemente sem motivo? Por exemplo, você parecia feliz e relaxada, mas de repente começou a gritar? Minha filha faz isso às vezes e eu estou tentando descobrir o porquê.
Eu amo esta pergunta. Ela está fazendo uma filtragem dos sons e quebrando os ruídos e conversas que tem ouvido ao longo do dia. [O cérebro dos autistas funciona de maneira diferente e se sobrecarrega com estímulos externos, como sons, luzes, imagens e cheiros. Gritar, tapar os ouvidos, fazer ruídos ou movimentos repetitivos, segundo Carly, são uma forma de bloquear esses estímulos e se concentrar em apenas um]. Além dos gritos, você pode nos ver chorando ou rindo, tendo convulsões e até manifestando raiva. É a nossa reação ao, finalmente, entender as coisas que foram ditas e feitas no último minuto, dia ou até mês passado. Sua filha está bem.

Será que você poderia me dizer por que meu filho de quatro anos de idade (que tem autismo) grita no carro cada vez que paramos em um semáforo. Ele está bem e feliz enquanto o carro se move, mas, uma vez que paramos, ele grita e faz uma birra incontrolável.
Eu amo longas viagens de carro, elas são uma ótima forma de estímulo sem você precisar fazer nada. O movimento do carro e o cenário visual passando por ele permite que você bloqueie qualquer outra entrada sensorial e se concentre em apenas uma. Meu conselho é colocar uma cadeira de massagem no banco do carro. Assim, quando ele parar, seu filho ainda estará sentindo o movimento. Você pode também colocar um DVD mostrando um cenário em movimento.

De onde você tira tanta informação sobre a cultura pop?
Eu escuto tudo que está acontecendo ao meu redor. Se houver uma TV e eu estou em outro quarto, ainda posso ouvi-la. Se pessoas estão falando, eu gosto de ouvir o que estão dizendo, mesmo se não estão falando comigo. Não é porque eu não pareço estar prestando atenção que esse seja o caso.

Em seus sonhos você é autista?
Sim e não. Em alguns dos meus sonhos eu posso falar e fazer coisas que as crianças da minha idade fazem. Mas em outros eu ainda tenho dificuldade em fazer as coisas que posso fazer quando estou acordada. Eu sonho com um monte de coisas, como meninos e alimentos. Eu nem sempre me lembro dos meus sonhos, mas gosto deles.

Você pode descrever como se sente por dentro? Você acha que é diferente de crianças que não têm autismo?
O problema é que eu não sei o que as outras crianças sem autismo estão sentindo. Eu tenho lutas comigo todos os dias, desde que acordo até a hora de ir dormir. Não posso nem ir ao banheiro sem dizer a mim mesma para não pegar o sabonete e cheirá-lo ou sem lutar comigo mesma para não esvaziar todos os frascos de xampu.

 Existem coisas que você considera mais desafiadoras, como abotoar sua roupa ou cortar a comida com uma faca? Por que você acha que não pode fazer esse tipo de coisa? O que acha que poderíamos fazer para ajudar?
Algumas coisas eu acho que posso fazer, mas é preciso muita concentração para isso. Ficar sentada e digitar é algo muito avassalador para mim – eu preciso fazer pausas e dizer a mim mesma para fazê-lo. Eu não acho que as pessoas realmente sabem como é difícil. Parece tão fácil para todo mundo, mas é como falar três línguas ao mesmo tempo.

Para ler outras perguntas e respostas, veja o site de Carly.

Texto de: Ana Carolina Prado



terça-feira, 26 de novembro de 2013

Medo do Tédio?




A favor do tédio


Alguns livros recentes tratam dos malefícios de nossa constante vontade de encontrar diversões. Como sugere o título de um deles, "The Distraction Addiction", de Alex Pang (Little, Brown and Company), a vontade de se distrair seria um vício, uma forma de dependência.

Também, desde o começo do ano, leio artigos de revista sobre "os surpreendentes benefícios do fato de sentir tédio".

Os livros não me pareceram imperdíveis. E os artigos nas revistas de grande circulação citam "pesquisas" por ouvir dizer. Mas tanto faz. O conjunto manifesta um novo clima, segundo o qual a necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente não tornaria nossa vida mais rica e variada - ao contrário, é possível que essa dispersão empobreça nossa experiência.

Já foi dito por evolucionistas que a sorte de nossa espécie foi sua fraqueza: enquanto passávamos horas a fio escondidos e calados nos arbustos, esperando as feras passarem, a imobilidade e o tédio forçados produziram o surgimento da consciência, do pensamento e da fantasia. Que tal aplicar essa hipótese no campo da educação?

O que é mais "educativo" para as crianças? A diversão? Ou a chance de se entediar?

Umberto Eco atribui ao filósofo Benedetto Croce uma frase que ele cita com frequência: "O primeiro dever dos jovens é o de se tornar velhos". Esse slogan não tem como ser muito popular numa época em que o primeiro dever dos velhos é o de eles parecerem jovens. De fato, nesta nossa época, os adultos não ajudam os jovens a envelhecer; eles preferem mantê-los na mesma criancice que eles desejam para si.

Há pais agentes de viagem e relações-públicas, que, a cada dia, organizam programas "divertidíssimos" para seus rebentos. Esses pais procuram amigos para brincadeiras coletivas e oferecem, a jato contínuo, coquetéis de televisão, cinema, compras, videogames e até livros: qualquer coisa para evitar que a criança conheça a solidão e o enfado. Sabe-se lá quais pensamentos surgiriam numa mente entediada, não é?

Certo, é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo. Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior. E para que serve uma vida interior? Se forem pensamentos aos quais recorremos quando não temos nada para fazer, não é mais simples a gente se manter ocupado e não precisar da tal vida interior?

O problema é que há uma boa parte da vida exterior que, sem vida interior, é totalmente insossa. Tomemos o exemplo do erotismo.

Está aberta até dia 12 de janeiro, no Metropolitan de Nova York, a exposição "Balthus: Cats and Girls" (Balthus: gatos e meninas). O catálogo, com o mesmo título, contém uma excelente introdução da curadora, Sabine Rewald.
Balthus (1908-2001) pintava com frequência gatos e meninas, juntos ou separados. Os gatos são ótimos administradores de seu tédio. Eles sabem se divertir quando a ocasião se apresenta, mas também sabem não fazer nada. Nisso, eles batem os cachorros, que sempre parecem aliviados quando finalmente têm algo para fazer.

Agora, esse dom da gestão do tédio, os gatos têm em comum com as meninas que Balthus pinta, que são todas, antes de mais nada,
entediadas.

As longas sessões nas quais posavam para o pintor talvez servissem deliberadamente para produzir o tédio que Balthus queria pintar. Há as meninas quase vencidas pelo sono no meio da leitura, há as que jogam paciência no silêncio palpável da tarde numa casa de província francesa - todas parecem entregues a devaneios inquietantes.

A gente pode se indignar com a diferença de idade entre Balthus e suas modelos adolescentes, mas o fato é que os retratos das meninas são uma extraordinária ilustração de que o tédio e a indolência são as portas que levam aos pensamentos impuros.

Ou seja, é bem provável que a criança entediada tenha uma vida erótica adulta mais interessante do que a criança que cresceu de joguinho em joguinho, de amiguinho em amiguinho, de diversão em diversão.

O que me leva, aliás, a uma suspeita. Os pais que combatem o tédio dos filhos talvez estejam combatendo possíveis "pensamentos impuros" --videogames, filmes, amigos, tablets e futebol, tudo contra o espantalho da masturbação, que espreita a criança entediada e solitária.

Agora, sem pensamentos impuros na criança, o que será o erotismo do adulto no qual essa criança se tornará? Um erotismo sem vida interior, talvez.

 Contardo Calligaris
Jornal Folha de São Paulo


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Educando Adultos



As mancadas de quem não se entende com crianças
Pessoas que têm jeito com criança agem de diversas formas. Umas são didáticas. Simplificam bastante as ideias e chegam como tradutoras de um mundo incrível que elas desconhecem. Contam novidades. Outras ganham com empatia. Crianças quando recebem atenção de verdade se afeiçoam. As divertidas têm passe livre para o universo infantil. Com graça, estabelecem rapidamente uma ponte com o outro. O humor faz o emburrado gargalhar e o triste sorrir. Traz uma nova perspectiva. Deveria ser vendido aos quilos.

Há muitas maneiras de agradar uma criança, mas começo a desconfiar que são poucas e quase sempre as mesmas mancadas capazes de condenar ao fracasso a interação entre adultos e pessoas recém-chegadas ao mundo. São atitudes que as afastam, tais como: 

Ignorar a presença da criança

Nunca mais vou esquecer de um atendimento prestado numa emergência em Brasília. Nossa filha mais velha tinha pouco mais de 2 anos e era o que podemos definir como uma criança colaborativa. Não encrencava nas consultas médicas. Boazinha que só.
Naquela noite, no entanto, uma febre de quase 40 graus não lhe deixava em paz e nos preocupava. Ao entrarmos na pequena sala para o exame clínico, fomos recebidos por uma pediatra de jaleco branco em pé e meio de costas. De costas continuou. Pegou o bloco, a caneta e começou a nos interrogar, sem levantar o rosto para cumprimentar. Ignorou a criança. Eu me perguntava em que momento ela olharia para minha filha não só para dizer olá, mas para verificar o semblante caído, a disposição geral. O primeiro contato visual foi travado na hora do exame. De chofre, a médica pediu "abre a boquinha pra tia". Conforme esperado, a criança não abriu a boquinha. Não só porque a médica não era sua tia mas porque não tinha passado por nenhuma preliminar de bom gosto. A consulta não terminou bem, como vocês podem imaginar. Num primeiro momento, eu e meu marido tentamos convencer a criança a deixar-se examinar, diante de uma médica cada vez mais impaciente. "Se ela não colaborar, não vai dar para examinar", disse a médica, um tanto irritada, despertando meus instintos protetores. Aí a coisa desandou porque solicitei outra pediatra e deixei uma pista para a moça tentar melhorar da próxima vez. "Você sequer olhou para ela!".
Pode ser que a pessoa tenha notado a presença da criança, mas muitas vezes age como se não a tivesse visto. Olha rapidamente, diz “que bonitinha“, daí vira pro adulto do lado e pergunta “qual o nome dela? Quantos anos tem?“.

Na pressa de sermos educados, vamos logo respondendo mas não deveríamos. Esse tipo de atitude só vale se a criança não puder ou não souber falar ainda. Ou se deixar claro que não tá a fim de papo. Daí a conversa segue no andar de cima. Lembre-se: dê oportunidade para a própria criança falar de si mesma.  

Forçar intimidade

Esse é um pecado muito comum. A pessoa acaba de ser apresentada ao seu filho, daí pede beijo, abraço e outras provas de amor à primeira vista. Gente sem-noção tem pra todo lado, mas o nível de autopercepção cai muito diante dos pequenos. Queria uma explicação científica para isso. As pessoas se sentem desobrigadas de seguir certas etiquetas sociais com elas. Por quê?

É como se as crianças não tivessem direito a serem reservadas. Se ela se recusa a dar um beijo, é retraída. Se não desenvolve a conversa proposta - mesmo que chata - é tímida. O responsável tenta explicar, "não, ela não é sempre assim não, não é Fulaninha?", mas Fulaninha já deu as costas, fechou a cara e a frase se perdeu antes do fim.   
Crianças são rotuladas sem dó nem piedade. São presas fáceis para estereótipos.

Sem perceber, muitos adultos cometem um erro aparentemente inofensivo. Comportam-se como se intimidade fosse item da nossa carga genética. "Sou amiga da sua avó", diz a senhora boazinha, se apresentando. Ótimo. Eis uma informação objetiva para a criança. Aí a pessoa completa: agora senta aqui no meu colo e vem cá me contar uma coisa...Oi?
Pode ser que funcione, mas ninguém herda amizades dos avós, dos pais, dos tios ou de quem quer que seja. Para a criança, aquela pessoa, íntima da família há décadas, é uma estranha. Tem que entender isso.

Muitas vezes, por educação, queremos que nossos filhos sejam a encarnação de um manual de etiqueta, o que seria ótimo, eu sei. Temos que lembrá-los o tempo todo certos padrões. Cumprimentou? Disse “bom dia“?

Também sofro quando minhas pequenas me deixam com cara de tacho e resolvem emudecer por completo diante do inesperado. Mas preciso reconhecer que muita gente espera que o cumprimento evolua para uma incrível manifestação de apreço e sociabilidade. Não dá. Cachorrinhos fazem festinha para o primeiro que aparece. Filhote da gente, não. 

Menosprezar o gosto das crianças

Durante muito tempo, acreditei que tratar mal as crianças era bater ou simplesmente não cuidar delas com carinho. Essa é a dupla do mal que costuma assombrar famílias com bebês em casa. E é por essa preocupação que damos início à nossa nova rotina de pais. E se a babá perder a paciência com ela? For ríspida? E se a assistente da creche não tiver carinho com meu bebê? E se essa vizinha bondosa que topou me ajudar for do tipo que grita com um incapaz porque depois ninguém irá saber?

São muitos "e se" aterrorizantes que povoam nossa cabeça. Um bebê não conta depois o que se passou na nossa ausência. Com o tempo percebi o quanto estava enganada. Há muitas outras maneiras mais sutis de se tratar mal uma criança.

Faça com que elas sintam que você é uma pessoa estranha dentro de casa. Cuide mas não brinque. Alimente mas não as conquiste. Menospreze as brincadeiras delas e ignore suas preferências, mesmo as mais inofensivas. 
"Não, você não vai mais beber água no seu copinho rosa porque EU não quero", é uma frase que expressa uma infeliz necessidade de alguém exercer o poder em cima do seu filho. Soa como tortura. E é. Ao ignorar a preferência da criança sempre, um adulto estará erguendo uma invisível e intransponível barreira nesse relacionamento fadado ao fracasso.  

Dar apelidos pejorativos

Quando eu era pequena, tinha uns "tios" que adoravam me chamar de bicho-do-mato porque eu nunca queria papo com eles e me escondia atrás da minha mãe. Quanto mais eles insistiam no apelido, mais eu fugia deles. Achava insuportável ser comparada a um bicho, mesmo que esse animal habitasse o mundo das metáforas. Felizmente o apelido não pegou, bicho-do-mato cresceu e passou a ganhar a vida conversando, ouvindo e falando bastante com as pessoas. Que coisa. Você pode até estar achando que era bullying. Esquece. Era uma brincadeira de mal gosto mesmo, do tipo que ainda vemos muito por aí.

Certa vez, vi um menino de uns quatro anos tentando chutar um adulto. O homem ria e continha o garoto com o braço esticado evitando sua aproximação pela testa.

“Para, cabeção, qual é, é brincadeira“ - dizia o adulto, enquanto a criança continuava demonstrando toda sua indignação num rompante de raiva e chutes.

Eu também tive vontade de chutar.

A capacidade de uma criança absorver certas piadas que mexem diretamente com sua autoestima é muito frágil. Diria até nula em muitas circunstâncias. Xingamentos descem mal, mesmo quando eles se afastam totalmente de uma análise fiel da realidade. É muito fácil ofender alguém cujo repertório de respostas para a vida ainda está em formação.  

Falar em tatibitati

Soar doce é uma preocupação natural da parte de quem quer se aproximar de um ser delicado. Bebês são delicados e costumamos falar doce com eles, o que não significa falar errado, trocando o R pelo L, o C pelo T e por aí vai. Fica engraçado, mal não faz, mas depois que o bebê cresce e vira uma criança...

No elevador, a ascensorista puxa conversa com uma menina, 2 anos e pouco presumíveis.
– Tê tá tomanto o tuquinho todo, tá?

– Não estou entendendo o que você tá falando – respondeu a criança, que soltou o canudinho para tentar se comunicar da melhor maneira possível com a moça que falava na língua do T.

Para irritar crianças maiores, não precisa nem apelar pro tatibitati. Basta o tom, aquele típico de uma infantilização forçada, que foge do natural e irrita até quem está perto. As crianças se fecham contrariadas. Não raro, você terá que fazer cara de paisagem quando seu filho lançar para você aquele olhar de quem vai dizer em um minuto: por que estão falando assim comigo?
Agora sendo realista: estabelecer uma conversa com crianças pode ser um desafio, ainda mais se você não estiver (mais) acostumado com elas. Muita gente não sabe o que fazer, fica visivelmente desconfortável. Mesmo sendo mãe e tendo dois exemplares em casa, sei que lidar com os filhos dos outros mexe com nossas convicções. Será que minhas táticas vão funcionar com eles também? 
Minha dica é trate crianças como pessoas normais. Não infantilize o vocabulário nem fique procurando frases muito simples pra se fazer entender. Se elas não entenderem, vão perguntar. Não subestime a inteligência infantil. Diminua apenas o seu tamanho. Se ela te olhar no olho, tanto melhor. Já será uma baita ajuda. Se a criança te surpreender com alguma pergunta impertinente ou constrangedora, lembre-se que o humor é sempre uma ótima saída com os pequenos. 
• Você sempre foi careca?

• Quando eu era bebê tinha mais cabelo! Eles estão caindo.

• De todas as partes do seu corpo? Até do...?   
Reconheça o valor da curiosidade. “Boa pergunta!“

“Adultos que sabem lidar com criança não sufocam seu novo conhecido com entusiasmo demais nem começam de imediato um interrogatório investigativo (Quantos anos você tem? Onde você estuda?). Na realidade, mantêm uma certa distância primeiro, deixando que a criança aqueça a relação, talvez descobrindo algum assunto de interesse dela ou em comum e perguntando a ela sobre isso“, diz Alfie Kohn, em Unconditional Parenting, livro que inspirou duas colunas anteriores sobre castigos e recompensas.

Os adultos que têm jeito com criança prestam atenção e escutam o outro, mesmo que ele tenha menos de um metro e trinta. O nome disso é respeito.

FONTE: Isabel Clemente
site: Revista Época

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

PLANEJAMENTO NÃO É MAGIA

A FALÁCIA DO PLANEJAMENTO

Em dado momento da sua carreira, Daniel Kahneman viu-se envolvido em um projeto do Ministério da Educação de Israel, cuja finalidade era criar uma nova disciplina no currículo universitário: Economia Comportamental.

O grupo, composto por Kahneman e seus colegas, reunia-se semanalmente e após um ano de trabalho já havia escrito alguns capítulos do livro-texto, bem como boa parte do syllabus.


Foi quando resolveram olhar para a frente – mais precisamente para o fim do projeto: cada um deveria escrever num pedaço de papel quanto tempo estimava que o projeto ainda levaria para ser concluído*.
A média apurada foi de dois anos, sendo que o menor prazo considerado foi um ano e, o maior, dois anos e meio.

Um dos integrantes do grupo já participara de outras iniciativas semelhantes e foi-lhe perguntado, então, qual a média real que ele havia observado nos casos que acompanhou. Quiseram saber, também, se algum deles não fora concluído.

As respostas chocaram o grupo: uma nova disciplina levava entre sete e dez anos para ser estruturada e cerca de 40% dos planejamentos jamais chegavam a ser finalizados.

Daniel Kahneman estava vivendo na pele um fenômeno que, mais tarde, ele próprio batizaria de falácia do planejamento. São situções nas quais decisões são tomadas sob a influência de um otimismo irreal e injustificável, em vez de uma racional avaliação de prós, contras e suas respectivas probabilidades.
Segundo Kahneman, estimativas ficam muito distantes da realidade na medida em que se aproximam demais dos melhores resultados obtidos (algo como se você estimasse seu tempo numa corrida de 100 m tomando Usain Bolt como referência) e não são confrontadas com os histórico de casos semelhantes.


Repare que, no caso em questão, o especialista no assunto também fez uma previsão completamente fora daquilo que ele mesmo tinha como parâmetro de comparação – mas que, incrivelmente, ele não levou em consideração.

O resultado disto é que empresas embarcam, muitas vezes, em projetos claramente fadados ao fracasso iludidas por um pernicioso viés otimista. Ao classificar o viés de otimismo como um dos mais viéses cognitivos mais significativos, Kahneman alerta que
“(…) muitos de nós enxergamos o mundo como mais benigno do que ele realmente é, nossos próprios atributos como mais favoráveis do que realmente são e as metas que adotamos como mais alcançáveis do que parecem ser. Tendemos, também, a exagerar nossa habilidade de prever o futuro, alimentando uma confiança demasiadamente otimista.”

Como forma de precaver-se do viés de otimismo, Kahneman toma emprestado de Gary Klein uma interessante ideia: a autópsia prévia, isto é: em vez de esperar o projeto morrer, suponha que ele morreu de fato e tente ver o que deu errado. Em suas palavras:
“Imagine que estamos um ano na frente. Implementamos o plano da forma como ele está agora. O resultado foi um desastre. Em cinco ou dez minutos, escreva uma breve história deste fracasso.”
Neste simples exercício de futurologia, você deverá imaginar que tudo o que planejou deu errado e tentar encontrar as possíveis causas. Um curioso exercício de criatividade pessimista (ou realista?), em que a ficção pode ajudar a evitar uma trágica realidade.

Em tempo: o planejamento levou oito anos para ser concluído – mas jamais foi utilizado. Alguns anos depois Daniel Kahneman recebeu um Prêmio Nobel em Economia.

* Esta é a maneira correta de se colher a opinião de um grupo sobre um assunto pontual, evitando cair na armadilha do groupthinking ou na tentação de um rápido consenso.
Texto publicado originalmente em http://www.pharmacoaching.com.br/2012/03/a-falacia-do-planejamento.html

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Fragmentos



Aproveitar o tempo! 
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? 
Aproveitar o tempo! 
Nenhum dia sem linha... 
O trabalho honesto e superior... 
......
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?! 
....
Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino

Álvaro de Campos




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Narcisismo dos Pais



Longe da árvore

Li o novo livro de Andrew Solomon quando foi publicado nos EUA, no fim de 2012. Para explicar por que ele é, para mim, um dos ensaios mais importantes das últimas décadas, preferi esperar a tradução em português, "Longe da Árvore - Pais, Filhos e a Busca da Identidade" (Companhia das Letras).
O título se refere ao ditado segundo o qual os frutos nunca caem longe da árvore que os produziu --ou seja, "tais pais, tais filhos". Só que, às vezes, nossos filhos nos parecem diferentes de nós: frutos caídos longe da árvore. De qualquer forma, a árvore quase sempre acha que seus frutos caíram mais longe do que ela gostaria. E, na nossa cultura, amar os filhos que são diferentes de nós não é nada óbvio.

A obra de Solomon é um extraordinário elogio da diversidade e da possibilidade de amar e respeitar a diferença, mesmo e sobretudo nos nossos filhos. Por acaso, li o livro de Solomon logo depois das tocantes e bonitas memórias de Diogo Mainardi ("A Queda", Record) sobre o amor por seu primogênito, Tito, diferente por ser portador de paralisia cerebral.

A leitura de "Longe da Árvore" ajudará qualquer pai a não transformar suas expectativas em condições de seu amor. Isso bastaria para que a obra de Solomon fosse imprescindível --para pais e para filhos. Mas há mais.
Retomo uma distinção que Solomon usa. Chamemos de identidades verticais as que são impostas ou transmitidas de geração em geração: elas são consequência da família, da tribo, da nação na qual nascemos e também das expectativas dos pais (quando elas moldarem os filhos). Chamemos de identidades horizontais as que inventamos ou às quais aderimos junto com nossos pares e coetâneos: elas são tentativas de definir quem somos por nossa conta, sem nada dever à árvore da qual caímos.

O paradoxo é o seguinte: a ideia crucial da modernidade é que as identidades verticais não constituem mais nosso destino (por exemplo, o fato de nascer nobre ou camponês não decide o lugar que o indivíduo ocupará na sociedade).
Os filhos, portanto, conhecem uma liberdade sem precedentes (viajam, mudam de país, de status, de profissão etc.), atrás do sonho moderno de "se realizarem" --e não do sonho antigo de repetirem seus antepassados. Mas acontece que esse sonho de "se realizarem" é também o dos pais, os quais, como qualquer um, só "aconteceram" pela metade (quando muito).

Consequência e conflito: os filhos deveriam correr livres atrás de seus próprios sonhos, enquanto os pais esperam e pedem que os filhos vivam para contrabalançar as frustrações da vida de seus genitores.

Será que um dia seremos capazes de um amor não narcisista pelos nossos filhos? Será que seremos capazes de querer produzir vidas por uma razão diferente da de reproduzir a nós mesmos?

Se isso acontecer um dia, será possível dizer que "Longe da Árvore" foi o primeiro indicador de uma mudança que transformou nossa cultura para sempre.
Alguns poderiam se assustar diante do tamanho da obra de Solomon, que é monumental (mais de 800 páginas). Reassegurem-se: a leitura é fascinante.
O livro é construído assim: há uma introdução, "Filho", imperdível, e uma conclusão, "Pai" (de filho para pai é o caminho que o próprio Solomon percorreu na sua vida).

No meio, há dez capítulos (que não precisam ser lidos na ordem) sobre as "diferenças" de filhos que caíram longe da árvore e como os pais lidaram com elas (surdos, anões, síndrome de Down, autismo, esquizofrenia, deficiência, [crianças-]prodígios, [filhos de] estupro, crime, transgêneros). A essa lista é necessário acrescentar gay e disléxico, que são os traços que fizeram de Solomon um diferente.

Das centenas de entrevistas nas quais ele se baseia, Solomon sai com um certo otimismo sobre a possibilidade de os pais aprenderem a amar filhos diferentes deles.

Entendo seu otimismo assim: as diferenças extremas (como as que ele contempla) derrotam o narcisismo dos pais de antemão (esses filhos nunca serão uma continuação trivial de vocês) e portanto levam à possibilidade de amar os filhos como entes separados de nós.

No dia a dia corriqueiro da relação pai-filho, o narcisismo dos pais e dos adultos produz uma falsa e incurável infantolatria: parecemos adorar as crianças, mas mal as enxergamos --apenas amamos nelas a esperança de que elas realizem nossos entediantes sonhos frustrados.

Contardo Calligaris
Jornal: Folha de SP


Ainda não comprei o livro do Adrew Solomon, mas essa é uma das várias críticas positivas que li sobre o texto. Por isso, estou postando. O segundo livro que o Calligaris recomenda, o Diogo Mainardi, eu já li e sempre recomendo.  





terça-feira, 22 de outubro de 2013

Curso de Formação em Coaching - Florianópolis





Mais informações em : MC Instituto de Coaching
www.mcinstituto.com.br/



sábado, 19 de outubro de 2013

A leitura e seus efeitos


Qual romance você está lendo?

Sempre pensei que fosse sábio desconfiar de quem não lê literatura. Ler ou não ler romances é para mim um critério. Quer saber se tal político merece seu voto? Verifique se ele lê literatura. Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Mesma sugestão.
E, cuidado, o hábito de ler, em geral, pode ser melhor do que o de não ler, mas não me basta: o critério que vale para mim é ler especificamente literatura –ficção literária.
Você dirá que estou apenas exigindo dos outros que eles sejam parecidos comigo. E eu teria que concordar, salvo que acabo de aprender que minha confiança nos leitores de ficção literária é justificada.
Algo que eu acreditava intuitivamente foi confirmado em pesquisa que acaba de ser publicada pela revista “Science” (migre.me/gkK9J), “Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind” (ler ficção literária melhora a teoria da mente), de David C. Kidd e Emanuele Castano.

Uma explicação. Na expressão “teoria da mente”, “teoria” significa “visão” (esse é o sentido originário da palavra). Em psicologia, a “teoria da mente” é nossa capacidade de enxergar os outros e de lhes atribuir de maneira correta crenças, ideias, intenções, afetos e sentimentos.

A teoria da mente emocional é a capacidade de reconhecer o que os outros sentem e, portanto, de experimentar empatia e compaixão por eles; a teoria da mente cognitiva é a capacidade de reconhecer o que os outros pensam e sabem e, portanto, de dialogar e de negociar soluções racionais. Obviamente, enxergar o que os outros sentem e pensam é uma condição para ter uma vida social ativa e interessante.

Existem vários testes para medir nossa “teoria da mente” –os mais conhecidos são o RMET ou o DANVA, testes de interpretação da mente do outro pelo seu olhar ou pela sua expressão facial. Em geral, esses testes são usados no diagnóstico de transtornos que vão desde o isolamento autista até a inquietante indiferença ao destino dos outros da qual dão prova psicopatas e sociopatas.

Kidd e Castano aplicaram esses testes em diferentes grupos, criados a partir de uma amostra homogênea: 1) um grupo que acabava de ler trechos de ficção literária, 2) um grupo que acabava de ler trechos de não ficção, 3) um grupo que acabava de ler trechos de ficção popular, 4) um grupo que não lera nada.

Conclusão: os leitores de ficção literária enxergam melhor a complexidade do outro e, com isso, podem aumentar sua empatia e seu respeito pela diferença de seus semelhantes. Com um pouco de otimismo, seria possível apostar que ler literatura seja um jeito de se precaver contra sociopatia e psicopatia. Mais duas observações.

1) A pesquisa mede o efeito imediato da leitura de trechos literários. Não sabemos se existem efeitos cumulativos da leitura passada (hoje não tenho tempo, mas “já li muito na adolescência”): o que importa não é se você leu, mas se está lendo.

2) A pesquisa constata que a ficção popular não tem o mesmo efeito da literária. A diferença é explicada assim: a leitura de ficção literária nos mobiliza para entender a experiência das personagens.

“Como na vida real, os mundos da ficção literária são povoados por indivíduos complexos cujas vidas interiores devem ser investigadas, pois são raramente de fácil acesso.”

“Contrariamente à ficção literária, a ficção popular (…) tende a retratar o mundo e as personagens como internamente consistentes e previsíveis. Ela pode confirmar as expectativas do leitor em vez de promover o trabalho de sua teoria da mente.”

Em suma, o texto literário é aquele que pede esforços de interpretação por aquelas caraterísticas que foram notadas pelos melhores leitores do século 20: por ser ambíguo (William Empson), aberto (Umberto Eco) e repleto de significações secundárias (Roland Barthes).

Na hora de fechar esta coluna, na terça-feira, encontro a mesma pesquisa comentada na seleção do “New York Times” oferecida semanalmente pela Folha. A jornalista do “Times” pensou que a leitura literária, ajudando-nos a enxergar e entender os outros, facilitaria nossas entrevistas de emprego ou nossos encontros românticos.

Quanto a mim, imaginei que, na próxima vez em que eu for chamado a sabatinar um candidato, não esquecerei de perguntar: qual é o romance que você está lendo? E espero que o candidato mencione um livro que conheço, para verificar se está falando a verdade.

Contardo Calligaris
Jornal Folha de São Paulo
  

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Fragmentos de Clarice



Erros do Passado

Para quem – por desespero ou por gosto – vive aludindo aos erros do passado, eis uma frasezinha de um homem chamado Fénelon: “Pode-se corrigir o passado, com o futuro.”

Talvez seja, aliás, o único modo de corrigir o passado. Pois uma verdade óbvia é esta: enquanto você lamenta o passado, o presente lhe foge das mãos.

E não há tanto do que se recriminar e lamentar: não há outro modo de viver senão o de errar e corrigir-se, e depois errar de novo e corrigir-se de novo. O que não chega a ser trágico: trata-se do jogo da vida, e todos nós jogamos o mesmo jogo.

Agora, o que é mesmo uma pena é uma pessoa sentar-se num canto da sala (figurativamente), e lamentar, lamentar, lamentar. Quem está no jogo tem que aceitar as regras do jogo.

Você há de dizer: “Eu não pedi para entrar no jogo, não pedi para nascer.” Pois esse argumento é uma mistura de neurastenia, vontade de despistar, má vontade e chicana.

Tenha cuidado com uma coisa: quando lamentar-se começa a ser um consolo, é tempo de prestar atenção.

Clarice Lispector - Correio Feminino
  

domingo, 13 de outubro de 2013

Enfrentando Preconceitos



Daniela Mercury reage a preconceito:


'em casal de mulheres ninguém entra'


A cantora Daniela Mercury, 48, trabalha em um novo álbum, "mais autoral", e em um livro, a ser lançado em novembro com sua esposa, Malu Verçosa.
"É uma biografia amorosa-jornalística do nosso relacionamento, o que aconteceu e o impacto que isso teve", diz Daniela, a respeito da revelação, feita no início do ano pelo Instagram, de seu relacionamento homossexual.
As duas se casam no civil neste sábado e, como uma "atitude política", vão passar a usar os sobrenomes uma da outra. "Já trocamos alianças, mas a sociedade precisa de clichês", diz a cantora.
Nessa entrevista Daniela conta que ainda ouve risadinhas de homens. "Tenho a sensação de que fere muito a masculinidade de alguns homens o fato de duas mulheres estarem juntas", diz.
Mas pede à reportagem: "Quando for escrever, (ressalte que) o meu intuito não é bater nos homens. Falo da minha vivência particular. Não diferencio as pessoas pelo sexo, mas essa divisão e a atribuição de poder ainda existe na sociedade. O machismo é uma doença social que a gente precisa erradicar, com posicionamento, clareza, e não se deixar diminuir".

BBC - Quais os principais desafios que enfrenta como mulher? Como a maioria, concilia diversos papéis?
Daniela Mercury - A mulher acrescentou papéis na sua vida, por sua necessidade de se expressar, de produzir, de existir como profissional e ter sua independência financeira. Quando querem ter filhos, em geral ela faz muito mais coisas do que o homem - costuma fazer toda a gestão da casa, das crianças, ainda que, em casais héteros, o marido ajude cada vez mais.
Acho que os casais de mulheres dividem mais as atribuições dentro e fora de casa, é mais igual. Agora, com Malu, ela já assumiu metade dos assuntos - ela já pega, paga, resolve. Ela assume a responsabilidade, coisa que em geral o homem não faz. Eu que já fui casada com homem e com mulher (posso dizer).
Você me pergunta do papel da mulher hoje. A mulher está sujeita a abusos muito mais constantemente do que homens. E são subliminares. Como uma mulher sozinha é vista na sociedade brasileira? Para a maioria, ela teria de ter um homem ao lado dela para ser respeitável.
Muita gente vai dizer que isso não existe mais, mas existe. Muitas mulheres não querem casar, querem uma vida sexual mais livre, são donas do próprio nariz e bem-sucedidas profissionalmente. Não encontraram um parceiro para conviver e são olhadas como "tadinhas".
Passei uma época da minha vida solteira e convivendo com casais amigos. Depois de uns três anos, quando estava com um novo namorado, ouvi de três ou quatro amigas: "Que bom, você agora tem namorado". Fiquei assustadíssima. Respondi "mas eu estava ótima!".
Por que essa ideia de que eu precisava de alguém, e (sobretudo) de um homem? É muito forte isso - e vem das mulheres, que exigem umas das outras que estejam com homens para serem protegidas, respeitadas.

Você foi elogiada por ter sido franca quanto a seu relacionamento com a Malu. Mas sente esse "abuso subliminar"?
Pela nossa naturalidade, por sermos mulheres inteligentes, fortes, bonitas, femininas e decididas, a gente não deixa muita brecha. Se alguém ameaçar olhar torto, a gente já reage, sutilmente ou menos sutilmente. Mas são perceptíveis olhares, eventualmente uma conversinha ou outra, uma risadinha de mesas de homens (em um restaurante).
Às vezes tenho a sensação de que fere muito a masculinidade de alguns homens o fato de duas mulheres estarem juntas. Acham que vão transar com as duas, ter as duas sexualmente. Não percebem que, em um casal de mulheres, ninguém entra. Nem homem, nem outra mulher, vai entrar em um casal que se predispõe a viver junto com fidelidade, compromisso.
Não que (o laço) seja mais ou menos forte do que um casal heterossexual, mas é no mínimo equivalente. Ainda que não seja considerado assim.

Os rótulos de comportamentos sexuais - sejam de homossexualidade ou de promiscuidade - te incomodam?
Quando vemos dois homens ou duas mulheres juntas, qual o problema? A preocupação (tem de ser) se aquela pessoa é legal, correta, positiva, vai fazer bem para o outro. Mas a questão acaba sendo toda o tabu sexual.
(Os rótulos) são insuportáveis. Acho inadmissível piadinha com gay, tão comuns no sexo masculino. São brincadeirinhas nocivas, desagradáveis, preconceituosas ao extremo.
E sobre o fato de as mulheres estarem sempre (retratadas) como as promíscuas, sedutoras, isso é o nosso carimbo bíblico desde Eva. Está no inconsciente da sociedade. É um mito completo. Vejo muitas mulheres que seduzem porque estão submetidas ao homem. Elas continuam mostrando muito seu corpo, vendendo sua imagem sem pensar a respeito disso.
Odeio quando vou aos EUA ou à Europa e escuto "vou para o Brasil arrumar uma mulher para transar". Não é à toa que o turismo sexual e a pedofilia são problemas tão sérios. Não é à toa que em países latinos tenhamos pais machistas, ou o mito da virgindade como símbolo de pureza.
E as mulheres acabam alimentando isso, o que é irritante. As brasileiras ainda precisam cuidar de si mesmas. Não quero ser dona da verdade, mas a sensação é de que a gente tem que se valorizar muito mais.
Todos temos momentos de fragilidade, homens ou mulheres. Mas as mulheres às vezes se põem nessa situação de vítima, de querer se protegida. Se a gente quer (igualdade), então também temos que assumir a responsabilidade de sermos o que quisermos.

Na sua área, muito se idolatra a mulher gostosa, sarada.
É verdade. E se pressupõe que essas mulheres não sejam muito inteligentes. Porque as mulheres inteligentes ainda irritam muita gente.
E eu hoje em dia me irrito com as mulheres não muito inteligentes, ou que se fazem de bobas, porque acham que esse é o caminho mais fácil. É mais fácil, mas muito perigoso.
O brasileiro já não é um povo que se posicione muito. A gente fala pouco claramente, porque acha que falar a verdade incomoda demais. Daí vai ficando uma sociedade na névoa, em que tudo acontece mas ninguém deixa claro o que acontece.
Acho que o que eu e Malu fizemos não foi nada de extraordinário, a gente só foi transparente, clara, falou a verdade. Mas isso teve um impacto muito grande porque a sociedade prefere fingir que não existe aquilo.

E você se sente mais feliz ao ter falado a verdade?
De ter comunicado minha relação? Sem dúvida alguma. Não tinha como ser de outra forma - viver em uma relação, construir uma família e camuflar isso não é do meu perfil.
Ninguém é contra o amor. Por isso a gente está recebendo tanto apoio.

Vê traços de machismo em seus ambientes profissional e pessoal?
A arte é uma área diferente, de pessoas sensíveis, abertas, (mas) os homens são os mesmos e as mulheres são as mesmas - filhos das mesmas famílias provincianas.
Acho que há, sim, machismo. Quando você vê um homem cantando, já presume que ele seja compositor, músico, pense por si mesmo e tenha o conceito do próprio trabalho. Mas (no caso da) mulher você pensa no máximo "ela é uma ótima intérprete", e não uma criadora. Em geral acham que a mulher é comandada por alguém.
Sou produtora, diretora, concebo meu trabalho desde o começo, sou compositora de muitas das minhas obras. Uma vez cheguei na gravadora BMG e fui conversar com um diretor artístico. Falei para ele que estava preparando um disco mais íntimo, com canções de amor, mais existenciais. Ele respondeu: "Para mim mulher não tem que pensar conceito".
Eu levantei e saí, e só não rasguei meu contrato porque não era empregada dele, era parceira da gravadora.
Se eu não tivesse personalidade forte e não viesse de uma educação de mulheres fortes - minha mãe e minha avó, mulheres que se posicionaram diante do mundo -, eu ia ser engolida. Teria desistido de fazer várias coisas.
Meu pai, apesar de católico e conservador em muitas coisas, sempre me deu muita força e me respeitou muito. Nunca havia moral boba em casa, sempre se acreditou que como seres humanos todos (os cinco filhos) deveríamos ser respeitados. Então não me deixo desrespeitar fora de casa.
Estou fazendo meu primeiro trabalho completamente autoral, para que as pessoas possam perceber como eu penso, enxergar a Daniela autora. Muitos dizem "não sabia que você compunha", e eu sou autora de grandes sucessos meus, como "O Canto da Cidade".
Tenho sempre que reiterar minha autonomia. É cansativo, mas se não for assim, fica mais difícil ainda.
Fonte: site BBC-Brasil


 


sábado, 12 de outubro de 2013

Mulheres, Família e Profissão




Tentar ser supermulher está fora de moda

Ana Paula Chagas, 50, é headhunter há mais de duas décadas e sócia de uma empresa de recrutamento, além de uma das criadoras no Brasil do Women Corporate Directors, fórum cuja missão principal é ampliar a presença de mulheres no topo do comando das empresas.

Mulheres Executivas

BBC - A procura por mulheres executivas tem crescido no Brasil?
Ana Paula Chagas - Com certeza. Isso começou um pouco seguindo empresas americanas, que diziam que era preciso ter diversidade e criaram programas para contratar pessoas de (diferentes) sexos, raças. Mas elas concluíram que as empresas que têm mais diversidade dão mais lucro.
(Mas) hoje nem um 1% das presidentes das 500 maiores empresas são mulheres. É algo que leva tempo, uma geração ou duas, mas está mudando. Em gerência média já vejo muitas mulheres, e elas são maioria em algumas áreas, como RH e marketing.
É claro que a mulher tem um monte de outras responsabilidades - ela tem a maternidade, depois cuida dois pais. Tudo tem um preço.
Algumas mulheres não querem fazer isso (chegar ao topo do comando da empresa). Há mulheres que olham para mim e para minhas colegas e dizem, 'não sei se quero essa vida', de acordar 5h da manhã, trabalhar 12 horas por dia.
Ao mesmo tempo, essa mulher atual consegue conciliar tudo porque o marido divide as responsabilidades. Antigamente, quando eu entrevistava um executivo, ele não falava da família. Hoje entrevistei um, de 30 e poucos anos, e a primeira coisa de que ele falou foi da mulher, dos filhos. Ele lava a louça, ajuda.

Divisão de Tarefas

Gerou polêmica recentemente nos EUA caso da CEO do Yahoo!, Marissa Mayer, que tirou apenas algumas semanas de licença-maternidade e voltou ao trabalho. Por onde caminha esse debate?
O debate caminha pelo marido ajudar a dividir as tarefas - e não pela mulher desistir da carreira. O marido prefere a mulher que trabalha à dona de casa, porque precisa das duas rendas. Estou falando de 2% da população do Brasil - executivos, classe A e B. Porque, se falarmos da população inteira, a mulher é chefe de família, ela que segura o tranco, faz tudo - às vezes sem marido.
Em cargos competitivos, a mulher em licença-maternidade muitas vezes fica online, volta antes, vai a reuniões. A executiva às vezes fala 'eu não vou parar, não vou estragar minha carreira'. A do Yahoo! foi um pouco radical. Respeito também as mulheres que querem ter esse momento, amamentar e ficar em casa. Mas conheço muitas que voltam depois de um mês porque não podem largar seu trabalho e ficar cinco meses em casa. É uma decisão muito pessoal.
Tive filhos em empresas diferentes, para não atrapalhar a carreira. A mulher pode planejar a carreira e a hora de ter filhos - 'agora que eu entreguei um projeto é bom momento para parar'. No momento errado prejudica mesmo. Não dá para ter três filhos na mesma empresa e reclamar que não foi promovida.

Maternidade e Vida Profissional

É uma estratégia usada por várias executivas? Será que isso de certa forma não confirma que as empresas ainda veem esse lado materno da mulher como um fardo?
O fato é que uma executiva com carreira competitiva tem que planejar suas gestações sim. Filhos são maravilhosos, mas não da para ter dois ou três filhos em seguida, ficar mais de um ano fora da empresa e em poucos anos e ainda querer ser promovida. Portanto, quando possível, planejar a hora melhor de ter filhos é muito inteligente e um passo estratégico a favor das mulheres.
As empresas não veem a gravidez como um fardo, mas simplesmente promovem outra pessoa ou colocam outro no lugar.
(Ao mesmo tempo) as mulheres estão casando, estão tendo filhos, e estão tendo sucesso na carreira. Está dando, elas estão conseguindo.
Mas há muita ansiedade por tentar abraçar tanta coisa, não?
Aí talvez seja um pouco culpa da própria mulher, que tende a ser centralizadora. Ser a supermulher está fora de moda. Não dá para ser mulher perfeita, mãe perfeita, executiva perfeita. Buscar filho na escola, cuidar da casa, ser executiva, cuidar dos pais, e o marido só chegar à noite e encontra tudo arrumadinho - essa mulher está deixando de existir.
A que eu vejo mais hoje delega, terceiriza, e tem o maridão junto. Ele tem que ter orgulho da carreira dela. Mas se ele não apoia ou eles competem, aí não tem jeito.

As dificuldades de lidar com o Poder

Quais os principais debates em pauta na Women Corporate Directors?
O principal é: por que há poucas mulheres no topo das empresas?
Acho que algumas têm um perfil menos arrojado. Quando pergunto ao homem se ele está pronto para ser presidente ou sentar num conselho, ele fala 'sim, já estou indo'. Já a maioria das mulheres respondem 'ah, não sei, será que eu estou pronta, será que vou dar conta?'.
É um pouco da cultura em que fomos criadas. Algo que a mulher no Brasil tem de superar e dizer 'claro que estou pronta, senão não teria chegado onde cheguei'.
O maior desafio é a mulher entender que papel ela tem e quer ter; onde ela quer ser muito boa e onde aceita ser mais ou menos, sem culpa. Tirar isso de uma geração que foi criada para ser dona de casa é difícil.
Já a geração mais jovem acho que nem vai ter essa discussão. Cursei a Fundação Getúlio Vargas (em São Paulo) 20 anos atrás. Havia três mulheres na minha turma. Hoje, minha filha faz o mesmo curso de administração, e 60% da sala dela são mulheres. É uma mudança importante para as mulheres que vão entrar no mercado de trabalho.

As Futuras Gerações

Quais serão, então, os desafios da geração da sua filha?
Acho que os debates dela serão idênticos aos dos colegas homens da idade dela: se quer trabalhar em empresa ou ser empreendedora; se quer viajar o mundo; se quer casar e ter filhos ou não. O machismo não está nem na pauta.
A definição de sucesso está mudando para as mulheres do mundo corporativo?
O mundo corporativo está crise de qualidade de vida, mas isso vale tanto para mulheres como para homens. Todos querem trabalhar menos, ficar mais com a família, fazer mais ginástica. Isso é resultado de morar em cidades como São Paulo e da complexidade que virou cuidar da saúde, da família, dos pais, enfrentar o trânsito. Do presidente ao trainee da empresa, homens ou mulheres.

Novos Desafios

Quais os maiores desafios que enfrenta hoje como mulher?
O maior desafio é equilibrar todos os pratinhos - ser boa esposa; ter os filhos próximos apesar de ter pouco tempo, então buscar a qualidade desse tempo; não ter culpa, e sim orgulho de trabalhar fora; e cuidar dos pais, ir à manicure. Acabo fazendo ioga as 5h da manhã, o único horário que sobra.
Ter tido uma mãe que trabalhava influenciou muito. Ela sempre me dizia que eu tinha que ter a minha carreira. Ao mesmo tempo ela dizia que eu tinha que ser a Amélia perfeita. Mas de de jeito algum eu consegui; fiz muita terapia para aprender a lidar com isso. Tenho muito orgulho de trabalhar fora e não tive tempo de trocar fralda e dar papinha aos meus filhos (de 13 e 18 anos). Pergunto sobre isso para eles hoje e me dizem: 'mãe, nem lembro. Tenho orgulho de você'. Depois que passa, você vê que dá tudo certo.
E meu marido ajudou muito. Eu não teria a carreira que eu tenho se não fosse por ele.

Preconceito e Machismo

Vê traços de machismo e preconceito nos seus ambientes profissional e pessoal?
Sempre trabalhei em empresas (que valorizavam) a meritocracia, em que quem entrega resultado cresce. Nunca senti (machismo), pelo contrário - acho até que é uma oportunidade. Na minha carreira, (inicialmente) não havia muitas mulheres e as que estavam lá se destacavam. Hoje é diferente, já é meio a meio nas empresas.
Por que as mulheres ainda ganham menos em salário do que os homens?
Como recrutadora de pessoas no nível sênior, não vejo isso. Não existe isso de "se contratar mulher vou pagar menos do que para homens". No meu universo, que é um nicho, não tem isso. Talvez essas pesquisas salariais falem mais de chão de fábrica - é uma generalização.
Sem falar da área de consumo. Quem decide a compra do automóvel da família já é muito mais a mulher do que o homem. Ela decide a compra da maioria dos produtos da casa. Então (terá mais sucesso) uma empresa que tem mais mulheres que fazem produtos para essas mulheres. Já é chover no molhado - todas as empresas sabem disso.


Fonte: Site BBC - Brasil