domingo, 29 de julho de 2012

Família e Responsabilidade Ética



Já não temos um modelo ideal de casamento, porém ainda temos casamentos. Houve uma época em o modelo ideal era tão consistente que abarcava com seus mitos o vazio e as frustrações entre dois seres. Na época em que o casamento era uma união indissolúvel, por exemplo, a dificuldade da convivência era a consequência de uma escolha com a qual tínhamos que nos responsabilizar.

O mundo anterior do qual estamos nos despedindo, organizava as relações sociais em torno de símbolos maiores: o pai, na família; o chefe, na empresa; e a pátria, na sociedade civil. Medíamos nossa satisfação pela proximidade que conseguíamos do ideal proposto, em cada lugar que ocupávamos ao longo da vida. Para isso seguíamos uma disciplina estabelecida em protocolos e procedimentos. Como o mundo era padronizado, o futuro podia ser previsto. Os pais tinham muito mais segurança na herança moral que transmitiam aos filhos.

Uma vez perdida essas figuras típicas do passado, restam, nas relações afetivas, famílias sem modelos. As familiais contemporâneas ficam órfãs dos seus ideais, reduzindo-se unicamente as contingências do desejo de cada um. Tudo é simultâneo, ou na ordem das preferências pessoais. Pode-se ter filhos aos vinte ou aos quarenta anos. Casar-se quantas vezes quiser, e ter filhos de vários casamentos. As relações homoafetivas adquirem o estatuto de relação estável. Hoje, muitas crianças são criadas por dois “pais” ou “duas mães”. Ou então, por vários pais e mães que vão se sobrepondo um ao outro nas diversas relações do casal. Ou ainda, somente o pai ou somente a mãe.

Porém, não importa como seja constituída a família: por cama, ou proveta; hetero ou homossexual; parceira ou monoparental. A família é a instituição humana que tem a capacidade de fazer com que nos confrontemos com a nossa história singular. É por entre essas relações parentais que construímos nossos desejos mais primários. É dela que recebemos nossa herança genética, cultural e afetiva.

Portanto, mesmo sem um modelo ideal, a família continua com o dever de assumir a responsabilidade ética dessa herança.

Maria Holthausen

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Amamos o que Criamos




Temos usado a expressão “Zona de Conforto” como um conceito valise. Isto é, um tipo de conceito que empregamos nas mais diversas análises comportamentais. Fala-se em zona de conforto profissional, afetiva, intelectual e assim por diante. Sempre que queremos discorrer sobre o comodismo, a falta de iniciativa, o medo de trilhar novos caminhos e o medo de fazer novas escolhas; falamos da dificuldade de sair de uma Zona de Conforto.

Embora seja um perigo usar o mesmo conceito para fazer análise de situações tão diferentes, a noção de “Zona de Conforto” forma uma imagem tão interessante e esclarecedora, que é difícil fugir dela. Por isso, vou usar esse conceito como ponto de partida de uma situação comum aos relacionamentos. Qual seja: a dificuldade para desconstruir a idealização que fizemos da pessoa amada.

A paixão, como qualquer outro sentimento intenso, gera medo. Temos medo do ardor de nosso afeto por uma pessoa que acaba de entrar na nossa vida. Uma pessoa que, até há pouco tempo, era um ilustre desconhecido. Para nos protegermos do medo, começamos a criar uma série de idealizações sobre aquela pessoa. Essas idealizações tem o poder de criar um novo personagem. É como se criássemos um avatar. Não amamos o Pedro, a Maria, o Carlos ou a Matilde; amamos um avatar idealizado dessas pessoas.

Apaixonamo-nos por um ideal criado por nossas próprias fantasias românticas e eróticas. Essa construção psíquica funciona como uma Zona de Conforto. Já que não temos que olhar para a figura amada, como alguém muito diferente de nós mesmos. Afinal, “narciso acha feio tudo o que não é espelho”. E o amor circula no registro do narcisismo.

Assim, quando olhamos para nosso parceiro, vemos a nós mesmos. Vemos o nosso ideal romântico projetado no outro. Essa projeção, que de início nos protege das dificuldades de viver com um estranho, com a convivência diária, vai entrando em conflito. Aí começam as brigas, as queixas e as insatisfações. – Ele, ou ela, não era aquilo que eu pensei, que eu imaginei um dia. Claro que não era.  Não era, não foi e não será.

A desconstrução desse ideal, por um lado, acaba com nossa Zona de Conforto. O que, na maioria das vezes, gera muita decepção. Mas por outro lado, é a chance de aprender a amar a alguém diferente de nós mesmos. Um amor que se sustenta na diferença, e não no espelhamento.

Dá mais trabalho. Mas é um aprendizado importante e enriquecedor.

Maria Holthausen

sábado, 14 de julho de 2012

Uma Cortina de Fumaça




No texto da semana passada, apontamos para dois diferentes modos de vivenciar a sexualidade entre parceiros. O da libido masculina, que é sustentado pela erotização de imagens de diversas figuras femininas. E o da libido feminina, que se sustenta no ideal amoroso projetado no parceiro. Acreditamos que para muitos casais, a consciência dessa diferença pode provocar mudanças e trazer mais satisfação aos pares.

Entretanto, é preciso admitir que, em alguns casos, as inibições sexuais causam dificuldades que não podem ser tão facilmente resolvidas. A gênese dessas inibições não está no relacionamento, mas na construção subjetiva de cada parceiro. E, infelizmente, é a mulher que tem menos facilidade em admitir suas inibições sexuais.

É mais fácil para a mulher esconder-se sobre o manto protetor da figura materna - um lugar que exige muita dedicação e muito pouca erotização - e esquecer-se do seu papel de parceira sexual na vida do homem. Quem irá culpar uma mulher por ser uma mãe dedicada?  Ninguém! Na verdade, quando estamos em frente a uma mãe muito dedicada só podemos fazer elogios. 

Quanto aos seus outros papeis, o da esposa, amante e namorada do pai de seus filhos; só podemos observar em silêncio. Sobre esses outros lugares que a mulher-mãe continua a ocupar, só temos o direito de dar opinião ou de levantar alguma questão com a autorização dela. Essa proteção da intimidade afetiva-sexual, tão comum ao mundo feminino, é um grande obstáculo para o enfrentamento das dificuldades sexuais.

Mesmo com todas as conquistas adquiridas, falar sobre a sexualidade ainda é um tabu para as mulheres. Não é a toa que as conversas francas, sobre a sexualidade, divididas entre as amigas no seriado Sex and the City, foi interpretada por muita gente como um comportamento perverso das personagens. A sexualidade ainda é um tema masculino.

As mulheres fazem sexo, mas não falam sobre isso. O que é uma pena. Pois, chega um tempo em que o marido cansa de reclamar e vai procurar sua satisfação em outro lugar. As amigas, que não sabem de nada, não podem ajudar. Os filhos, que já estão crescidos, não costumam saber como auxiliar. Nesses momentos, a mulher se sente muito sozinha. Muito abandonada. Poucas conseguem juntar forças para procurar uma solução para suas dificuldades. Acabam passando pela vida adulta, usufruindo muito pouco dos prazeres que a sexualidade pode lhes oferecer.

sábado, 7 de julho de 2012

As fantasias sustentam o desejo




É comum ouvir os maridos reclamarem da falta de desejo sexual de suas esposas. Penso que, para alguns homens, essa queixa é uma estratégia para manter a fantasia fálica. Ele atribui à esposa a responsabilidade pelos fracassos de seu próprio desejo. Como a culpa é dela, ele pode continuar pensando que ainda possui o mesmo vigor e desejo da juventude. Um pequeno engodo que faz muito bem ao narcisismo masculino.

Contudo, na maioria dos casos, essa queixa expressa as diferentes trilhas percorridas pela libido masculina e feminina depois do casamento. Para o homem, o desejo tem o direito de continuar livre, leve e solto depois da troca de alianças. Ele pode continuar desejando, seduzindo e fantasiando com outras mulheres. Mesmo quando ele é fiel, quando esses comportamentos são usados, apenas, para manter as fantasias libidinais que sustentam o desejo.
 
Para um grande número de mulheres, a libido, depois do casamento, percorre um caminho muito mais árido. A sociedade cobra delas, assim como elas cobram de si mesmas, que todas as suas fantasias eróticas tenham como personagem central o marido. É muito difícil encontrar numa roda de amigos, uma mulher casada fazendo jogos de sedução com os parceiros que a rodeiam.

Essa trilha de mão única, que percorre a libido feminina depois do casamento, pode ser algo que o homem espera que aconteça.  Mas nem sempre ele sabe o que fazer com isso.

Por ter menos fantasias eróticas, a mulher necessita de mais contato físico para se sentir erotizada. Ela precisa ser seduzida com olhares, carinhos, beijos e palavras românticas. Necessidades que os homens teimam em não reconhecer. Afinal, isso dá trabalho, exige tempo de dedicação e coragem para mudar certas atitudes que não correspondem às expectativas da parceira.

Acredito que para muitos casais, a consciência dessa diferença e a mudança de atitude masculina resolveriam grande parte das queixas. Mas, para eles, é bem mais fácil continuar com o mesmo padrão de comportamento e, depois, reclamar da falta da libido feminina. Ou pior, dizer que é ela – a esposa – que tem problemas com a sua sexualidade. Culpa que muitas mulheres carregam a vida toda. Principalmente aquelas que tiveram poucas experiências sexuais antes do casamento.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O Mistério Feminino



Capitu nasceu no final do século XIX. É inteligente, bonita e esperta. Uma garota humilde, mas avançada e independente, muito diferente da mulher vista como modelo pela sociedade patriarcal daquela época. Como uma das principais personagens da nossa literatura, Capitu será eterna. Assim como serão eternas as discussões de um dos temas preferidos dessa trama machadiana: Capitu traiu ou não seu marido Bento Santiago, o Bentinho?

Na época de seu lançamento o romance era visto como o relato inquestionável de uma situação de adultério, do ponto de vista do marido traído. Afinal, é o marido, Bentinho, o narrador da história. É sob o olhar desse homem apaixonado que a trama se desenrola.  

Depois dos anos 1960, quando questões relativas aos direitos da mulher assumiram importância maior em todo o mundo, surgiram interpretações que indicavam outra possibilidade: a de que a narrativa pudesse ser expressão de um ciúme doentio, que cega o narrador e o faz conceber uma situação imaginária de traição.

No entanto, mesmo sobre a perspectiva de novos valores, a dúvida continua.  Esta persistente incógnita nos provoca a olhar com mais atenção para a construção psicológica dessa personagem. E então, nos deparamos com uma característica fundamental dessa mulher: Capitu é uma mulher misteriosa, enigmática, inexplicável. Seu comportamento, suas atitudes e suas falas quase sempre não nos permitem entrever sua interioridade. Aquilo que ela pensa permanece recluso dentro dela, e podemos apenas fazer suposições a respeito.

A complexidade dessa personagem. Seus mistérios.  A falta de transparência mantém a eterna dúvida sobre a sua possível traição. O que quer essa mulher? – podemos perguntar. Betinho não sabia, assim como nós continuamos a não saber. Ela era capaz de trair? Era. Ela traiu? Nunca vamos saber.

O enigma feminino é algo que perturba profundamente os homens. Freud foi um dos primeiros a confessar. Em um mundo em que a transparência é a lei, o mistério causa angústia. Superfícies transparentes acalmam, as opacas exigem mais cuidados e atenção. É mais fácil à convivência com mulheres com estruturas psíquicas simples. Seus interesses e valores mudam muito pouco ao longo da vida. Podem dizer tudo o que pensam, porque pensam muito pouco. Como discos furados, repetem sempre o mesmo discurso. Dificilmente saem da zona de conforto que constroem em torno de si.

Por outro lado, as “Capitus” jamais se revelaram por inteiro. Por não terem uma visão maniqueísta da vida, o mistério e o enigma fazem parte de seu modo de ser. Por isso mesmo, exigem muito mais atenção e coragem de seus parceiros. Homens sem coragem e sem interesse por esse tipo de mulher costumam chamá-las de dissimuladas. Um valor moral negativo, que esconde o medo de ser surpreendido pelo Outro.

sábado, 23 de junho de 2012

O Berço Vazio




“É hora de dormir. Mariana, de cinco meses, se aloja na cama da família. Antes de embalar no sono, ela estica as mãozinhas para tocar a mãe, Simone, que está ao seu alcance. Durante a noite, gosta de fazer carinho no pai.”

O fragmento acima, copiado de um jornal de circulação nacional, aponta com maestria para o que considero o verdadeiro problema dessa nova tendência. Colocar o bebê na cama dos pais é muito mais prático: facilita a vida. No entanto, colocar o bebê na cama dos pais, é transformar a “cama do casal” em “cama da família”.

Teoricamente, a diferença pode parecer sutil, mas na prática é devastadora para a relação erótica do casal. Ter um bebê na cama dos pais é acabar com a possibilidade de qualquer gesto de erotização entre o casal nos momentos que antecede ao sono. É abrir mão de um espaço que deve ser constantemente preservado, o espaço da intimidade do casal.

Pessoas apaixonadas gostam de dormir juntas, de dividir a mesma cama. Quando estamos namorando, desejamos ardentemente o momento de compartilhar os travesseiros com o nosso parceiro. A intimidade criada pelo ato de dormir junto, quando há amor, é a certeza que vivenciamos com a pessoa amada um momento único.

Um filho transforma um casal em uma família, ou seja, em uma estrutura maior. Com a chegada dos filhos, as relações afetivas tornam-se mais complexas. O casal – esposa e marido – assume a responsabilidade afetiva de ser mãe e pai. Num passado não muito distante, a chegada dos filhos marcava o fim do espaço romântico. Os pais deviam priorizar os deveres e responsabilidades de suas funções.

É claro que amamos muito os nossos filhos, mas esse amor não tem uma conotação romântica. O amor romântico é um amor erotizado. Ninguém espera viver um romance com um amigo, com o pai ou com a mãe.
Preservar o momento de intimidade do casal é um modo de lutar pela felicidade e, muito provavelmente, pela manutenção da família. Como não existe nenhuma pesquisa que tenha comprovado que crianças que dormem na cama dos pais, no futuro, serão mais felizes, mais inteligentes, mais calmas ou qualquer outro mais. A única coisa absolutamente certa é que colocar os bebês a dormir na cama dos pais, dá menos trabalho. Mas, atenção, nem sempre o caminho mais fácil é o melhor dos caminhos.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Aromas da Mudança


Vivemos nas primeiras décadas do século 21 um momento de ruptura, onde aspectos básicos das relações humanas estão sendo reformulados.  As formas tradicionais de relacionamentos não estão dando mais respostas satisfatórias e, com isso, se abre um espaço para descobrir novos modos de viver as relações. Essas mudanças, como todo processo de mudança, geram dúvidas e incertezas. Não se quer repetir os padrões antigos, mas teme-se a instabilidade dos novos modelos.

O novo é sempre assustador, nos faz sentir desprotegidos, por isso nos agarramos ao já conhecido. Imaginem que se, nas primeiras décadas do século XX, alguém dissesse que as separações seriam corriqueiras e que as garotas não se casariam virgens. Por certo, as pessoas ficariam muito indignadas com tal possibilidade.

Hoje, a mulher pode não só dividir o poder econômico com o homem, como decidir ter filhos se quiser ou quando quiser. Uma escolha que as personagens de Jane Austen, no século XVII, jamais imaginaram poder fazer. A total dependência econômica e moral, das mulheres daquela época, interditava completamente a liberdade de escolha.

O enfraquecimento dos valores que sustentaram a ideologia patriarcal traz novas reflexões sobre o relacionamento entre homens e mulheres: o amor, o casamento, a sexualidade. O aroma dessas mudanças influência nossas escolhas. Pressentimos a destruição de valores estabelecidos como inquestionáveis e nossas convicções mais enraizadas são abaladas. Os modelos do passado não nos dão mais respostas e nos deparamos com uma realidade ameaçadora, por não encontramos modelos em que nos apoiar, em tempo algum, em nenhum lugar.

Entretanto, essa pode ser a grande saída para novas conquistas, quando perdemos um pouco do medo das mudanças. Não tendo mais que se adaptarem a modelos arcaicos, as singularidades encontram um novo espaço de expressão. No momento em que se rompe com a moral que, durante tanto tempo e através de seus códigos, julgou e subjugou o prazer, abre-se um espaço onde novos modos de vida, assim como novos desejos, podem ser experimentados.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

As Instâncias do Medo



O medo, a princípio, é um sentimento de defesa e proteção. Portanto, um sentimento positivo, aliado da luta diária pela sobrevivência. O medo como ferramenta de proteção tem um objeto bem definido. Sentimos medo de pessoas, animais e situações que não podemos controlar, e que, por isso mesmo, colocam em risco a nossa sobrevivência.

Mas existem outros tipos de medo. Medos mais difíceis de conviver e de admitir sua existência. Temos, por exemplo, medo de ser feliz e, simultaneamente, medo que a felicidade acabe. Temos medo da dor. Medo de perder. Medo de recomeçar. Medo de estar sozinhos, e medo de ter alguém. O medo, para muitos, parece ser o sentimento mais constante e mais intenso.

Para os que vivem constantemente sob a sombra desse sentimento, o medo de perder é o que mais paralisa. Para esses, o encontro amoroso pleno torna-se um pesadelo. Logo depois da euforia dos primeiros encontros, aparece uma estranha inquietação, acompanhada de uma melancolia vaga e indefinida. Surgi à sensação que alguma desgraça está a caminho, aproximando-se a passos largos, e que é impossível preservar por muito tempo tamanha felicidade.

Numa estranha lógica, nasce a suspeita de que coisas dolorosas e frustrantes têm mais chances de aparecer quando se está feliz. O perigo parece crescer proporcionalmente à alegria. E, pouco a pouco, a sensação de plenitude vai cedendo espaço a apatia, ou pior, ao pânico.

Algumas vezes, a escolha de parceiros inadequados é uma maneira de reduzir os riscos de uma hipotética tragédia. Um jeito de apagar a chance de ser feliz. Cria-se uma dor menor com o objetivo de se proteger de uma suposta dor maior. Outras vezes, a proteção ao medo é construída na desvalorização do parceiro. Ao elevar os pequenos defeitos do outro àa categoria de grandes problemas, cria-se uma zona de instabilidade externa que serve de proteção à instabilidade interna.

O medo é um sentimento que não podemos eliminar de nossas vidas. Como disse no início, ele é uma ferramenta de proteção. Portanto, o medo de perder existe em todos nós.  Só não podemos deixar que ele se transforme num antídoto da felicidade. Afinal, uma coisa é certa, felicidade não atrai tragédias.

sábado, 26 de maio de 2012

O preconceito sustentado por estudos “científicos”.



Este mês, duas notícias vindas dos Estados Unidos repercutem na mídia e nas redes sociais dos brasileiros. A primeira foi à declaração do presidente Barack Obama que, em plena campanha para reeleição, defende o casamento gay. Um gesto importante, tendo em vista que uma grande parte do povo americano defende valores conservadores. E para esses conservadores, a família constituída por dois homens ou duas mulheres, não tem o direito de ser legalizada pelo Estado.
Não nos cabe criticar os conservadores americanos. Afinal, segundo as informações que nos chegam pela mídia, nas Américas, só a Argentina conseguiu superar o preconceito de alguns grupos conservadores e aprovar o direito civil do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Bem diferente da situação atual do continente europeu. Em 1989, a Dinamarca aprovou, por lei, as relações entre pessoas do mesmo sexo. Logo em seguida, a Noruega admite a união de casais homossexuais. Mas coube a Holanda, o status de ser o primeiro país a permitir o casamento homoafetivo.
A segunda notícia, e a de maior impacto contra o preconceito, veio do meio científico. Em uma carta, publicada na revista acadêmica Arquivos do comportamento sexual, o dr. Robert L. Spitzer, o proclamado pai da psiquiatria moderna, reconsidera a conclusão de sua pesquisa publicada nesta mesma revista em 2001. Admite os erros de seu estudo e pede desculpas aos homossexuais que, influenciados por ele, acreditaram poder mudar sua opção sexual através de um processo terapêutico.
A terapia reparativa, às vezes chamada de terapia de “conversão” ou “reorientação sexual”, parte de uma leitura preconceituosa da teoria freudiana da bissexualidade, e é usada, principalmente, entre grupos religiosos. Em sua pesquisa, Spitzer recrutou 200 pessoas dos centros que realizavam a terapia. Entrevistou cada uma por telefone, perguntando sobre seus impulsos sexuais, sentimentos, comportamentos antes e depois da terapia, classificando as respostas em uma escala.
A pesquisa apresentava sérios problemas. Ela se baseava no que as pessoas se lembravam de sentir anos antes, e não testava uma terapia em particular. “Apenas metade dos participantes se tratou com terapeutas, enquanto outros trabalharam com conselheiros pastorais ou em grupos independentes de estudos da Bíblia”.
Na publicação do resultado da pesquisa, Spitzer não deixou implícito nas suas conclusões que ser gay era uma opção, ou que era possível para qualquer um que quisesse mudar fazê-lo com terapia. Mas isso não impediu grupos conservadores e religiosos de citarem o estudo em apoio a suas ideias.
Agora, 11 anos depois da publicação, em entrevista a um jornal americano Spitzer confessa o seu erro: “É o único arrependimento que tenho; o único profissional. E eu acho que, na história da psiquiatria, eu não creio que tenha visto um cientista escrever uma carta dizendo que os dados estavam lá, mas foram interpretados erroneamente... Que tenha admitido isso e pedido desculpas aos seus leitores. Isso é alguma coisa, você não acha?”

terça-feira, 22 de maio de 2012

A Busca De Um Ideal Materno


“Você é mãe suficiente?” Com essa questão, e uma imagem no mínimo incomum aos padrões ocidentais, a revista americana Time levanta uma polêmica que há muito tempo foi esquecida. O tema, pivô da polêmica, continua sendo as diretrizes, impostas pela conclusão de experimentos científicos, que pretende definir os padrões de comportamento da “mãe ideal”.

Partindo de pesquisas que comprovam a importância do aleitamento materno na constituição do desenvolvimento físico da criança, a revista recupera a antiga teoria attachment parenting, que nos anos 80 causou muito impacto, e discussões acirradas, na área da psicologia infantil. Confesso que sou bastante cética, e questiono a confiabilidade de pesquisas que parecem se esforçar para encontrar provas a favor de uma conclusão determinada.

Esse ceticismo é consequência de anos de trabalho no consultório. Na escuta de tantas e variadas histórias, aprendi que somente no campo da ética podemos tentar definir regras e arranjos sociais que mais conduzem ao florescimento humano. Embora seja mais fácil acreditar em mudanças comportamentais. 

Amamentar o filho por três ou cinco anos, pode fazer bem ao desenvolvimento físico do bebê. Não vou questionar essa conclusão. O que questiono é o suposto benefício psicológico desse ato. Será que uma mãe que não consegue amamentar o seu bebê pode ser considerada uma péssima mãe? Quantas mães não puderam amamentar nem mesmo por um mês? Quantas mães amorosas, com um desejo sincero de amamentar por meses o bebê, já receberam a indicação de pediatras para iniciar, logo nos primeiros meses, uma alimentação suplementar?

Pela importância da singularidade de cada história, preocupa-me as generalizações. Mães são seres capazes de absorver muita culpa. A maioria das mulheres deseja sinceramente dar o melhor de si quando assumem a função da maternidade. Um desejo nada fácil de ser realizado. Daí advém as mais variadas culpas, e a sensação de estar sempre em falta.

É bem provável que uma mãe feliz e responsável por suas funções faça mais bem ao filho, do que uma mãe amamentadora. Nutrir é uma função materna importante, mas não é a única.
 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A escola do machismo é em casa



Por: Maria Rita Khel - Psicanalista

O machismo, o que é? É a masculinidade acuada. Na falta de entender o que é ser um homem e qual a diferença fundamental que permite que um homem situe seu desejo em relação a uma mulher, o macho acuado interpreta o enigma da diferença entre os sexos como uma desigualdade de valor. Segundo a lógica da masculinidade acuada, do homem inseguro diante do enigma da diferença sexual, as mulheres não seriam diferentes dos homens – seriam inferiores. A prova disso – como são resistentes à evolução dos costumes as teorias sexuais infantis! – é que lhes falta alguma coisa no corpo, bem onde, nos homens, o falo se evidencia.



Isto se “aprende” em casa, isto é: na passagem pelo complexo de Édipo. A estratégia machista do menino se torna ainda mais consistente se a fantasia da inferioridade feminina também funcionar na relação entre o pai e a mãe.

A escola talvez seja o espaço privilegiado, hoje, do “politicamente correto”. Não sei se a escola, enquanto instituição, reproduz os pressupostos da superioridade masculina. Mas infelizmente (ou por isso mesmo?) não é a escola que socializa nossas crianças. Antes dela, está a televisão. E dentre a aparente variedade de mensagens veiculadas pela televisão, a hegemonia é da publicidade. A publicidade representa, ainda que não tenha esta intenção, a segunda escola do sexismo contemporâneo. É na publicidade que as crianças, meninos e meninas, “aprendem” a equivalência entre os corpos femininos e as mercadorias. O corpo da mulher serve para agregar valor a todos os objetos em oferta no mercado. Uma mulher vale uma cerveja; vale um cartão de crédito; vale um automóvel; vale um analgésico; um provedor da internet; uma marca de tintas; um banco.

Dizer que a publicidade ensina que o valor das pessoas se mede pelo que elas podem comprar já é um truísmo. Só que as mulheres, ou melhor, os belos corpos das belas mulheres, já não se servem das mercadorias, mas servem a elas. Há exceções. Algumas valem mais do que o produto que anunciam. Não necessariamente as mais bonitas. Nem as mais talentosas: as mais caras. Uma Daniela, uma Gisele – estas não se vendem a qualquer um. Diante dos cifrões que reluzem no sorriso delas o macho comum se curva, inferiorizado. E vai descontar nas outras – essas rampeiras baratas! – sua nova humilhação.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Vazio Devastador da Separação.






“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Com esta frase, Tolstói introduz o leitor no universo de Anna Kariênina. Um dos seus mais famosos romances, escrito entre 1873 e 1877.

É longo o tempo que nos separa da personagem do romance. No entanto, o seu sofrimento, causado pela separação do marido e do filho, ressoa na história de muitas mulheres ainda hoje. Os nossos valores morais não são mais aqueles do século XIX, e a emancipação econômica das mulheres provocou a mudança de vários valores comportamentais. Mas, mesmo com tantas mudanças, ainda é muito difícil aceitar que uma mulher, que ocupa a função de mãe e esposa, se apaixone por outro homem e deseje viver essa paixão. Mesmo que, para isso, necessite desfazer o seu casamento.

Quando esta paixão “acidental” acontece na vida de um homem, ela é rapidamente absorvida pelo grupo familiar e social que o cerca. Ou seja, ainda é mais fácil para um homem pedir a separação e entrar em um novo relacionamento, do que para uma mulher. Embora a dor narcísica causada pela separação seja igual para ambos os sexos.

Porém, há algo que diferencia esse tipo de separação – quando se é trocado por outro parceiro – que a torna muito mais difícil para certos homens. Esse algo está no fato de que muitos deles transformam suas parceiras em um objeto fetichista. Objeto fetichista é aquele objeto, privilegiado por alguns homens, como objeto erótico. Um objeto fetichista por excelência é o sapato: é o mais conhecido, mas não é o único. Existem vários objetos da vestimenta feminina que podem ser elevados à categoria de fetiche. Entre eles, claro, o próprio corpo feminino. Veja que aqui não é o ser da mulher que está em jogo, mas o seu corpo.

Todo ser humano cria a sua própria fantasia erótica. Essa fantasia é uma cena, uma imagem que se constrói mentalmente e que possui características singulares. O objeto fetichista, quando constituído, ocupa um lugar central na fantasia masculina. Se ele vem a faltar o homem não consegue provocar erotização em si mesmo: não consegue se erotizar. Quando uma mulher ocupa a função desse objeto na vida erótica do homem, ou melhor, quando o corpo da mulher ocupa essa função, a perda desse corpo é sentida como a perda de um objeto muito valioso. Mais valioso que a própria imagem narcísica: que seu próprio eu. E saber que este objeto vai ser perdido para sempre - afinal, ela está apaixonada por outro - tem um efeito desesperador.

Em alguns casos, o desejo masculino é o de transformar esse objeto iluminado num abjeto asqueroso. Foi o que aconteceu com o marido de Anna. Tirou-lhe toda a dignidade. Denegriu sua vida de uma forma tão violenta, que ela própria não conseguiu mais viver consigo mesma. Em outros casos, os mais trágicos, o homem prefere eliminar esse objeto a perdê-lo. Essa foi a opção de Otelo, na tragédia de Shakespeare. Uma opção devastadora que, como sabemos, está se repetindo com muita frequência nos dias de hoje.