sexta-feira, 26 de julho de 2013

DROGAS ILEGAIS E POLÍTICAS PÚBLICAS



Drogas no Brasil: uma política à beira do retrocesso


“A política atual fracassou e o que estão fazendo no Brasil é simplesmente dar um passo atrás enquanto todo o mundo está buscando soluções inteligentes”. Foi assim que o ex-presidente da Colômbia, César Gaviria, resumiu as ações do governo brasileiro em relação ao uso de drogas no País.


O tema foi objeto de palestras durante o Congresso Internacional sobre Drogas: Lei, Saúde e Sociedade (CID 2013), que levou 700 de pessoas ao Museu na República, em Brasília, com o objetivo central de repensar o rumo dessa política no Brasil. O evento reuniu representantes do governo, da sociedade civil, de instituições de ensino, estudantes e entidades ligadas ao tema. Diferentes nações, como Portugal e Uruguai, já aprovam reformas legais descriminalizantes em relação ao uso de drogas.


No ano 2000, pesquisa realizada em Portugal mostrou que as drogas simbolizavam o maior problema do país. Em 2001, o governo português ousou, com um sistema comandado pelo Ministério da Saúde, excluindo internações compulsórias e repressão milita do rol dos tratamentos destinados a usuários. Em 2011, a investigação foi repetida e o uso de entorpecentes não constavam sequer na lista dos dez maiores problemas locais.


No Brasil, o cenário é bem diferente. Entre várias medidas, alguns estados, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro, têm implementado uma política de combate ao crack fundada em internações compulsórias e involuntárias, mesmo com posicionamentos contrários de entidades, grupos, movimentos sociais e populares, em todo o Brasil, que ressaltam implicações das medidas do ponto de vista ético, jurídico e político.


Um dos mais respeitados médicos do mundo sobre o tema, o húngaro-canadense Gabor Maté, que participou do Congresso Internacional sobre Drogas, estima que a cada 100 pessoas que experimentam crack, aproximadamente 20 fiquem dependentes. O crack é mais viciante que a maconha (9%) e menos do que o tabaco (32%), a taxa mais alta entre as drogas. A cura, segundo ele, não engloba cadeia, internação forçada ou ampliação das penas para usuários de drogas, e sim algo mais simples, como a solidariedade e a compaixão – ações que as ajudem a encontrar sentido para as próprias vidas. “A dependência não reside na droga – ela reside na alma”, afirmou.


No Brasil, o Projeto de Lei (PL) 7.663/2010, quer alterar os dispositivos da lei sobre drogas. A proposta apresentada pelo PMDB-RS teve o texto-base aprovado pelo plenário da Casa em 22 de maio. Ela segue, agora, para avaliação pelo Senado Federal. O projeto prevê a internação involuntária de dependentes por até 90 dias, solicitada por um familiar ou por servidor público que não seja da área de segurança pública, e aumenta a pena mínima do traficante de cinco para oito anos de cadeia.


O diretor fundador da Drug Policy Alliance (EUA), Ethan Nadelmann, esteve no CID 2013 e se mostrou bastante desanimado com os rumos da política de drogas brasileira. “O Brasil insiste em seguir as pegadas de políticas americanas falidas, encarcerando pessoas nos presídios ou em centros de tratamento compulsório. Não há nenhuma prova de que essa seja uma política eficiente”, disse. “O governo brasileiro, que tenta tanto descriminalizar a pobreza, não leva em conta que não há nada mais eficiente em criminalizá-la do que estes programas”, completou.


O aumento das penas mínimas de cinco para oito anos para traficantes é outro alvo de críticas em relação ao projeto. “É mais do que o tempo previsto para homicídio”, considera o ex-secretário nacional de Justiça e professor da Universidade de São Paulo (USP), Pedro Abramovay. De acordo com ele, a lei não esclarece o limiar entre usuário e traficante. “Quando colocados na mesma situação, o pobre é traficante e o rico, usuário”, comparou. 


O professor da Universidade de São Paulo (USP), Henrique Carneiro, frisou a falta de amparo científico na discussão em torno da política de drogas. “O PL leva em conta uma espécie de ascensão ao domínio da sociedade brasileira de uma vertente fundamentalista, sem embasamento teórico, que tenta criar um pânico moral, fazendo da palavra droga um espantalho”, destacou.

FONTE: Jornal do Federal - CFP

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade


O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é conhecido como uma doença típica da infância. Crianças com esse quadro clínico apresentam falta de persistência nas atividades que envolvem concentração, não completa as tarefas, tem atividade excessiva e desorganizada. Podem ser também impulsiva e imprudente, propensa a acidentes e frequentemente apresenta problemas disciplinares por infração não premeditada de regras.Embora as crianças hiperativas tenham muitas vezes uma inteligência normal ou acima da média, o quadro clínico é caracterizado por problemas de aprendizado e comportamento.


As crianças hiperativas toleram pouco as frustrações. Elas discutem com os pais, professores, adultos e amigos. Fazem birras e seu humor varia rapidamente. Essas crianças tendem a ser muito apegadas às pessoas, precisam de muita atenção.  É importante para os pais perceberem que as crianças hiperativas entenderam as regras, instruções e expectativas sociais. O problema é que elas têm dificuldade em obedecê-las. Esses comportamentos são acidentais e não propositais.


Até a poucos anos acreditava-se que o TDAH melhorava ou desaparecia à medida que a criança tornava-se adulta. Sabe-se hoje, que esse transtorno persiste em cerca de 30% a 50% dos adultos que tiveram TDAH na infância. Em geral o transtorno é mais leve no adulto do que na criança, mas mesmo assim pode prejudicar bastante o cotidiano da pessoa.


A primeira condição para o diagnóstico de TDAH no adulto é constatar que a pessoa teve essa doença na infância. A doença não se inicia na idade adulta, trata-se da persistência da doença da criança no adulto.
  •  

Os sintomas principais do TDAH no adulto são:

Déficit de atenção: a pessoa distrai-se com facilidade, comete erros por distração no trabalho ou nas atividades que exigem concentração, é desorganizada, "avoada", esquece compromissos assumidos, perde seus objetos ou não lembra onde os deixou, não presta atenção quando alguém está falando consigo, "sonha acordado".

Hiperatividade motora: agitação ou inquietação constantes. A pessoa não consegue ficar muito tempo parado, está sempre "a todo vapor", se está sentado fica mexendo os dedos, os pés, não consegue assistir TV ou um filme sem se levantar. Há uma movimentação excessiva e desnecessária para o contexto.


Outros sintomas característicos são:
Labilidade afetiva: oscilações entre tristeza e euforia,  mudanças bruscas de humor.
Temperamento explosivo: "pavio curto", brigas e discussões por motivos fúteis, perda de controle.
Hiperatividade emocional: "fazem tempestade em copo d’agua". Tem dificuldade de lidar com situações de pressão e de estresse.
Desorganização: mesas desarrumadas no trabalho, perda de documentos importantes, relatórios mal feitos,
Impulsividade: decisões são tomadas sem pensar, rompem ou iniciam relacionamentos/casamentos abruptamente, deixam empregos subitamente.


Além do comprometimento em diferentes áreas - social, profissional, familiar -, o que mais nos preocupa nesse quadro é que muito frequentemente essas pessoas fazem também abuso de drogas (álcool, cocaína...) e podem apresentar outros transtornos mentais concomitantemente: depressão, ansiedade.


TRATAMENTO
O acompanhamento terapêutico associado ao psicopedagógico tem ótimos resultados na grande maioria dos casos. Quando outros transtornos são associados ao quadro faz-se necessário o uso de medicamentos.


Maria Holthausen




domingo, 21 de julho de 2013

AUTISMO: EDUCAÇÃO PELA PEDRA?



No final de 2012, a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro do Autismo passou a considerar, para todos os efeitos legais, o autista como pessoa com deficiência. Resultado da mobilização social de movimentos e associações de pais de autistas, tal processo conquistou, em 2013, como um de seus resultados, a publicação, pelo Ministério da Saúde, das Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Transtornos do Espectro do Autismo. No documento, salienta-se que, para que a atenção integral seja efetiva, as ações devem estar articuladas entre a rede do Sistema Único de Saúde, os Serviços de Proteção e Assistência social e os de Educação.

A inclusão no sistema público de educação, no entanto, é ainda um grande problema. A inclusão da pessoa com autismo é uma inclusão específica. Pela lei, todas as crianças matriculadas nas escolas públicas tem o direito à atenção especial. Uma delas é a de serem acompanhadas por auxiliar em sala de aula: sejam essas crianças autistas ou tenham outras deficiências comprovadas por laudo médico. Mas na prática, isso não acontece. As escolas não têm nem sala de aula nem profissionais preparados para atendê-las em suas necessidades. Professores e auxiliares se viram sozinhos, sem apoio ou preparação prévia. Frente ao despreparo das escolas, cabe aos pais a conquista pelos direitos de seus filhos “especiais”.

Em uma sala de aula, a criança autista tem que lidar com muitos estímulos visuais, auditivos e sensoriais que passam despercebidos para os alunos com desenvolvimento cognitivo “normal”. A adequação da iluminação da sala de aula, uma vez que as crianças autistas percebem e se incomodam com a luz trêmula das lâmpadas fluorescentes muitas vezes já velhas e gastas; a necessidade de um ambiente que não disperse sua atenção, devido à dificuldade de concentração em geral experimentada por essas crianças; e a redução do barulho em sala de aula, dada a maior sensibilidade auditiva.

Para as crianças com transtorno autista, tais estímulos incomodam, agridem e representam um grande desafio. Também apresentam necessidades especiais em relação à coordenação motora fina para o aprendizado da escrita.

Na maioria das vezes, conforme nos alertam os pais, o processo educacional não é pensado nesses termos. Simplesmente não existe uma adaptação até que ela seja exigida pelos pais.

Para vários estudos publicados sobre essa Síndrome, os benefícios terapêuticos da inclusão de crianças autistas nas escolas regulares encontram-se, principalmente, na área da sociabilização. - Convivendo com outras crianças e sendo incluídas nas salas normais elas têm que se adaptar às regras, aos combinados, e aprendem a se comportar de uma forma tradicional. Porém, só há benefício se elas forem respeitadas em suas particularidades e nunca forçadas a se relacionarem ou se comportarem como as outras. É preciso entender que seu funcionamento cerebral é diferente e não forçar, não impor. Elas devem se relacionar com outras crianças “quando” e “se” quiserem, pois não têm a mesma vontade ou necessidade dessa relação.

Mas, alertam também esses estudos, a inclusão pode não ser o melhor caminho em casos mais graves, em que a criança não fala, não escreve e não se comunica por meio de figuras ou outros modos possíveis de serem utilizados em sala de aula. É importante que os pais entendam que, neste caso, a criança pode ser discriminada muito mais do que aceita e ela sofre com isso.

Para que a política de inclusão alcance os resultados desejado, é urgente preparar as escolas e capacitar professores e equipes técnicas. Se o aluno for aceito na escola e não receber a educação dada aos outros, a inclusão é falsa. Alunos mais comprometidos que são separados e enviados a salas de recursos ou retirados das salas de aula por incomodarem os outros – ou se incomodarem com os outros – não estarão recebendo o que foram buscar na escola. É preciso conscientização e informação, educar professores e comunidade a respeito das características e particularidades dos alunos autistas.

É necessário que a escola esteja realmente preparada para que a inclusão gere os efeitos positivos desejados.

Maria Holthausen
FONTE: BLOG EDUCAÇÃO


domingo, 14 de julho de 2013

Pequena História da Homossexualidade



O British Museum, Londres, lança o livro A little gay history: desire and diversity across the world (Uma pequena história gay: desejo e diversidade pelo mundo), um catálogo com peças que comprovam que a homossexualidade faz parte da história da Humanidade há pelo menos quatro mil anos.

Para o curador do Museu, Richard Parkinson, “Não se trata da História de uma minoria, mas sim de parte da História da Humanidade. O desejo por pessoas do mesmo sexo sempre existiu em todas as culturas.”

Das milhares de peças do acervo do museu, 44 foram selecionadas em um primeiro momento para o livro. Entre as escolhidas estão os bustos do imperador Adriano (117-138 d.C.) e do seu amante Antínoo. Não podemos deixar de lembrar que Adriano e Antínoo formaram o ilustre casal do belíssimo livro da escritora francesa Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano.

Antínoo, depois de morrer afogado no Rio Nilo com apenas 18 anos, foi declarado deus por ordem do imperador em luto, que também mandou fazer esculturas em sua homenagem e erguer uma cidade com o seu nome, Antinoópolis. De acordo com o British Museum, pesquisas realizadas com os visitantes, por ocasião de uma grande exposição sobre o imperador romano em 2008, mostravam que poucos sabiam da sua preferência por homens.

Conforme informação do Museu, tudo o que está no livro pode ser visto, seja virtualmente (a coleção completa do museu está disponível em www.britishmuseum.org), seja ao vivo e em cores.

Segundo o curador da exposição, “A evidência do desejo por pessoas do mesmo sexo e as ideias de gênero foram sistematicamente deixadas de lado no passado, mas os museus, com as suas coleções, podem nos permitir olhar para trás e identificar a diversidade ao longo da História”.

Para Parkinson, estes tipos de evidência, muitas vezes parciais e, em alguns casos, ambíguas, foram sistematicamente escondidas ao longo da História, ou simplesmente censuradas. Assim, o projeto do livro começou quando o museu foi procurado por uma especialista que queria reunir essas informações do passado. A iniciativa enfrentou algumas dificuldades básicas, tais como a escolha das melhores palavras para tratar o tema. O emprego do termo “gay” está longe de ser o mais adequado. O ideal seria “desejo por pessoas do mesmo sexo”, por estar mais descolado de rótulos, mas, reconhece o curador, ele não atingiria o público geral com o mesmo entendimento.

“Estamos falando de rótulos. Existem muitas maneiras de ser gay, não só os estereótipos, e acho que desejo por pessoas do mesmo sexo é mais adequado para falar deste passado mais distante. Não dá para usar o mesmo rótulo dos dias de hoje.”

As peças no catálogo, que já está à venda na loja do museu e nas principais livrarias londrinas, também incluem objetos modernos, tais como bótons de campanhas pelos direitos homossexuais.


Fontes: - Jornal O Globo
site: www.britishmuseum.org

terça-feira, 9 de julho de 2013

SONO E DESENVOLVIMENTO INFANTIL



Equipe de cientistas da Universidade de Londres conclui: pais que permitem que os filhos deitem tarde influenciam negativamente no desenvolvimento cognitivo das crianças.

De acordo com os pesquisadores, as crianças de três anos que se deitam tarde podem ter problemas com o aprendizado da leitura e da aritmética.

Para os cientistas, a falta de sono perturba os ritmos naturais do corpo e influencia a flexibilidade do cérebro das crianças, abertas normalmente a novas informações.

Crianças com um ritmo de sono irregular raramente leem historinhas antes de dormir, além disso, elas veem mais televisão do que aquelas que vão para cama mais cedo, acrescentam os pesquisadores.


sábado, 29 de junho de 2013

CINEMA COMO ILUSTRAÇÃO



A arte de contar a dor da vida

Barack Obama convida Hollywood a atuar na redução ao preconceito contra a doença mental

 Em 2001, o filme norte-americano Uma Mente Brilhante retratou a história do genial matemático John Wash, Prêmio Nobel de Economia em 1994 pelas suas contribuições à Teoria dos Jogos. Ele sofria de delírios e alucinações decorrentes de um quadro de esquizofrenia. O filme, dramático e sensível, retrata seus embates com os sintomas decorrentes da doença e a força do amor de Alicia, ex-aluna e esposa, que lhe possibilita conjuntamente com a descoberta do diagnóstico e tratamento uma amarração com a vida.

Seguindo a máxima “acontece na vida, acontece nos filmes, acontece com você!” o jornal O Globo publicou no último dia 6 de junho a iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de recorrer à indústria cinematográfica de Hollywood, convidando atores e produtores, para o debate que visa reduzir o preconceito em relação às doenças mentais. A estratégia inicial é a de levar ao ar, pela televisão, depoimentos de atores e pessoas públicas que tiveram casos da doença em suas famílias. Numa segunda fase, com a ajuda de profissionais da área psi, serão retratados nos filmes, com maior precisão e sem caricaturas, os desafios enfrentados por pessoas portadoras destas doenças, tentando evitar que descrições confusas potencializem a discriminação.

Falar nas mídias sobre esquizofrenia, autismo, depressão grave, bipolaridade e outras doenças mentais pode levar as pessoas a perceberem a importância de procurar tratamento, além da via medicamentosa, e desconstruir estigmas construídos culturalmente sobre tais sintomas.

A psicanálise, desde Freud, trabalha com a linguagem que constitui nossa humanidade. Somos seres da fala e as palavras ao ressoarem no corpo mostram a impossibilidade de separá-lo do psiquismo. Desta forma, nomear o que nos acomete, circunscreve o medo errático do desconhecido.

Quando se trata do psiquismo humano é preciso ser cuidadoso, evitar os padrões do politicamente correto e das tentativas de estabelecer limites e modelos de normalidade. Na sociedade pós-moderna, resta muito pouco a “enquadrar”. Os indivíduos são diferentes um a um em seus acometimentos. Nossas “esquisitices” são uma marca singular e sobre elas devemos nos responsabilizar.

Em princípio, parece que a campanha, encabeçada por Obama, para combater o preconceito sobre a doença mental é bem intencionada. Fica a aposta, que este projeto contemple a liberdade de ser diferente e o respeito a singularidade e que o mesmo não se transforme em mais um genérico na expressão do sofrimento subjetivo.
By: Griseldis Achôa





domingo, 23 de junho de 2013

EROTISMO



No texto abaixo, o psicanalista Contardo Calligaris revela o quanto, para a sociedade contemporânea, o ato sexual é considerado obsceno e, portanto, deve ser reprimido em nome dos bons costumes.
Mas, em uma sociedade em que a indústria da pornografia fatura milhões, obsceno não seria os nossos falsos pudores?


Sex and the city



Numa madrugada de inverno dos anos 1960, em Milão, um jovem casal estava num carro estacionado numa praça. Dez minutos foram suficientes para embaçar os vidros e esquentar os corpos.

Dois guardas notaram que o carro subia e descia com movimentos "suspeitos". Eles gritaram "Polícia!" e mandaram abrir. O casal, intimidado, obedeceu, revelando seus corpos nus ainda enroscados. Os guardas autuaram a ambos por atentado ao pudor.

Um ano depois, os jovens foram inocentados: o juiz reconheceu que eles só se mostraram porque os guardas mandaram abrir o carro --ninguém atentara ao pudor de ninguém.

Com amigos e amigas, decidimos zombar da polícia e dos cidadãos bem-pensantes (os quais, em cartas aos jornais, tinham manifestado sua indignação). Era de novo inverno; estacionávamos nossos carros, não de noite em lugares ermos, mas de dia, nas ruas mais frequentadas.

Assim que os vidros estivessem embaçados, era um exagero de sacudidas, de modo que ninguém duvidasse que, lá dentro, a gente fazia a festa. Infelizmente, nenhum guarda nunca bateu nos vidros de nossos carros trêmulos e protestatórios.

Pensei nessa história na sexta passada, quando li a ótima reportagem de Roberto de Oliveira, em "Cotidiano" (Folha, 7 de junho): uma inquilina do edifício Copan, glória de São Paulo, emprestou seus aposentos para um casal de amigos cariocas. Na noite do dia 27, o casal subiu pelo elevador até o último andar e se engajou nas escadas externas. Um segurança viu esse movimento pelas câmeras e foi atrás, até encontrar o casal no ato (sexual, claro).

O síndico do condomínio multou a inquilina (R$ 678) --por escolher "mal" seus amigos?-- e agora esbraveja que se tratou de um atentado ao pudor. Mas ao pudor de quem? Se o segurança (que imagino que seja maior de idade) "foi atrás", é porque estava a fim de dar uma espiadinha, suponho.

Claro, haverá um carrancudo para perguntar: não podiam ir para seu apartamento e se deitar na cama? Pois é, não, não podiam. Ou melhor, podiam, mas deviam achar que seria muito mais chato do que transar com a vista de São Paulo, o ar frio, a sensação de estar fazendo algo inusitado, a fantasia de serem vistos de alguma janela do Terraço Itália e, enfim, o risco de serem surpreendidos pelo segurança do prédio, como aconteceu.

Somos um pouco diferentes dos outros mamíferos. O cheiro do sexo oposto não é suficiente para nos excitar; precisamos recorrer a fantasias sexuais --sem isso, nada ou pouco acontece. E, se você acha que não recorre a fantasia alguma, isso significa apenas que você não sabe a quais fantasias recorre.

O que é extraordinário não é que um casal transe nas escadas externas do Copan. O extraordinário é que tantas pessoas transem (ou digam que transam) sempre nas suas camas.

Essa é uma opinião excêntrica de psicanalista? Tomemos o caso do risco: dois grupos parecidos atravessam um precipício por pontes diferentes, um passa por uma sólida ponte de alvenaria, e o outro, por uma ponte de cordas. Na chegada do outro lado, quem está mais receptivo para sexo? Pois é, são os da ponte estilo Indiana Jones.

O síndico do Copan declarou inicialmente que o ato era "depreciativo". Que cada um escreva sua lista das coisas que depreciam nossa vida. Na minha lista, há corrupção, violência, insegurança, incompetência, intolerância, estupidez são as coisas que atentam cada dia ao meu pudor. Um casal transando não está entre as coisas que depreciam meu dia, mas entre as que lhe dão valor.

A vítima do Copan criou uma conta no vakinha.com.br, pedindo ajuda para pagar a multa. Quis contribuir ao pagamento da multa, que me parece injusta. Infelizmente, a conta foi apagada (talvez por causa dos comentários bestas e agressivos que ela recebeu).

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, tirou do ar uma ação de seu ministério voltada para as prostitutas (e demitiu o responsável pela campanha), porque ele se escandalizou com a frase "Eu sou feliz sendo prostituta", que ele substituiu por "Sem vergonha de usar camisinha" (que ele deve ter complementado mentalmente: "mas com vergonha de ser prostituta"). O ministro poderia ser candidato a síndico do edifício Copan.

Caro ministro Padilha, antes de demitir mais colaboradores competentes, dê uma lida: Gabriela Silva Leite, "Eu Mulher da Vida" (Rosa dos Tempos), "Filha, Mãe, Avó e Puta" (Objetiva) e (um pouco mais complexo) Eliana dos Reis Calligaris, "Prostituição - O Eterno Feminino" (Escuta).

Contardo Calligaris
Fonte: Site Jornal Folha de São Paulo





quinta-feira, 20 de junho de 2013

PSORÍASE



Cientistas espanhóis concluem 
que emoções negativas agravam psoríase.

Cientistas da Universidade de Múrcia, na Espanha, concluíram que há uma relação entre as emoções negativas e as lesões da pele que caracterizam a doença inflamatória crônica chamada psoríase. Ela pode atingir mucosas, unhas e até articulações e o processo é alternado entre momentos de melhora e piora. Não é uma doença contagiosa, mas está associada a fatores psicológicos. É caracterizada por manchas avermelhadas, em forma circular, com descamação da pele.

Os cientistas avaliaram 800 doentes, de diferentes regiões do mundo, na primeira etapa dos estudos. Na segunda fase, os investigadores avaliaram a personalidade dos doentes e fizeram uma análise, por meio de testes, com emoções negativas e positivas.

O estudo, do qual fez parte a associação espanhola de doentes Acción Psoriasis, concluiu que o doente quando se sente deprimido, pressionado, agitado, preocupado ou nervoso acaba tendo um aumento das lesões. Esses fatores causam o agravamento e a extensão dessas lesões.

Os cientistas do grupo de Psicodiversidade da Universidade de Múrcia defendem a necessidade de um tratamento completo do doente de psoríase, incluindo os aspectos dermatológico e psicológico.
De acordo com a Acción Psoriasis, as avaliações mostraram que emoções positivas podem constituir fator de proteção.

FONTE:  site ebc



quarta-feira, 12 de junho de 2013

"Narciso acha feio o que não é Espelho"





Não existe uma fórmula mágica para a felicidade. Mas, existe uma chave que pode abrir muitas portas para ela. Esta chave, acredito, chama-se coerência com os seus desejos. Se não desejo as mesmas coisas que os meus amigos desejam, por que tenho que organizar a minha vida de acordo com a vida deles?  

O texto de Ruth de Aquino, fala da coragem de assumir as nossas singularidades.


Vida longa ao namoro
RUTH DE AQUINO


Pode não parecer, mas sou romântica. Isso não quer dizer que precise ganhar flores. Talvez, por isso, nunca nenhum namorado ou marido me tenha presenteado com rosas. Eles se sentiriam deslocados na cena, no tempo e no espaço. Digamos que escolhi homens que, como eu, não associam amor a buquês. Sei que escolhi. Lembro cada vez em que me apaixonei e pensei: agora, é este.

Já ganhei árvores da felicidade... do meu atual namorado. Muito atual. Completamos 22 anos de namoro em abril. Comemoramos no mesmo mês, mas em datas diferentes. Eu, no dia em que nos conhecemos – foi uma espécie de “surpresa à primeira vista”. Ele, no dia em que fizemos amor pela primeira vez. Convidou-me para dormir em sua casa, por elegância, jamais carência. Voltei para minha casa. Já ficava claro ali, em abril de 1991, que eu queria apenas romance, não casamento. Ele também.

Amigos não se conformam quando nos tratamos de namorado e namorada. Como assim? Isso já virou um casamento! Não virou. Tenho ex-maridos, pais de meus filhos. Sei o que é morar na mesma casa, constituir família. Ele tem ex-mulher, mãe de seus filhos. Somos solteiros, não casamos oficialmente. Existe diferença entre casamento e namoro. Não somos marido e mulher. Não acreditamos em usucapião no amor.

A atriz Marieta Severo, de 66 anos, namora há oito o diretor de teatro Aderbal Freire-Filho. Ela falou para a revista Quem: “Moro na minha casa, ele na dele. Na minha cabeça, quando não se mora junto, se chama namoro. Gosto que seja namoro. Adoro esse nome (risos). Já vivi um casamento de 30 anos (com Chico Buarque, de quem se separou em 1996), está bom. Tenho uma vida familiar intensa, são sete netos”.

Meu namorado e eu também temos netos. Esse é outro preconceito com o namoro. Como se apenas jovens pudessem ser namorados. Às vezes, nos olham de viés e não acreditam. Como se namoros tivessem prazo de validade para passar à outra etapa. Sabemos que, qualquer dia, esse namoro pode acabar – talvez só a consciência da precariedade do amor o salve. 

O namoro quase acabou poucas vezes – quando o Botafogo goleou o Fluminense, ou vice-versa. Não assistimos juntos a embates diretos. Se um time cismar em humilhar o outro, naquela noite não nos vemos. O romance sofre sempre que ficamos junto demais e caímos na armadilha clássica dos maridos e mulheres que implicam, cobram e reclamam. E se tornam malas. Quantas infidelidades são cometidas por desinteresse, mau humor e possessividade! Olhem-se no espelho no Dia dos Namorados, mesmo os casados ou sozinhos, e se perguntem: qual meu índice de chatice no cotidiano?

A primeira dedicatória de um livro de poesias dele dizia: “Para Ruth, companheira das praias de maio”. Eu tinha 36 anos, ele 42. O único desejo era dar prazer um ao outro, no outono de 1991. Não era premeditado, tínhamos poucas ilusões. O amor persiste pelo tesão físico e intelectual. E pela cumplicidade que resiste às diferenças de dois temperamentos fortes. Sempre fugimos dessa história de se fundir. Ou se ferrar... Cara-metade é uma expressão assustadora. Quantos se redescobrem quando viram ex! Conseguem um habeas corpus para o livre agir e pensar. E se reconhecem no verso de Fernando Pessoa: “Há muito tempo que não sou eu”.

É duro suportar uma longa solidão, a irregularidade do sexo. Mas muitas relações não têm salvação. Em 2011, o número de divórcios no Brasil cresceu 45,6%, segundo o IBGE. Isso significa o fim de 351 mil casamentos num ano. O advogado Luiz Octavio Rocha Miranda disse ao jornal O Globo que os casais se divorciam por crise financeira, desemprego do marido, salário superior da mulher, incompatibilidade cultural. Mais que por traição. Dos 108 processos que comandou nos últimos dois anos, o casamento mais curto durou a lua de mel. Aumentaram também as separações de idosos. Um casal, junto há 49 anos, decidiu se divorciar. “Perguntei à mulher, octogenária, o motivo”, disse Miranda. “Ela disse: ‘Doutor, quero morrer feliz!’.”

As mulheres que não vivem com seus parceiros mantêm seu desejo muito mais aceso que as mulheres vivendo na mesma casa com os maridos. A conclusão é de um estudo com 2.500 voluntários, feito por um psicólogo alemão, Dietrich Klusmann. Por que será? Uma pista: os maridos param de enxergar suas mulheres, não as olham mais com vontade e fogo. E esse é um dos maiores afrodisíacos femininos: perceber que ele quer você (ou que ela quer você, nestes tempos de Daniela Mercury). Se virar móvel ou utensílio, não há libido que resista.

O poeta e escritor Paulo Mendes Campos, morto em 1991, escreveu um livro de crônicas chamado O amor acaba. Foi relançado em abril e esgotou em menos de um mês. Dizem que é porque o amor anda em alta. Mas quando esteve em baixa? 

 Fonte:  Site da Revista Época


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Jovens Delinquentes: Além dos Clichês



Os textos do psicanalista Contardo Calligaris propõem discussões sobre a questão da maioridade jurídica, numa perspectiva de análise que ultrapassa os clichês do discurso politicamente correto.


Jovens Delinquentes

Na noite de terça-feira passada (dia 9), em São Paulo, Victor Hugo Deppman, estudante de 19 anos, foi assassinado. As câmeras mostram que ele entregou seu celular, e o assaltante o matou sem razão, com um tiro na cabeça.

O criminoso se entregou à polícia declarando que faltavam dois dias para ele completar 18 anos. Com isso, pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), aos 20 anos e 11 meses no máximo, ele voltará a circular. A gente não pode nem deixar anotado o nome do assassino, para mantê-lo afastado de nossas vidas futuras: por ele ser menor, seu anonimato é preservado.

É assim que protegemos o futuro do criminoso, para que, uma vez regenerado pela mágica de três anos de internação (alguém acredita?), ele possa facilmente reintegrar a sociedade e ser um cidadão exemplar, nosso vizinho.

Obviamente, nos últimos dias, multiplicaram-se os pedidos de revisão do próprio ECA. Marcos Augusto Gonçalves (na Folha de segunda) observou que, na boca dos políticos, esses pedidos escondem décadas de descaso em matéria de segurança pública. Concordo. Mas, como não sou político, não vou deixar de discutir, mais uma vez, o estatuto do menor.

Por exemplo, sou a favor de baixar a maioridade penal, drasticamente, como acontece no Reino Unido, no Canadá, na Austrália, na Índia, nos Estados Unidos etc. --sendo que, na maioria desses lugares, o juiz tem a autonomia para decidir por qual crime um menor de 12 ou dez anos será, eventualmente, julgado como adulto.

Hélio Schwartsman (na página 2 da Folha de sexta passada) aconselhou prudência: seria melhor não "legislar sob forte impacto emocional" e, sobretudo agora, confiar apenas nas "considerações racionais". Ele quase me convenceu, mas...

1) Penso isso há muito tempo.

2) Se deixássemos de agir sob impacto emocional, nunca nada mudaria. Por exemplo, o conselho de esperar para que as emoções esfriem é o argumento dos fabricantes de armas a cada vez que, nos EUA, um exterminador invade uma escola e o Congresso propõe leis de controle das armas. Os fabricantes de armas querem que esperemos para quê? Pois é, para que a gente se esqueça e se desmobilize.

3) Conheço só uma consideração racional a favor da maioridade penal aos 18 anos, e ela não é boa: o córtex pré-frontal (zona do cérebro que controla os impulsos) não está totalmente desenvolvido na infância e na adolescência.
Tudo bem, se aceitarmos essa consideração, deveríamos aumentar seriamente a maioridade penal, pois o córtex pré-frontal se desenvolve até os 25 anos ou além. Além disso, deveríamos julgar como menores todos os adultos impulsivos, que nunca desenvolveram um córtex pré-frontal "satisfatório".

4) As outras "considerações racionais" (que deveriam prevalecer sobre o impacto das emoções) são apenas disfarces de emoções especificamente modernas que, à força de serem compartilhadas, se tornaram chavões ideológicos.

Três deles são corolários de nossa "infantolatria", ou seja, da paixão narcisista que nos faz venerar crianças e jovens porque, graças a eles, esperamos continuar presentes no mundo depois de nossa morte.

Primeiro, queremos que as crianças nos apareçam como querubins felizes como nós nunca fomos e nunca seremos. Por isso, preferimos imaginar que os jovens sejam naturalmente bons. Quando eles forem maus, atribuímos a culpa à sociedade e a nós mesmos. Portanto, não podemos puni-los, mas devemos, isso sim, nos punir.

Tendo a pensar o contrário: as crianças podem ser simpáticas, mas são más (briguentas, possessivas, invejosas, mentirosas, ingratas etc.); às vezes, elas melhoram crescendo, ou seja, a cultura pode civilizá-las (ou piorá-las, claro).
Segundo, adoramos acreditar que sempre podemos mudar (para melhor, claro): apostamos que a liberdade do indivíduo permita qualquer reviravolta -até a salvação eterna pelo arrependimento na hora da morte. A possibilidade de os criminosos (ainda mais jovens) se redimirem confirma nossa crença querida.

Terceiro, acreditamos também na fábula da reciprocidade amorosa: quem ama será amado. Se forem bem tratados e se sentirem amados e respeitados, os jovens se emendarão. É só confiar neles, deixá-los impunes e lhes oferecer castiçais de prata, como o padre que presenteia Jean Valjean.

Meus amigos, "Les Misérables" é lindo e comovedor, mas é um romance, ok? Na outra noite, no bairro do Belém, teria sido melhor que aparecesse Javert.

Contardo Calligaris
Fonte: Site Jornal Folha de São Paulo


Irresponsabilidade

A coluna da semana passada tratava da maioridade penal. Eu disse que sou a favor de considerar que, nos crimes mais graves (sobretudo contra a pessoa), os jovens sejam responsáveis pelos seus atos.

A partir de que idade? Talvez um juiz ou uma corte especial possam decidir, em cada circunstância, quando um jovem deve ser julgado como adulto ou não.

A coluna suscitou um grande número de comentários, pelos quais agradeço e aos quais não terei como responder individualmente. Tento resumir algumas objeções, organizando-as em quatro eixos:

1) A redução da maioridade penal não vai resolver o problema da violência.
Concordo: em geral, a severidade das penas não produz o efeito mágico de estancar a violência e o crime. Em compensação, a impunidade, ela sim, autoriza o crime e seu crescimento. Mas tanto faz: o que importa é que a violência criminosa baixa quando sobem não tanto as penas quanto a inclusão social e o sentimento de pertencermos todos a uma mesma comunidade de destino.

Desse ponto de vista, no máximo, a redução da maioridade penal faria que menos adolescentes fossem arregimentados pelo tráfico --mas nem isso é uma certeza.

2) Então, para que serve a proposta de reduzir a maioridade penal?
A Justiça e o sistema penitenciário sonham em amedrontar e dissuadir do crime. Também eles sonham com a reabilitação dos criminosos condenados. Agora, mais prosaicamente, eles têm a tarefa (menos gloriosa) de punir os criminosos de forma que a sociedade se sinta vingada e que, portanto, as vítimas não inaugurem ciclos de vendetas privadas.

A questão da maioridade penal se coloca relativamente a essa última tarefa da Justiça: podemos e devemos punir os jovens da mesma forma que os adultos?

3) Sobretudo, no caso dos jovens, não deveríamos querer que eles sejam reabilitados em vez de punidos? Para que encarcerar os jovens se sabemos que a detenção será uma escola do crime e não um lugar onde seria preparada sua reinserção social?

O sistema penitenciário moderno é paradoxal: nele, tanto para os jovens quanto para os adultos, a vontade de punir coexiste e rivaliza com a vontade de reeducar. Esse conflito de intenções talvez não seja uma falha, mas a propriedade essencial do sistema.

Nota: à vista do fracasso crônico de reabilitação e reinserção é possível pensar que a intenção de reeducar seja sobretudo o álibi necessário de uma punição que se envergonha de si mesma. Ou seja, queremos reeducar (e nunca conseguimos) porque nos envergonhamos de estarmos "ainda" punindo os criminosos. Gostaria de ter o tempo de reler "Vigiar e Punir", de Michel Foucault, pensando nisso.

4) A redução da maioridade penal significaria encher as cadeias de crianças pobres.

Em Brasília, 16 anos atrás, cinco jovens de classe média assassinaram barbaramente um índio, colocando fogo em seu corpo. Eles se desculparam dizendo, aliás, que não sabiam que era um índio, achavam que fosse um mendigo.

Graças a seu privilégio social, quatro desses jovens, condenados, cumpriram sua pena estudando e trabalhando fora da prisão. O quinto, que tinha 17 anos na época, ficou três meses num centro de reabilitação e só. Eu acho que ele deveria ter sido julgado como adulto.

Mais uma coisa. A coluna da semana passada queria abordar um problema mais amplo do que a simples maioridade penal. Explico.

Uma das grandes novidades de nossa cultura é que ela promove a obrigação de cada um responder por suas ações. Talvez por isso mesmo, para descansarmos um pouco de tamanho encargo, um dos grandes sonhos contemporâneos seja a irresponsabilidade.

É assim que nos tornamos mestres nas explicações que valem como desculpas.

Os assassinos de Brasília passearam demais pelos shoppings da capital e foram mimados pelos pais, e o assassino de Victor Hugo Deppman talvez tenha crescido em algum tipo de favela. Sempre há um trauma, um abuso passado, que "explica" e que serve para transferir a culpa.

Ao mesmo tempo, somos uma cultura "infantólatra", ou seja, que idealiza e venera as crianças como crianças. Ou seja, amamos vê-las sem nenhum dos pesos que castigam a vida adulta.

No sonho de irresponsabilidade que mencionei antes, esses dois traços de nossa cultura se combinam assim: 1) as crianças são todas querubins irresponsáveis e 2) a história da nossa infância nos torna irresponsáveis quando adultos. Que maravilha.

Contardo Calligaris
Fonte Site: Jornal Folha de São Paulo



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Carreira: Um projeto pessoal



Antes de procurar uma vaga de trabalho, é importante saber o que você quer e gosta de fazer. Afinal, como diz a lenda, quando você não sabe para onde que ir, todos os caminhos levam a lugar nenhum.

Hoje a dinâmica do mercado de trabalho é outra, mais rápida, mais inovadora, e com isso a dinâmica da nossa vida também passa a ser diferente. Será que estamos alinhados a esse novo tempo?
Diferentemente da época de nossos pais e, principalmente, nossos avós, onde escolher uma carreira era para sempre, o grande sonho era entrar em uma empresa e lá se aposentar... Isso soa estranho? Parece um sonho louco ou até mesmo triste, monótono? Para eles não foi, naquele momento era esta a dinâmica necessária para um mercado que exigia processos de qualidade e crescimento sólido. Mas esta era a realidade das gerações passadas, hoje o mercado pede inovação, dinamismo, criatividade.
O mundo passa por transformações e o Brasil está em um grande momento de crescimento, com isso as oportunidades para empreender e para escolher a carreira mudaram de perspectiva. Agora é o profissional que define o seu espaço e não mais o mercado ou as empresas. Estamos na era da gestão do conhecimento e da gestão da consciência, somos nós que definimos como seremos felizes em meio a tantas oportunidades.
E como fazer escolhas nessa nova era? O segredo está em olharmos primeiro para dentro de nós e respondermos algumas perguntas. Quem somos? Do que gostamos? O que nos faz realmente feliz? Quais são os meus talentos, minhas competências? A partir dessas respostas já podemos direcionar nossas vidas, nossas carreiras. Após este intenso exercício precisamos olhar para fora, conhecer o mercado de trabalho, suas demandas e saber onde estão as oportunidades que queremos para nossas vidas. O que é preciso estudar, conhecer, quais competências desenvolver? Como me torno um expert naquele assunto? Como vendo minhas habilidades? Como desenvolvo meu trabalho? Como recebo por isso? Quanto recebo por isso?
Olhar para dentro e para fora garante que tomemos as rédeas de nossas vidas, que sejamos líderes das nossas escolhas, que aprendamos com os nossos erros e nos tornemos cada vez mais fortes, seguros. Com isso podemos escolher os lugares que queremos estar, os trabalhos que queremos produzir, o clientes ou empresas pra quem queremos trabalhar. É claro que precisamos de uma longa caminhada, de muito esforço e de muito trabalho, quanto mais maduros e experientes, mais assertivos nos tornamos, mas toda a caminhada precisa de um primeiro passo, e porque não começar com o pé direito?
Por isso identificar, desenvolver e potencializar nossas competências, nos conecta com nossa alma, nos faz sermos exatamente quem somos ou ainda quem queremos ser. E mais do que isso nos torna uma pessoa feliz.
By: Paula Alexandrisky 
Fonte: Site VAGAS.com.br