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sábado, 5 de abril de 2014

Ainda queremos casar.




Casamento, a perversão consentida.

A tradição liberal tende a definir o casamento como um contrato realizado entre duas pessoas, no livre exercício de sua liberdade e faculdades mentais. Um contrato que inscreve os envolvidos em um discurso, por meio do qual o Estado reconhece tal união, prescrevendo, a partir daí, direitos e deveres ligados à descendência e à herança do casal. No direito canônico e para a maior parte dos ritos cristãos da Antiguidade o casamento era apenas uma forma de reconhecimento de um laço entre pessoas. Os nubentes se casam, o padre, o juiz ou correlatos apenas testemunham, divulgam ou celebram. 

Hoje, assim como há uma força que pressiona rumo à ampliação das modalidades de casamento, há outra que tende a reduzir a importância do contrato. Na experiência clínica são cada vez mais frequentes situações de casais que vivem juntos e que se consideram casados, até que um filho, uma herança ou um plano de saúde os separem. Sentimos que o contrato informal e íntimo é a essência de uma relação amorosa e que tal ligação deve perdurar por seus próprios motivos. O combinado, neste caso, acrescenta um incômodo signo de inautenticidade ao que é, afinal e antes de tudo, um pacto de amor entre dois. Mas, como pensam outros tantos, uma relação que não tem estatuto de lei é uma forma de amor acanhada e incompleta. Como um namoro secreto que entre quatro paredes ganha tórrida intensidade, mas que fora dali parece feito de mentira e destituído de realidade. Os dois lados parecem ter suas razões: o verdadeiro amor é livre, somente se, livremente, renunciar a sua liberdade. 

Foi Immanuel Kant, um célebre celibatário, quem observou a natureza problemática do enlace ao perguntar: “Se o casamento é um contrato, que tipo de lei realiza?”. A resposta é que se trataria de uma espécie de confusão consentida entre uma lei condicionada à propriedade, que regula a relação entre pessoas e coisas, e a lei de tipo comunitária, que organiza a relação entre pessoas. Isso porque o casamento dispõe sobre certo tipo de uso do corpo do outro (propriedade), assim como sobre uma forma de vida comum, livre e justa (comunalidade). Portanto, o contrato mistura, de modo confuso, mas ainda assim deliberado, duas dimensões que sabemos serem independentes: o sexo e as trocas sociais. O sexo suspende a equidade das trocas sociais, introduz relações de uso, abuso e exclusividade entre quase coisas. Por outro lado, a igualdade jurídica cria uma suspensão das diferenças, distinções e diversidades instituindo a figura de quase pessoas (que ignora as pessoas reais, seus desejos reais e seus gozos inconstantes). Fundamentando o casamento como contrato temos então uma lei baseada em um equívoco, que trata pessoas como coisas e coisas como pessoas, que demanda regulação pelo Estado de um ato privado, que fixa a paixão de ser objeto e eterniza nossa condição de instrumento para o outro. Tudo isso junto e misturado é o que se chama clinicamente de perversão. Conclusão: o casamento é uma perversão consentida. Se Kant tinha razão, nossa crescente covardia diante dessa união como contrato é mais um sinal de nossa normalopatia.

Christian Ingo Lenz Dunker

Fonte: Revista Mente e Cérebro

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

CRIANÇA PRECISA SER CUIDADA



Outros formatos de família
Rolesy Sayão

Já faz tempo que nossa sociedade discute as mudanças que têm ocorrido nas famílias. Primeiramente a separação, depois o divórcio e na sequência os recasamentos que surgiram como consequência provocaram uma grande modificação no grupo que, tradicionalmente, era chamado de família e cuja estrutura era formada por um homem e uma mulher que se uniam até que a morte os separasse e tinham filhos. Agora, há pelo menos duas décadas, uma nova discussão entrou nessa pauta: a formação de grupos familiares que têm como base um casal formado por duas pessoas do mesmo sexo.

A partir da década de 1960, quando surgiram as primeiras mudanças significativas na configuração familiar , não faltaram análises preconceituosas que defendiam a permanência da configuração familiar tradicional em nome do desenvolvimento “sadio” das crianças. Na época em que casais começaram a se separar não faltaram teorias e conjecturas que afirmavam que filhos de casais separados tinham todas as possibilidades de serem “crianças problemáticas”. Hoje, com uma geração de adultos que foram criados por pais separados vivendo como qualquer outro adulto, constatamos que tal profecia não se realizou.  A separação não se mostrou, ela mesma, um fator responsável por gerar problemas aos filhos.

Atualmente, mesmo com a visibilidade social da condição homossexual de um grande número de pessoas que lutam por uma vida digna e com os mesmos direitos civis e sociais de todos, dá para perceber que ainda há muito preconceito tanto em relação às novas configurações familiares em geral quanto especificamente àquelas que têm sua base formada por uma união homossexual. E, como não poderia deixar de ser, as crianças têm sido novamente usadas como o fiel da balança aos que são contrários a essa formação familiar. Isso nos permite concluir que os casais homossexuais trilham, atualmente, o mesmo caminho que casais heterossexuais que se separaram já trilharam na busca da legitimidade de sua condição. Agora é a hora, portanto, de refletirmos a respeito das crianças em seu contexto familiar.  

O que é importante para uma criança para que ela tenha condições favoráveis ao seu desenvolvimento? Que ela seja amada, primeiramente. E não se trata de um tipo de amor pegajoso que enche a criança de abraços, beijos e declarações sem fim. Trata-se, sim, de um amor que se expressa em cuidados, na proteção necessária – sem exagero – e na presença adulta para a introdução da criança no mundo das relações com os outros.
Ora, qualquer pessoa pode, potencialmente, oferecer isso a uma criança seja ela homossexual ou não, separada ou não. Da mesma maneira, qualquer pessoa pode também não ter disponibilidade pessoal para oferecer esse contexto a um filho, seja ela unida a uma pessoa do sexo oposto, do mesmo sexo ou sozinha, não é verdade? Então, para a criança, pouco importa o tipo de configuração familiar a que pertence. Para ela, importa mesmo é que sua família, tenha ela a configuração que tiver, lhe ofereça o sentimento de pertencimento e que funcione como guia adulto seguro na introdução à vida em  grupo.

Todo adulto, tenha ou não filhos, tem compromissos humanos e éticos com todas as crianças já que elas é que serão responsáveis por nosso futuro. Isso implica em muitas responsabilidades e, especialmente, em uma das mais árduas: a de superar preconceitos, sejam estes de raça, de religião, de classe social ou de gênero e sexualidade, entre outros. Por isso, temos obrigação de olhar para os novos contextos familiares em que vivem muitas crianças sob a ótica da paternidade e/ou maternidade responsáveis tão somente. 


domingo, 13 de outubro de 2013

Enfrentando Preconceitos



Daniela Mercury reage a preconceito:


'em casal de mulheres ninguém entra'


A cantora Daniela Mercury, 48, trabalha em um novo álbum, "mais autoral", e em um livro, a ser lançado em novembro com sua esposa, Malu Verçosa.
"É uma biografia amorosa-jornalística do nosso relacionamento, o que aconteceu e o impacto que isso teve", diz Daniela, a respeito da revelação, feita no início do ano pelo Instagram, de seu relacionamento homossexual.
As duas se casam no civil neste sábado e, como uma "atitude política", vão passar a usar os sobrenomes uma da outra. "Já trocamos alianças, mas a sociedade precisa de clichês", diz a cantora.
Nessa entrevista Daniela conta que ainda ouve risadinhas de homens. "Tenho a sensação de que fere muito a masculinidade de alguns homens o fato de duas mulheres estarem juntas", diz.
Mas pede à reportagem: "Quando for escrever, (ressalte que) o meu intuito não é bater nos homens. Falo da minha vivência particular. Não diferencio as pessoas pelo sexo, mas essa divisão e a atribuição de poder ainda existe na sociedade. O machismo é uma doença social que a gente precisa erradicar, com posicionamento, clareza, e não se deixar diminuir".

BBC - Quais os principais desafios que enfrenta como mulher? Como a maioria, concilia diversos papéis?
Daniela Mercury - A mulher acrescentou papéis na sua vida, por sua necessidade de se expressar, de produzir, de existir como profissional e ter sua independência financeira. Quando querem ter filhos, em geral ela faz muito mais coisas do que o homem - costuma fazer toda a gestão da casa, das crianças, ainda que, em casais héteros, o marido ajude cada vez mais.
Acho que os casais de mulheres dividem mais as atribuições dentro e fora de casa, é mais igual. Agora, com Malu, ela já assumiu metade dos assuntos - ela já pega, paga, resolve. Ela assume a responsabilidade, coisa que em geral o homem não faz. Eu que já fui casada com homem e com mulher (posso dizer).
Você me pergunta do papel da mulher hoje. A mulher está sujeita a abusos muito mais constantemente do que homens. E são subliminares. Como uma mulher sozinha é vista na sociedade brasileira? Para a maioria, ela teria de ter um homem ao lado dela para ser respeitável.
Muita gente vai dizer que isso não existe mais, mas existe. Muitas mulheres não querem casar, querem uma vida sexual mais livre, são donas do próprio nariz e bem-sucedidas profissionalmente. Não encontraram um parceiro para conviver e são olhadas como "tadinhas".
Passei uma época da minha vida solteira e convivendo com casais amigos. Depois de uns três anos, quando estava com um novo namorado, ouvi de três ou quatro amigas: "Que bom, você agora tem namorado". Fiquei assustadíssima. Respondi "mas eu estava ótima!".
Por que essa ideia de que eu precisava de alguém, e (sobretudo) de um homem? É muito forte isso - e vem das mulheres, que exigem umas das outras que estejam com homens para serem protegidas, respeitadas.

Você foi elogiada por ter sido franca quanto a seu relacionamento com a Malu. Mas sente esse "abuso subliminar"?
Pela nossa naturalidade, por sermos mulheres inteligentes, fortes, bonitas, femininas e decididas, a gente não deixa muita brecha. Se alguém ameaçar olhar torto, a gente já reage, sutilmente ou menos sutilmente. Mas são perceptíveis olhares, eventualmente uma conversinha ou outra, uma risadinha de mesas de homens (em um restaurante).
Às vezes tenho a sensação de que fere muito a masculinidade de alguns homens o fato de duas mulheres estarem juntas. Acham que vão transar com as duas, ter as duas sexualmente. Não percebem que, em um casal de mulheres, ninguém entra. Nem homem, nem outra mulher, vai entrar em um casal que se predispõe a viver junto com fidelidade, compromisso.
Não que (o laço) seja mais ou menos forte do que um casal heterossexual, mas é no mínimo equivalente. Ainda que não seja considerado assim.

Os rótulos de comportamentos sexuais - sejam de homossexualidade ou de promiscuidade - te incomodam?
Quando vemos dois homens ou duas mulheres juntas, qual o problema? A preocupação (tem de ser) se aquela pessoa é legal, correta, positiva, vai fazer bem para o outro. Mas a questão acaba sendo toda o tabu sexual.
(Os rótulos) são insuportáveis. Acho inadmissível piadinha com gay, tão comuns no sexo masculino. São brincadeirinhas nocivas, desagradáveis, preconceituosas ao extremo.
E sobre o fato de as mulheres estarem sempre (retratadas) como as promíscuas, sedutoras, isso é o nosso carimbo bíblico desde Eva. Está no inconsciente da sociedade. É um mito completo. Vejo muitas mulheres que seduzem porque estão submetidas ao homem. Elas continuam mostrando muito seu corpo, vendendo sua imagem sem pensar a respeito disso.
Odeio quando vou aos EUA ou à Europa e escuto "vou para o Brasil arrumar uma mulher para transar". Não é à toa que o turismo sexual e a pedofilia são problemas tão sérios. Não é à toa que em países latinos tenhamos pais machistas, ou o mito da virgindade como símbolo de pureza.
E as mulheres acabam alimentando isso, o que é irritante. As brasileiras ainda precisam cuidar de si mesmas. Não quero ser dona da verdade, mas a sensação é de que a gente tem que se valorizar muito mais.
Todos temos momentos de fragilidade, homens ou mulheres. Mas as mulheres às vezes se põem nessa situação de vítima, de querer se protegida. Se a gente quer (igualdade), então também temos que assumir a responsabilidade de sermos o que quisermos.

Na sua área, muito se idolatra a mulher gostosa, sarada.
É verdade. E se pressupõe que essas mulheres não sejam muito inteligentes. Porque as mulheres inteligentes ainda irritam muita gente.
E eu hoje em dia me irrito com as mulheres não muito inteligentes, ou que se fazem de bobas, porque acham que esse é o caminho mais fácil. É mais fácil, mas muito perigoso.
O brasileiro já não é um povo que se posicione muito. A gente fala pouco claramente, porque acha que falar a verdade incomoda demais. Daí vai ficando uma sociedade na névoa, em que tudo acontece mas ninguém deixa claro o que acontece.
Acho que o que eu e Malu fizemos não foi nada de extraordinário, a gente só foi transparente, clara, falou a verdade. Mas isso teve um impacto muito grande porque a sociedade prefere fingir que não existe aquilo.

E você se sente mais feliz ao ter falado a verdade?
De ter comunicado minha relação? Sem dúvida alguma. Não tinha como ser de outra forma - viver em uma relação, construir uma família e camuflar isso não é do meu perfil.
Ninguém é contra o amor. Por isso a gente está recebendo tanto apoio.

Vê traços de machismo em seus ambientes profissional e pessoal?
A arte é uma área diferente, de pessoas sensíveis, abertas, (mas) os homens são os mesmos e as mulheres são as mesmas - filhos das mesmas famílias provincianas.
Acho que há, sim, machismo. Quando você vê um homem cantando, já presume que ele seja compositor, músico, pense por si mesmo e tenha o conceito do próprio trabalho. Mas (no caso da) mulher você pensa no máximo "ela é uma ótima intérprete", e não uma criadora. Em geral acham que a mulher é comandada por alguém.
Sou produtora, diretora, concebo meu trabalho desde o começo, sou compositora de muitas das minhas obras. Uma vez cheguei na gravadora BMG e fui conversar com um diretor artístico. Falei para ele que estava preparando um disco mais íntimo, com canções de amor, mais existenciais. Ele respondeu: "Para mim mulher não tem que pensar conceito".
Eu levantei e saí, e só não rasguei meu contrato porque não era empregada dele, era parceira da gravadora.
Se eu não tivesse personalidade forte e não viesse de uma educação de mulheres fortes - minha mãe e minha avó, mulheres que se posicionaram diante do mundo -, eu ia ser engolida. Teria desistido de fazer várias coisas.
Meu pai, apesar de católico e conservador em muitas coisas, sempre me deu muita força e me respeitou muito. Nunca havia moral boba em casa, sempre se acreditou que como seres humanos todos (os cinco filhos) deveríamos ser respeitados. Então não me deixo desrespeitar fora de casa.
Estou fazendo meu primeiro trabalho completamente autoral, para que as pessoas possam perceber como eu penso, enxergar a Daniela autora. Muitos dizem "não sabia que você compunha", e eu sou autora de grandes sucessos meus, como "O Canto da Cidade".
Tenho sempre que reiterar minha autonomia. É cansativo, mas se não for assim, fica mais difícil ainda.
Fonte: site BBC-Brasil


 


sábado, 12 de outubro de 2013

Mulheres, Família e Profissão




Tentar ser supermulher está fora de moda

Ana Paula Chagas, 50, é headhunter há mais de duas décadas e sócia de uma empresa de recrutamento, além de uma das criadoras no Brasil do Women Corporate Directors, fórum cuja missão principal é ampliar a presença de mulheres no topo do comando das empresas.

Mulheres Executivas

BBC - A procura por mulheres executivas tem crescido no Brasil?
Ana Paula Chagas - Com certeza. Isso começou um pouco seguindo empresas americanas, que diziam que era preciso ter diversidade e criaram programas para contratar pessoas de (diferentes) sexos, raças. Mas elas concluíram que as empresas que têm mais diversidade dão mais lucro.
(Mas) hoje nem um 1% das presidentes das 500 maiores empresas são mulheres. É algo que leva tempo, uma geração ou duas, mas está mudando. Em gerência média já vejo muitas mulheres, e elas são maioria em algumas áreas, como RH e marketing.
É claro que a mulher tem um monte de outras responsabilidades - ela tem a maternidade, depois cuida dois pais. Tudo tem um preço.
Algumas mulheres não querem fazer isso (chegar ao topo do comando da empresa). Há mulheres que olham para mim e para minhas colegas e dizem, 'não sei se quero essa vida', de acordar 5h da manhã, trabalhar 12 horas por dia.
Ao mesmo tempo, essa mulher atual consegue conciliar tudo porque o marido divide as responsabilidades. Antigamente, quando eu entrevistava um executivo, ele não falava da família. Hoje entrevistei um, de 30 e poucos anos, e a primeira coisa de que ele falou foi da mulher, dos filhos. Ele lava a louça, ajuda.

Divisão de Tarefas

Gerou polêmica recentemente nos EUA caso da CEO do Yahoo!, Marissa Mayer, que tirou apenas algumas semanas de licença-maternidade e voltou ao trabalho. Por onde caminha esse debate?
O debate caminha pelo marido ajudar a dividir as tarefas - e não pela mulher desistir da carreira. O marido prefere a mulher que trabalha à dona de casa, porque precisa das duas rendas. Estou falando de 2% da população do Brasil - executivos, classe A e B. Porque, se falarmos da população inteira, a mulher é chefe de família, ela que segura o tranco, faz tudo - às vezes sem marido.
Em cargos competitivos, a mulher em licença-maternidade muitas vezes fica online, volta antes, vai a reuniões. A executiva às vezes fala 'eu não vou parar, não vou estragar minha carreira'. A do Yahoo! foi um pouco radical. Respeito também as mulheres que querem ter esse momento, amamentar e ficar em casa. Mas conheço muitas que voltam depois de um mês porque não podem largar seu trabalho e ficar cinco meses em casa. É uma decisão muito pessoal.
Tive filhos em empresas diferentes, para não atrapalhar a carreira. A mulher pode planejar a carreira e a hora de ter filhos - 'agora que eu entreguei um projeto é bom momento para parar'. No momento errado prejudica mesmo. Não dá para ter três filhos na mesma empresa e reclamar que não foi promovida.

Maternidade e Vida Profissional

É uma estratégia usada por várias executivas? Será que isso de certa forma não confirma que as empresas ainda veem esse lado materno da mulher como um fardo?
O fato é que uma executiva com carreira competitiva tem que planejar suas gestações sim. Filhos são maravilhosos, mas não da para ter dois ou três filhos em seguida, ficar mais de um ano fora da empresa e em poucos anos e ainda querer ser promovida. Portanto, quando possível, planejar a hora melhor de ter filhos é muito inteligente e um passo estratégico a favor das mulheres.
As empresas não veem a gravidez como um fardo, mas simplesmente promovem outra pessoa ou colocam outro no lugar.
(Ao mesmo tempo) as mulheres estão casando, estão tendo filhos, e estão tendo sucesso na carreira. Está dando, elas estão conseguindo.
Mas há muita ansiedade por tentar abraçar tanta coisa, não?
Aí talvez seja um pouco culpa da própria mulher, que tende a ser centralizadora. Ser a supermulher está fora de moda. Não dá para ser mulher perfeita, mãe perfeita, executiva perfeita. Buscar filho na escola, cuidar da casa, ser executiva, cuidar dos pais, e o marido só chegar à noite e encontra tudo arrumadinho - essa mulher está deixando de existir.
A que eu vejo mais hoje delega, terceiriza, e tem o maridão junto. Ele tem que ter orgulho da carreira dela. Mas se ele não apoia ou eles competem, aí não tem jeito.

As dificuldades de lidar com o Poder

Quais os principais debates em pauta na Women Corporate Directors?
O principal é: por que há poucas mulheres no topo das empresas?
Acho que algumas têm um perfil menos arrojado. Quando pergunto ao homem se ele está pronto para ser presidente ou sentar num conselho, ele fala 'sim, já estou indo'. Já a maioria das mulheres respondem 'ah, não sei, será que eu estou pronta, será que vou dar conta?'.
É um pouco da cultura em que fomos criadas. Algo que a mulher no Brasil tem de superar e dizer 'claro que estou pronta, senão não teria chegado onde cheguei'.
O maior desafio é a mulher entender que papel ela tem e quer ter; onde ela quer ser muito boa e onde aceita ser mais ou menos, sem culpa. Tirar isso de uma geração que foi criada para ser dona de casa é difícil.
Já a geração mais jovem acho que nem vai ter essa discussão. Cursei a Fundação Getúlio Vargas (em São Paulo) 20 anos atrás. Havia três mulheres na minha turma. Hoje, minha filha faz o mesmo curso de administração, e 60% da sala dela são mulheres. É uma mudança importante para as mulheres que vão entrar no mercado de trabalho.

As Futuras Gerações

Quais serão, então, os desafios da geração da sua filha?
Acho que os debates dela serão idênticos aos dos colegas homens da idade dela: se quer trabalhar em empresa ou ser empreendedora; se quer viajar o mundo; se quer casar e ter filhos ou não. O machismo não está nem na pauta.
A definição de sucesso está mudando para as mulheres do mundo corporativo?
O mundo corporativo está crise de qualidade de vida, mas isso vale tanto para mulheres como para homens. Todos querem trabalhar menos, ficar mais com a família, fazer mais ginástica. Isso é resultado de morar em cidades como São Paulo e da complexidade que virou cuidar da saúde, da família, dos pais, enfrentar o trânsito. Do presidente ao trainee da empresa, homens ou mulheres.

Novos Desafios

Quais os maiores desafios que enfrenta hoje como mulher?
O maior desafio é equilibrar todos os pratinhos - ser boa esposa; ter os filhos próximos apesar de ter pouco tempo, então buscar a qualidade desse tempo; não ter culpa, e sim orgulho de trabalhar fora; e cuidar dos pais, ir à manicure. Acabo fazendo ioga as 5h da manhã, o único horário que sobra.
Ter tido uma mãe que trabalhava influenciou muito. Ela sempre me dizia que eu tinha que ter a minha carreira. Ao mesmo tempo ela dizia que eu tinha que ser a Amélia perfeita. Mas de de jeito algum eu consegui; fiz muita terapia para aprender a lidar com isso. Tenho muito orgulho de trabalhar fora e não tive tempo de trocar fralda e dar papinha aos meus filhos (de 13 e 18 anos). Pergunto sobre isso para eles hoje e me dizem: 'mãe, nem lembro. Tenho orgulho de você'. Depois que passa, você vê que dá tudo certo.
E meu marido ajudou muito. Eu não teria a carreira que eu tenho se não fosse por ele.

Preconceito e Machismo

Vê traços de machismo e preconceito nos seus ambientes profissional e pessoal?
Sempre trabalhei em empresas (que valorizavam) a meritocracia, em que quem entrega resultado cresce. Nunca senti (machismo), pelo contrário - acho até que é uma oportunidade. Na minha carreira, (inicialmente) não havia muitas mulheres e as que estavam lá se destacavam. Hoje é diferente, já é meio a meio nas empresas.
Por que as mulheres ainda ganham menos em salário do que os homens?
Como recrutadora de pessoas no nível sênior, não vejo isso. Não existe isso de "se contratar mulher vou pagar menos do que para homens". No meu universo, que é um nicho, não tem isso. Talvez essas pesquisas salariais falem mais de chão de fábrica - é uma generalização.
Sem falar da área de consumo. Quem decide a compra do automóvel da família já é muito mais a mulher do que o homem. Ela decide a compra da maioria dos produtos da casa. Então (terá mais sucesso) uma empresa que tem mais mulheres que fazem produtos para essas mulheres. Já é chover no molhado - todas as empresas sabem disso.


Fonte: Site BBC - Brasil

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mulheres: Conquistas e Desafios



Mulher brasileira é vítima de seu próprio machismo, diz historiadora...

Mary Del Priore é historiadora, professora universitária e autora de obras como História das Mulheres no Brasil , vencedor dos prêmios Jabuti, Casa Grande e Senzala,  Histórias e Conversas de Mulher, em que acompanha avanços femininos desde o século 18.
Para a historiadora, as mulheres brasileiras do último século conquistaram o direito de votar, tomar anticoncepcionais, usar biquíni e a independência profissional. Mas ainda hoje são vítimas de seu próprio machismo.
Muitas mulheres "não conseguem se ver fora da órbita do homem" e são dependentes da aprovação e do desejo masculino, opina ela.

BBC-BRASIL - Você vê traços de machismo ou preconceito em seus ambientes profissional e pessoal?
Mary Del Priore - No ambiente profissional, não vivi nenhum problema, porque desde os anos 1980 o setor acadêmico sofreu grande "feminilização". As mulheres formam um bloco consistente nas disciplinas (universitárias) mais diversas.
Mas, na sociedade, acho que o machismo no Brasil se deve muito às mulheres. São elas as transmissoras dos piores preconceitos. Na vida pública, elas têm um comportamento liberal, competitivo e aparentemente tolerante. Mas em casa, na vida privada, muitas não gostam que o marido lave a louça; se o filho leva um fora da namorada, a culpa é da menina; e ela própria gosta de ser chamada de tudo o que é comestível, como gostosa e docinho, compra revistas femininas que prometem emagrecimento rápido e formas de conquistar todos os homens do quarteirão.
O que mais vemos, sobretudo nas classes menos educadas, é o machismo das nossas mulheres.

- Mas muitas até querem que os maridos ajudem em casa, mas será que essas coisas do dia a dia acabam virando motivos de brigas justamente por conta do machismo arraigado? E também há mulheres estudadas, ambiciosas e fortes - mas também vaidosas, que ao mesmo tempo querem se sentir desejadas por um parceiro(a) que as respeite. Isso é uma conquista delas, não?
- Ambas as questões não podem ter respostas generalizantes. Mais e mais, há maridos interessados na gerência da vida privada e na educação dos filhos. Quantos homens não vemos empurrando carrinhos de bebê, fazendo cursos de preparação de parto junto com a futura mamãe ou no supermercado? Tudo depende do nível educacional de ambos os parceiros. Quanto mais informação e mais educação, mais transparente e igualitária é a relação.
Quanto às mulheres emancipadas, penso que preferem estar sós do que mal acompanhadas. Chega de querer "ter um homem só para chamar de seu". Elas estão mais seletivas e não desejam um parceiro que queira substituir a mãe por uma esposa.

- Como a mulher mudou – e o que permanece igual – no último século?
Temos uma grande ruptura nos anos 60 e 70 no Brasil, que reproduz as rupturas internacionais, com a chegada da pílula anticoncepcional. As mulheres começaram a ocupar postos nos diversos níveis da sociedade, a ganhar liberdade sexual e financeira. Ela passa atuar como propulsora de grandes mudanças. Quebra-se o paradigma entre a mulher da casa e a mulher da rua.
(Mas) a mulher continua se vendo através do olhar do homem. Ela quer ser essa isca apetitosa e acaba reproduzindo alguns comportamentos das suas avós. Basta olhar algumas revistas femininas hoje. Salvo algumas transformações, a impressão é de que a gente está lendo as revistas da época das nossas avós.
A mulher não consegue se ver fora da órbita do homem, diferentemente de algumas mulheres europeias, que são muito emancipadas. O que ela quer é continuar sendo uma presa desejada.
A (antropóloga) Mirian Goldenberg diz que a mulher brasileira continua correndo atrás do casamento como uma forma de realização pessoal. No topo da agenda dela não está se realizar profissionalmente, fazer o que gosta, viajar, conhecer o mundo – está encontrar um par e botar uma aliança no dedo. Mesmo que o casamento dure uma semana.

Quais as amarras das mulheres atuais?
 O machismo é uma das questões. Outra, que talvez explique a inatividade da mulher frente a esse padrão, é que, com a entrada num mercado de trabalho tão competitivo, com tantas crises econômicas e uma classe média achatada, a luta pela sobrevivência se impõe sobre qualquer outro projeto.
Essa falta de tempo para respirar, o fato de ter que bancar filhos ou netos, isso talvez não dê à mulher tempo para se conscientizar e se erguer acima do individualismo – outra tônica do nosso tempo – e pensar no coletivo.

- Ao mesmo tempo em que a mulher avança no mercado de trabalho, algumas também têm perdido a vergonha de parar de trabalhar para cuidar dos filhos; ou resgatado, como hobbies ou profissão, antigas "tarefas de mulher", como tricô, cozinha, artes manuais. Desse ponto de vista, existe um poder maior de escolha das mulheres?
- Sempre apostei que as mulheres não deveriam buscar ser "um homem de saias", mas apostar em sua diferença e singularidade. As marcas do gênero, segundo sociólogos, são a criatividade, a diplomacia, capacidade de dialogar, etc. O fato de que elas busquem se realizar resgatando o trabalho doméstico, manual ou artesanal é uma prova de que a singularidade feminina tem muito a oferecer.
A mulher pode, sim, realizar-se através do trabalho doméstico e não necessariamente no público. Desse ponto de vista elas só estariam dando continuidade a uma longa tradição, discreta e oculta, que é a independência adquirida por meio de atividades desenvolvidas no lar. Nossas avós, quando trabalhadoras domésticas, já conheceram essa situação. A tecnologia só nos ajuda a torná-lo mais eficiente.

- Que papel a educação teve na mulher que você é hoje?
Tive uma trajetória peculiar. Resolvi fazer universidade (aos 28 anos) quando já era mãe de três filhos. A maturidade me ajudou muito a progredir. Tive a sorte de ter na PUC-RJ e na USP um ambiente muito receptivo, porque era um momento em que a universidade estava largando aquela camisa de força marxista e se abrindo para estudos de cultura e sociedade, que me interessavam.

BBC Brasil - Quais os principais desafios que você enfrenta como mulher?
Del Priore - Hoje o grande desafio, em qualquer idade, é o equilíbrio interior, estar bem consigo mesma. Quando começamos a envelhecer – o que é o meu caso, aos 61 anos –, é preciso olhar isso com coragem, ver isso como um investimento positivo. E ter tempo para a família, para as pessoas em volta da gente.
Quando era mais jovem, eu me preocupava muito com grandes projetos. Hoje me preocupo com o pequeno – acho que é por aí que você muda a realidade. É no dia a dia, na maneira como você trata as pessoas à sua volta, no respeito que você tem pelo seu bairro. Não temos condições de abraçar o mundo. Através do micro, a gente consegue aos poucos transformar o macro.

Essa entrevista faz parte da série "100 Mulheres - Vozes de Meio Mundo". A série, publicada globalmente pela BBC, trata dos desafios da mulher contemporânea.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Síndrome do Ninho Vazio




Para alguns pais, é muito difícil a separação dos filhos. O luto do ninho vazio é acompanhado de um sentimento melancólico tão profundo que, muitas vezes, induz a períodos de depressão. Tentando se defender dessa experiência dolorosa, esses pais fazem o possível e o impossível para manter os filhos, por um longo tempo, em casa.

Para sustentar essa escolha perante aos amigos e outros membros da família, nunca faltam boas desculpas. A mais usada, e a de maior valor de persuasão, é a questão financeira. As crianças – observe como a maioria desses casais tendem a chamar os filhos de “as crianças” – ainda não ganham suficiente para se manterem sozinhas. Então, por que se sacrificar para sair de casa antes do casamento. Afinal, a casa é grande e tem espaço de sobra para todos. Ou então, quando  “as crianças” já estão ganhando o suficiente para se sustentarem sozinhas, ainda tem a desculpa de que em casa é mais fácil fazer uma boa poupança para o futuro.

Como rebater um argumento tão racional, lógica e consistente. Na verdade, não é questão de rebater, nem mesmo, de recriminar essa escolha. O que me interessa pensar são as dificuldades e o medo que alguns pais demonstram, frente à perspectiva de voltarem a viver a experiência de casal. Aquela experiência primeira, a convivência que antecedeu a chegada dos filhos. Para alguns, esse tempo foi muito rápido. Os filhos chegaram logo depois do casamento. Para outros, durou alguns anos. Nesse último caso, se a vivência a dois foi positiva, eles terão menos medo de recuperar o status de casal.

Acredito que casais que tiveram filhos logo após o casamento têm mais dificuldade em aceitar a vivência a dois. O casamento adquiriu, muito cedo, a significação de família. Pensar-se sem a convivência diária dos filhos é assustador.  A falta dos filhos descortina a falta de significação do casal. A perspectiva de viver a dois não tem consistência, é vazia. Esses casais teriam que estar dispostos a se reinventar. A construir juntos, um novo sentido para suas vidas. O que pode ser muito gratificante e enriquecedor. Mas sempre é assustador. Nós, seres humanos, temos muito medo de mudanças.

Outra dificuldade que gera o medo da separação dos filhos, para alguns casais, é que a vivência a dois, no início do casamento, foi tão frustrante que a possibilidade de que ela se repita é assustadora. Nestes casos, o medo é que ao voltar ao status de casal, a separação será iminente. E, infelizmente, manter os filhos por o mais longo tempo possível dentro de casa, é percebido como a melhor solução. Uma solução que remedia o problema, mas não resolve.

Afinal, como já dizia o guru dos anos 70, Gibran Kahlil, “vossos filhos não são vossos filhos, são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem...”

Maria Holthausen


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Relacionamento Homoerótico: Um Novo Modelo de Família




Falar da família contemporânea é falar das mudanças que essa instituição civil vem incorporando desde os meados do século passado. Se antes, os laços familiares eram formados apenas por critérios patrimoniais e biológicos, hoje, o elemento unificador da constelação familiar é o afeto. As famílias se formam através dos vínculos de amor e afeição. Estes, sim, são os verdadeiros elementos solidificadores da união familiar.

A família homoerótica, homoafetiva ou homoparental, é uma das várias formas da família contemporânea. Ela parte da união, por vínculo de afeto e desejo sexual, entre pessoas de mesmo sexo. Uma união que, embora aprovada pelo código civil, ainda sofre as consequências de muitos preconceitos.

Talvez, um dos maiores preconceitos, vividos hoje pelos casais homoeróticos, é o da adoção de crianças. Teme-se, por exemplo, que crianças adotadas por esses casais sofram a intolerância e, muitas vezes, o ódio irracional da sociedade pela opção de seus pais adotivos. Diz-se: - “Essas pessoas não estão levando em conta o sofrimento, causado na criança, pelo preconceito que pesa sobre os seus pais.”

Não sou ingênua, acredito que essas crianças viverão, sim, uma série de situações preconceituosas e terão que aprender a conviver com elas. Mas, por causa do preconceito, não podemos duvidar do direito desses casais de adotarem suas crianças. Muitas outras crianças sofrem com o preconceito social: as negras, as gordinhas ou muito magrinhas, as que nasceram com alguma diferença física ou emocional, e assim por diante.

A maioria dos adultos sofreu algum tipo de preconceito na infância e teve que aprender a conviver com eles. E afinal, muito mais importante que o preconceito é o afeto, a educação e a segurança que os casais homoparentais podem oferecer a uma criança que vive em um abrigo institucional. Crianças precisam de dedicação, cuidado, respeito e amor, precisam de alguém que lhe dê condições para crescer de maneira saudável, tendo seus direitos e deveres observados e respeitados. Nenhum abrigo, por melhor que seja, pode oferecer essas condições.

Portanto, se nos preocupamos com o preconceito que essas crianças podem vir a sofrer, temos que arregaçar as mangas e começar a colocar um basta no preconceito. O erro é o preconceito, não esse modelo de adoção. As escolas precisam estar mais preparadas para lidar com as novas formas de famílias. Assim como todos os profissionais que trabalham nas várias etapas do processo de adoção.  

Maria Holthausen

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A Elegância como Gesto




Acabei de ler um pequeno texto, de 2004, do saudoso Daniel Piza, sobre a elegância. Piza começa o texto afirmando que, nos tempos atuais, a deselegância está na moda. E, porque a moda é a deselegância, costumamos menosprezar a elegância como um atributo de superfície.

Não é nada disso - assegura Piza, sobre o preconceito contemporâneo desse tão saudável e esquecido modo de relacionamento social. A elegância é o reconhecimento de que há potenciais campos de consenso entre os seres humanos e, logo, a forma de busca-los – nem que seja para descartá-los – tem de ser transparente e proporcional.

 A elegância, continua Piza, é um modo de manter a sobriedade sem cair na frieza; de aceitar a complexidade da realidade, mas não se conformar com a pequenez; de ser claro, para resistir tantos aos eufemismos como às hipérboles. É a arte de dizer muito em pouco, de adensar sem adornar, de simplificar para não banalizar. É ser incisivo, sem ser inconsequente. É não pendurar no pescoço uma cartaz que diz ¨Olha como sou fashion!¨, mas também não é ser tão discreto que se fala sozinho.

Esquecidos do valor moral desse modo de relação social, costumamos associar à elegância ao estar bem vestido ou ao estar com o corpo “em forma”. Ou seja, associamos elegância a uma imagem e não a um gesto.   O texto de Daniel Piza nos faz redescobrir a elegância do gesto, do ato, da ação: um modo elegante de se relacionar com o outro.

Um modo de relacionamento onde, por exemplo, a sinceridade não seja sinônimo de agressividade ou depreciação do parceiro. Onde o amor pelo parceiro, ou pelos filhos, não seja sinônimo de posse. Onde a luta pelo espaço profissional leve em conta a condição humana de incompletude.

Ser elegante é antes de tudo saber olhar para o outro com humanidade. E nunca perder a perspectiva que dentro desse caldo chamado “humanidade”, somos todos iguais, porque somos todos mortais.      


Maria Holthausen 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Lei Maria da Penha



Neste mês comemora-se seis anos da Lei Maria da Penha. A lei que criminalizou a violência contra as mulheres. A promulgação da lei foi importante, nem tanto pelos seus efeitos legais, mas por seus efeitos psicológicos na sociedade. Antes dessa lei, percebíamos a violência contra as mulheres como algo comum entre alguns casais. Era, antes de tudo, um problema do casal. Só quando essa violência transformava-se em homicídio é que a justiça entrava em ação.

Sob o efeito da lei, percebe-se que o problema não é do casal, mas da família. Toda a família sofre as consequências desses atos agressivos. Os filhos levarão por toda a vida a memória dessa violência. Os meninos, a partir do exemplo do pai, podem ser tornar adultos violentos. As meninas, num movimento simbiótico com a mãe, procurarão, mesmo sem ter consciência dessa procura, maridos agressivos, repetindo a história da mãe.

Ao perceber que a violência ultrapassa as fronteiras do casal, espalhando seus efeitos por toda a família, as mulheres se sentem mais livres para lutar pelos seus direitos. Antes, era muito comum que a mulher se sentisse responsável pela violência do companheiro. Se ela apanhava era porque, de algum modo, merecia apanhar. Essa culpa causava muita vergonha e ela tinha grande dificuldade em buscar ajuda.

Buscar ajuda não é só ir a uma delegacia fazer um BO. A justiça inibe a violência, mas não resolve a gênese desse comportamento. Comportamentos agressivos são construídos ao longo de uma vida, e não serão resolvidos através da punição judicial. Homens violentos precisam de tratamento psicológico, tanto quanto uma pessoa viciada em droga. 

Por isso, é preciso que as mulheres, parceiras da violência, tenham consciência que a justiça vai ajuda-las no momento de crise. Mas a solução do problema virá através de um trabalho terapêutico. Esse processo pode começar com uma terapia de casal. O terapeuta irá escutar a dinâmica da violência no casal e poderá intervir no sentido de desconstruir essa dinâmica.

A terapia, de casal ou individual, é um processo bem menos doloroso que a prisão. E que, por certo, trará benefícios bem mais profundos para todos os envolvidos.
 
Maria Holthausen

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O Parceiro Narcisista




Pessoas com traços narcisistas dificilmente estão envolvidas com seus parceiros. Embora pareça ao contrário. A princípio, são fáceis de amar porque são muito sedutoras, charmosas e detalhistas. Geralmente são intuitivas, sabem detectar o que agrada o outro e investem sua sedução nestes pontos.

No entanto, à medida que a relação avança, o parceiro começa a perceber que as manobras de sedução escondem uma enorme frieza emocional, uma grande intolerância à crítica e uma necessidade exacerbada de admiração. São exigentes ao extremo. Têm ciúmes de tudo e de todos. São aquelas pessoas que têm ciúmes “até da própria sombra”.

Outra característica importante do narcisista, que o parceiro vai ter que conviver, é a egolatria: sensação de grandeza. Ele sabe tudo: eu sei, eu faço, eu aconteço; são seus mantras. Por consequência, suas necessidades são sempre prioritárias. A necessidade do outro vem depois, ou pior, são desvalorizadas.

Qualquer crítica que se faça a sua conduta responde com fúria cega, porque o outro não reflete o que ele espera. E se o parceiro tenta falar sobre as suas necessidades e frustrações, o narcisista, com sua lógica imbatível, vai levar a discussão por um caminho que lhe seja bastante satisfatório. Afinal, para o narcisista, é o parceiro que deve ajustar suas expectativas na relação. As dele, sempre estiveram muito claras, e são muito justas.

Se você tem um parceiro narcisista, seguramente tem sofrido as consequências da egolatria, e da frieza emocional, dessa pessoa. E se mesmo assim continua na relação, é porque ainda está seduzido pelos traços encantadores desta pessoa. Afinal, nos encantamos com os narcisistas porque, na maioria das vezes, são pessoas muito bonitas. Mantem um cuidado constante com a aparência, e são encantadores socialmente. E, acima de tudo, são pessoas muito seguras e determinadas.

Quem é o parceiro ideal do narcisista? A pessoa que tem dificuldade em ser amada. Por causa dessa característica, ela é muito mais motivada a dar amor do que receber amor. Quando essa dupla se encontra, a química é perfeita: um ama dar amor, o outro, ama ser amado.

Maria Holthausen

domingo, 29 de julho de 2012

Família e Responsabilidade Ética



Já não temos um modelo ideal de casamento, porém ainda temos casamentos. Houve uma época em o modelo ideal era tão consistente que abarcava com seus mitos o vazio e as frustrações entre dois seres. Na época em que o casamento era uma união indissolúvel, por exemplo, a dificuldade da convivência era a consequência de uma escolha com a qual tínhamos que nos responsabilizar.

O mundo anterior do qual estamos nos despedindo, organizava as relações sociais em torno de símbolos maiores: o pai, na família; o chefe, na empresa; e a pátria, na sociedade civil. Medíamos nossa satisfação pela proximidade que conseguíamos do ideal proposto, em cada lugar que ocupávamos ao longo da vida. Para isso seguíamos uma disciplina estabelecida em protocolos e procedimentos. Como o mundo era padronizado, o futuro podia ser previsto. Os pais tinham muito mais segurança na herança moral que transmitiam aos filhos.

Uma vez perdida essas figuras típicas do passado, restam, nas relações afetivas, famílias sem modelos. As familiais contemporâneas ficam órfãs dos seus ideais, reduzindo-se unicamente as contingências do desejo de cada um. Tudo é simultâneo, ou na ordem das preferências pessoais. Pode-se ter filhos aos vinte ou aos quarenta anos. Casar-se quantas vezes quiser, e ter filhos de vários casamentos. As relações homoafetivas adquirem o estatuto de relação estável. Hoje, muitas crianças são criadas por dois “pais” ou “duas mães”. Ou então, por vários pais e mães que vão se sobrepondo um ao outro nas diversas relações do casal. Ou ainda, somente o pai ou somente a mãe.

Porém, não importa como seja constituída a família: por cama, ou proveta; hetero ou homossexual; parceira ou monoparental. A família é a instituição humana que tem a capacidade de fazer com que nos confrontemos com a nossa história singular. É por entre essas relações parentais que construímos nossos desejos mais primários. É dela que recebemos nossa herança genética, cultural e afetiva.

Portanto, mesmo sem um modelo ideal, a família continua com o dever de assumir a responsabilidade ética dessa herança.

Maria Holthausen