sábado, 23 de junho de 2012

O Berço Vazio




“É hora de dormir. Mariana, de cinco meses, se aloja na cama da família. Antes de embalar no sono, ela estica as mãozinhas para tocar a mãe, Simone, que está ao seu alcance. Durante a noite, gosta de fazer carinho no pai.”

O fragmento acima, copiado de um jornal de circulação nacional, aponta com maestria para o que considero o verdadeiro problema dessa nova tendência. Colocar o bebê na cama dos pais é muito mais prático: facilita a vida. No entanto, colocar o bebê na cama dos pais, é transformar a “cama do casal” em “cama da família”.

Teoricamente, a diferença pode parecer sutil, mas na prática é devastadora para a relação erótica do casal. Ter um bebê na cama dos pais é acabar com a possibilidade de qualquer gesto de erotização entre o casal nos momentos que antecede ao sono. É abrir mão de um espaço que deve ser constantemente preservado, o espaço da intimidade do casal.

Pessoas apaixonadas gostam de dormir juntas, de dividir a mesma cama. Quando estamos namorando, desejamos ardentemente o momento de compartilhar os travesseiros com o nosso parceiro. A intimidade criada pelo ato de dormir junto, quando há amor, é a certeza que vivenciamos com a pessoa amada um momento único.

Um filho transforma um casal em uma família, ou seja, em uma estrutura maior. Com a chegada dos filhos, as relações afetivas tornam-se mais complexas. O casal – esposa e marido – assume a responsabilidade afetiva de ser mãe e pai. Num passado não muito distante, a chegada dos filhos marcava o fim do espaço romântico. Os pais deviam priorizar os deveres e responsabilidades de suas funções.

É claro que amamos muito os nossos filhos, mas esse amor não tem uma conotação romântica. O amor romântico é um amor erotizado. Ninguém espera viver um romance com um amigo, com o pai ou com a mãe.
Preservar o momento de intimidade do casal é um modo de lutar pela felicidade e, muito provavelmente, pela manutenção da família. Como não existe nenhuma pesquisa que tenha comprovado que crianças que dormem na cama dos pais, no futuro, serão mais felizes, mais inteligentes, mais calmas ou qualquer outro mais. A única coisa absolutamente certa é que colocar os bebês a dormir na cama dos pais, dá menos trabalho. Mas, atenção, nem sempre o caminho mais fácil é o melhor dos caminhos.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Aromas da Mudança


Vivemos nas primeiras décadas do século 21 um momento de ruptura, onde aspectos básicos das relações humanas estão sendo reformulados.  As formas tradicionais de relacionamentos não estão dando mais respostas satisfatórias e, com isso, se abre um espaço para descobrir novos modos de viver as relações. Essas mudanças, como todo processo de mudança, geram dúvidas e incertezas. Não se quer repetir os padrões antigos, mas teme-se a instabilidade dos novos modelos.

O novo é sempre assustador, nos faz sentir desprotegidos, por isso nos agarramos ao já conhecido. Imaginem que se, nas primeiras décadas do século XX, alguém dissesse que as separações seriam corriqueiras e que as garotas não se casariam virgens. Por certo, as pessoas ficariam muito indignadas com tal possibilidade.

Hoje, a mulher pode não só dividir o poder econômico com o homem, como decidir ter filhos se quiser ou quando quiser. Uma escolha que as personagens de Jane Austen, no século XVII, jamais imaginaram poder fazer. A total dependência econômica e moral, das mulheres daquela época, interditava completamente a liberdade de escolha.

O enfraquecimento dos valores que sustentaram a ideologia patriarcal traz novas reflexões sobre o relacionamento entre homens e mulheres: o amor, o casamento, a sexualidade. O aroma dessas mudanças influência nossas escolhas. Pressentimos a destruição de valores estabelecidos como inquestionáveis e nossas convicções mais enraizadas são abaladas. Os modelos do passado não nos dão mais respostas e nos deparamos com uma realidade ameaçadora, por não encontramos modelos em que nos apoiar, em tempo algum, em nenhum lugar.

Entretanto, essa pode ser a grande saída para novas conquistas, quando perdemos um pouco do medo das mudanças. Não tendo mais que se adaptarem a modelos arcaicos, as singularidades encontram um novo espaço de expressão. No momento em que se rompe com a moral que, durante tanto tempo e através de seus códigos, julgou e subjugou o prazer, abre-se um espaço onde novos modos de vida, assim como novos desejos, podem ser experimentados.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

As Instâncias do Medo



O medo, a princípio, é um sentimento de defesa e proteção. Portanto, um sentimento positivo, aliado da luta diária pela sobrevivência. O medo como ferramenta de proteção tem um objeto bem definido. Sentimos medo de pessoas, animais e situações que não podemos controlar, e que, por isso mesmo, colocam em risco a nossa sobrevivência.

Mas existem outros tipos de medo. Medos mais difíceis de conviver e de admitir sua existência. Temos, por exemplo, medo de ser feliz e, simultaneamente, medo que a felicidade acabe. Temos medo da dor. Medo de perder. Medo de recomeçar. Medo de estar sozinhos, e medo de ter alguém. O medo, para muitos, parece ser o sentimento mais constante e mais intenso.

Para os que vivem constantemente sob a sombra desse sentimento, o medo de perder é o que mais paralisa. Para esses, o encontro amoroso pleno torna-se um pesadelo. Logo depois da euforia dos primeiros encontros, aparece uma estranha inquietação, acompanhada de uma melancolia vaga e indefinida. Surgi à sensação que alguma desgraça está a caminho, aproximando-se a passos largos, e que é impossível preservar por muito tempo tamanha felicidade.

Numa estranha lógica, nasce a suspeita de que coisas dolorosas e frustrantes têm mais chances de aparecer quando se está feliz. O perigo parece crescer proporcionalmente à alegria. E, pouco a pouco, a sensação de plenitude vai cedendo espaço a apatia, ou pior, ao pânico.

Algumas vezes, a escolha de parceiros inadequados é uma maneira de reduzir os riscos de uma hipotética tragédia. Um jeito de apagar a chance de ser feliz. Cria-se uma dor menor com o objetivo de se proteger de uma suposta dor maior. Outras vezes, a proteção ao medo é construída na desvalorização do parceiro. Ao elevar os pequenos defeitos do outro àa categoria de grandes problemas, cria-se uma zona de instabilidade externa que serve de proteção à instabilidade interna.

O medo é um sentimento que não podemos eliminar de nossas vidas. Como disse no início, ele é uma ferramenta de proteção. Portanto, o medo de perder existe em todos nós.  Só não podemos deixar que ele se transforme num antídoto da felicidade. Afinal, uma coisa é certa, felicidade não atrai tragédias.

sábado, 26 de maio de 2012

O preconceito sustentado por estudos “científicos”.



Este mês, duas notícias vindas dos Estados Unidos repercutem na mídia e nas redes sociais dos brasileiros. A primeira foi à declaração do presidente Barack Obama que, em plena campanha para reeleição, defende o casamento gay. Um gesto importante, tendo em vista que uma grande parte do povo americano defende valores conservadores. E para esses conservadores, a família constituída por dois homens ou duas mulheres, não tem o direito de ser legalizada pelo Estado.
Não nos cabe criticar os conservadores americanos. Afinal, segundo as informações que nos chegam pela mídia, nas Américas, só a Argentina conseguiu superar o preconceito de alguns grupos conservadores e aprovar o direito civil do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Bem diferente da situação atual do continente europeu. Em 1989, a Dinamarca aprovou, por lei, as relações entre pessoas do mesmo sexo. Logo em seguida, a Noruega admite a união de casais homossexuais. Mas coube a Holanda, o status de ser o primeiro país a permitir o casamento homoafetivo.
A segunda notícia, e a de maior impacto contra o preconceito, veio do meio científico. Em uma carta, publicada na revista acadêmica Arquivos do comportamento sexual, o dr. Robert L. Spitzer, o proclamado pai da psiquiatria moderna, reconsidera a conclusão de sua pesquisa publicada nesta mesma revista em 2001. Admite os erros de seu estudo e pede desculpas aos homossexuais que, influenciados por ele, acreditaram poder mudar sua opção sexual através de um processo terapêutico.
A terapia reparativa, às vezes chamada de terapia de “conversão” ou “reorientação sexual”, parte de uma leitura preconceituosa da teoria freudiana da bissexualidade, e é usada, principalmente, entre grupos religiosos. Em sua pesquisa, Spitzer recrutou 200 pessoas dos centros que realizavam a terapia. Entrevistou cada uma por telefone, perguntando sobre seus impulsos sexuais, sentimentos, comportamentos antes e depois da terapia, classificando as respostas em uma escala.
A pesquisa apresentava sérios problemas. Ela se baseava no que as pessoas se lembravam de sentir anos antes, e não testava uma terapia em particular. “Apenas metade dos participantes se tratou com terapeutas, enquanto outros trabalharam com conselheiros pastorais ou em grupos independentes de estudos da Bíblia”.
Na publicação do resultado da pesquisa, Spitzer não deixou implícito nas suas conclusões que ser gay era uma opção, ou que era possível para qualquer um que quisesse mudar fazê-lo com terapia. Mas isso não impediu grupos conservadores e religiosos de citarem o estudo em apoio a suas ideias.
Agora, 11 anos depois da publicação, em entrevista a um jornal americano Spitzer confessa o seu erro: “É o único arrependimento que tenho; o único profissional. E eu acho que, na história da psiquiatria, eu não creio que tenha visto um cientista escrever uma carta dizendo que os dados estavam lá, mas foram interpretados erroneamente... Que tenha admitido isso e pedido desculpas aos seus leitores. Isso é alguma coisa, você não acha?”

terça-feira, 22 de maio de 2012

A Busca De Um Ideal Materno


“Você é mãe suficiente?” Com essa questão, e uma imagem no mínimo incomum aos padrões ocidentais, a revista americana Time levanta uma polêmica que há muito tempo foi esquecida. O tema, pivô da polêmica, continua sendo as diretrizes, impostas pela conclusão de experimentos científicos, que pretende definir os padrões de comportamento da “mãe ideal”.

Partindo de pesquisas que comprovam a importância do aleitamento materno na constituição do desenvolvimento físico da criança, a revista recupera a antiga teoria attachment parenting, que nos anos 80 causou muito impacto, e discussões acirradas, na área da psicologia infantil. Confesso que sou bastante cética, e questiono a confiabilidade de pesquisas que parecem se esforçar para encontrar provas a favor de uma conclusão determinada.

Esse ceticismo é consequência de anos de trabalho no consultório. Na escuta de tantas e variadas histórias, aprendi que somente no campo da ética podemos tentar definir regras e arranjos sociais que mais conduzem ao florescimento humano. Embora seja mais fácil acreditar em mudanças comportamentais. 

Amamentar o filho por três ou cinco anos, pode fazer bem ao desenvolvimento físico do bebê. Não vou questionar essa conclusão. O que questiono é o suposto benefício psicológico desse ato. Será que uma mãe que não consegue amamentar o seu bebê pode ser considerada uma péssima mãe? Quantas mães não puderam amamentar nem mesmo por um mês? Quantas mães amorosas, com um desejo sincero de amamentar por meses o bebê, já receberam a indicação de pediatras para iniciar, logo nos primeiros meses, uma alimentação suplementar?

Pela importância da singularidade de cada história, preocupa-me as generalizações. Mães são seres capazes de absorver muita culpa. A maioria das mulheres deseja sinceramente dar o melhor de si quando assumem a função da maternidade. Um desejo nada fácil de ser realizado. Daí advém as mais variadas culpas, e a sensação de estar sempre em falta.

É bem provável que uma mãe feliz e responsável por suas funções faça mais bem ao filho, do que uma mãe amamentadora. Nutrir é uma função materna importante, mas não é a única.
 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A escola do machismo é em casa



Por: Maria Rita Khel - Psicanalista

O machismo, o que é? É a masculinidade acuada. Na falta de entender o que é ser um homem e qual a diferença fundamental que permite que um homem situe seu desejo em relação a uma mulher, o macho acuado interpreta o enigma da diferença entre os sexos como uma desigualdade de valor. Segundo a lógica da masculinidade acuada, do homem inseguro diante do enigma da diferença sexual, as mulheres não seriam diferentes dos homens – seriam inferiores. A prova disso – como são resistentes à evolução dos costumes as teorias sexuais infantis! – é que lhes falta alguma coisa no corpo, bem onde, nos homens, o falo se evidencia.



Isto se “aprende” em casa, isto é: na passagem pelo complexo de Édipo. A estratégia machista do menino se torna ainda mais consistente se a fantasia da inferioridade feminina também funcionar na relação entre o pai e a mãe.

A escola talvez seja o espaço privilegiado, hoje, do “politicamente correto”. Não sei se a escola, enquanto instituição, reproduz os pressupostos da superioridade masculina. Mas infelizmente (ou por isso mesmo?) não é a escola que socializa nossas crianças. Antes dela, está a televisão. E dentre a aparente variedade de mensagens veiculadas pela televisão, a hegemonia é da publicidade. A publicidade representa, ainda que não tenha esta intenção, a segunda escola do sexismo contemporâneo. É na publicidade que as crianças, meninos e meninas, “aprendem” a equivalência entre os corpos femininos e as mercadorias. O corpo da mulher serve para agregar valor a todos os objetos em oferta no mercado. Uma mulher vale uma cerveja; vale um cartão de crédito; vale um automóvel; vale um analgésico; um provedor da internet; uma marca de tintas; um banco.

Dizer que a publicidade ensina que o valor das pessoas se mede pelo que elas podem comprar já é um truísmo. Só que as mulheres, ou melhor, os belos corpos das belas mulheres, já não se servem das mercadorias, mas servem a elas. Há exceções. Algumas valem mais do que o produto que anunciam. Não necessariamente as mais bonitas. Nem as mais talentosas: as mais caras. Uma Daniela, uma Gisele – estas não se vendem a qualquer um. Diante dos cifrões que reluzem no sorriso delas o macho comum se curva, inferiorizado. E vai descontar nas outras – essas rampeiras baratas! – sua nova humilhação.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Vazio Devastador da Separação.






“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Com esta frase, Tolstói introduz o leitor no universo de Anna Kariênina. Um dos seus mais famosos romances, escrito entre 1873 e 1877.

É longo o tempo que nos separa da personagem do romance. No entanto, o seu sofrimento, causado pela separação do marido e do filho, ressoa na história de muitas mulheres ainda hoje. Os nossos valores morais não são mais aqueles do século XIX, e a emancipação econômica das mulheres provocou a mudança de vários valores comportamentais. Mas, mesmo com tantas mudanças, ainda é muito difícil aceitar que uma mulher, que ocupa a função de mãe e esposa, se apaixone por outro homem e deseje viver essa paixão. Mesmo que, para isso, necessite desfazer o seu casamento.

Quando esta paixão “acidental” acontece na vida de um homem, ela é rapidamente absorvida pelo grupo familiar e social que o cerca. Ou seja, ainda é mais fácil para um homem pedir a separação e entrar em um novo relacionamento, do que para uma mulher. Embora a dor narcísica causada pela separação seja igual para ambos os sexos.

Porém, há algo que diferencia esse tipo de separação – quando se é trocado por outro parceiro – que a torna muito mais difícil para certos homens. Esse algo está no fato de que muitos deles transformam suas parceiras em um objeto fetichista. Objeto fetichista é aquele objeto, privilegiado por alguns homens, como objeto erótico. Um objeto fetichista por excelência é o sapato: é o mais conhecido, mas não é o único. Existem vários objetos da vestimenta feminina que podem ser elevados à categoria de fetiche. Entre eles, claro, o próprio corpo feminino. Veja que aqui não é o ser da mulher que está em jogo, mas o seu corpo.

Todo ser humano cria a sua própria fantasia erótica. Essa fantasia é uma cena, uma imagem que se constrói mentalmente e que possui características singulares. O objeto fetichista, quando constituído, ocupa um lugar central na fantasia masculina. Se ele vem a faltar o homem não consegue provocar erotização em si mesmo: não consegue se erotizar. Quando uma mulher ocupa a função desse objeto na vida erótica do homem, ou melhor, quando o corpo da mulher ocupa essa função, a perda desse corpo é sentida como a perda de um objeto muito valioso. Mais valioso que a própria imagem narcísica: que seu próprio eu. E saber que este objeto vai ser perdido para sempre - afinal, ela está apaixonada por outro - tem um efeito desesperador.

Em alguns casos, o desejo masculino é o de transformar esse objeto iluminado num abjeto asqueroso. Foi o que aconteceu com o marido de Anna. Tirou-lhe toda a dignidade. Denegriu sua vida de uma forma tão violenta, que ela própria não conseguiu mais viver consigo mesma. Em outros casos, os mais trágicos, o homem prefere eliminar esse objeto a perdê-lo. Essa foi a opção de Otelo, na tragédia de Shakespeare. Uma opção devastadora que, como sabemos, está se repetindo com muita frequência nos dias de hoje.

domingo, 6 de maio de 2012

Os paradoxos da Convivência


A grande dificuldade de convivência entre as pessoas se fundamenta no fato de que o ser humano é um ser social por natureza e, simultaneamente, um ser egocêntrico. Como seres sociais, temos muita dificuldade em viver sozinhos, e por sermos egocêntricos somos, ao mesmo tempo, incapazes de conceber aos nossos semelhantes os mesmos privilégios que nos concebemos. Portanto, sozinhos não conseguimos viver e, paradoxalmente, com o outro também é difícil.
O “outro” que é causa da nossa felicidade é, também, causa de sentimentos difíceis de conviver, como raiva, frustração e magoa. Mesmos as pessoas que mais amamos não escapam a essa dificuldade inerente a todos os relacionamentos. Na verdade, aquelas pessoas que mais amamos são as que nos causam maiores dores. É mais fácil esquecer os maus tratos de alguém que está fora do nosso círculo afetivo, do que os maus tratos das pessoas que amamos.
Essa carência afetiva, que sentimos na convivência daqueles que amamos, é causada pelas grandes expectativas que colocamos sobre eles. Esperamos que eles estejam sempre prontos a nos ajudar, dar apoio e nos fazer felizes. Nosso egocentrismo nos leva a pensar que o outro é responsável pela nossa felicidade. E que essa responsabilidade deveria ser maior que os seus próprios desejos e interesses. Aqueles que amamos tem o dever de nos amar mais do que a si próprios. De colocar nossos desejos e vontades acima de seus próprios.
Embora seja essa a mais profunda das nossas fantasias egocêntrica, ela pouca vezes se realiza. Afinal, nossos queridos – pai, mãe, marido, mulher, irmãos e amigos -, também são egocêntricos. Eles também esperam que coloquemos seus desejos antes do nosso: que nos sacrifiquemos por eles. Coisa que nem sempre estamos dispostos a fazer. O que é muito saudável para o nosso ego. Afinal, qualquer relacionamento que exige grandes e contínuos sacrifícios acaba ficando tão pesado que deixa de valer a pena. 
O que precisamos para mantermos bons relacionamentos, ou para parar de sofrer tanto dentro dos relacionamentos, é admitir que essa grande fantasia de que os outros são responsáveis pela nossa felicidade, é apenas uma fantasia egocêntrica. Que o ego tem essa estranha mania de se sentir o centro do mundo, e esquece que o mundo tem vários centros. Às vezes, estamos no centro das atenções dos outros, isso nos causa grande prazer. Mas, a maioria das vezes, somos apenas uma estrelinha no universo de milhares de estrelas egocêntricas, e temos que aprender a viver com isso.

domingo, 29 de abril de 2012

The end.....




Aprendemos com os contos de fadas que pessoas apaixonadas se casam e vivem felizes para sempre. O enredo desses contos nos leva a pensar que, o fim da história, é o começo da felicidade. Os obstáculos da vida em comum de um casal não interessam ao ideal romântico sustentado pelo enredo. Se interessasse não seriam contos de fadas, não é mesmo? Mas a vida não é um conto de fada. O sucesso de um casamento, na vida real, depende do nosso empenho e da nossa disposição psíquica de ser feliz.

A realidade conspira contra esse ideal romântico, e quem não estiver preparado para enfrentá-la pode se decepcionar muito. No dia a dia, as dificuldades interferem negativamente em nosso sentimento amoroso e em nosso desejo sexual. Os conflitos de relacionamento dos tempos de namoro tendem a se intensificar. Se não tomarmos cuidado, passaremos grande parte do nosso tempo discutindo as questões familiares e financeiras, e reclamando que não estamos tendo o retorno que esperávamos do casamento. A troca de gestos carinhosos e o sexo vão ficando, com o passar dos anos, cada vez mais escassos.

No período de namoro, separávamos melhor as coisas. Compartilhávamos os nossos problemas com os parentes e amigos, só recorríamos ao namorado para pedir conselhos ou uma ajuda eventual. Depois do casamento, marido e mulher contam apenas um com o outro para resolver as questões práticas. E a situação se complica ainda mais com o nascimento dos filhos.

As mães dão toda a atenção ao recém-nascido. As inseguranças da maternidade, que as impulsionam a se ocupar do filho, se sobrepõe ao desejo pelo marido. Ainda que o marido compreenda essa fase como natural, a diminuição do interesse sexual, pouco antes e logo depois do parto, costuma frustrar os homens. Eles até podem compreender, mas não deixam de se sentir rejeitados. Muitos homens reagem negativamente, demonstrando menos interesse por elas. Sentindo-se menos desejadas e, por isso, menos amadas, elas se apegam ainda mais aos filhos, alimentando um círculo vicioso perigoso que pode ser fatal.

Exigentes, carentes de atenção e de carinho, os filhos pequenos atropelam a vida íntima do casal, a menos que os pais imponham limites. Posturas rigorosas em defesa do relacionamento amoroso do casal e disposição permanente de recriar e manter condições propícias para o romance e o erotismo são indispensáveis, para que os jovens pais não caiam na monotonia do sexo rápido, pobre e reduzido às tardes de sábado ou domingo.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O conflito entre liberdade e dependência nas relações amorosas.



O ser humano nasce prematuro, isto quer dizer que ao nascer somos completamente dependentes. Precisamos ao longo dos primeiros anos de vida, de um adulto que se disponha a satisfazer nossas necessidades básicas: alimentação, higiene, saúde e afetos. Sem os cuidados de um adulto, dificilmente atravessaríamos os primeiros anos de vida.

Essa dependência do outro carregamos ao longo de nossa vida. Mesmo quando podemos suprir por nós mesmos as necessidades básicas da sobrevivência, precisamos de alguém para trocar ideias, experiências e afetos. Gostamos de exercer nossa individualidade com a máxima liberdade, mas amamos voltar para casa e encontrar alguém à nossa espera. 

Queremos ter espaço para realizar nossos anseios e desejos, ou seja, queremos experimentar nossa individualidade. Mas, também, necessitamos ter alguém para compartilhar nossas experiências. Essa contradição, inerente a todo ser humano, nunca é fácil de ser administrada na vida de um casal.

Muitas vezes, o interesse de um dos parceiros pela carreira e, até mesmo, pelos filhos é sentido pelo outro como abandono ou falta de companheirismo. Na maioria das vezes, os homens reclamam que as mulheres só se interessam pelos filhos. Elas, por sua vez, reclamam dos parceiros que dedicam tempo demais ao trabalho.

A sensação de solidão costuma deixar-nos frustrados e infelizes. O parceiro, que se sente “traído” pelo interesse do outro, tem vontade de procurar uma nova relação. Sonha com um novo amor, com uma relação de mais companheirismo. Começa a acreditar que a felicidade está noutro lugar, com outro parceiro. Isso acaba deixando-o com uma sensação de impotência e ainda mais solitário. Pois, uma das formas de nos sentirmos presos na vida, é quando passamos a acreditar que só seremos felizes em outro lugar e com outra pessoa. Essa prisão provocada pela ilusão romântica da felicidade foi o tema do romance mais famoso de Flaubert: Madame Bovary. E sabemos que não terminada nada bem.

Por isso mesmo, não acredito que a separação seja a melhor forma de resolver esse dilema. A busca ilusória de uma relação completa vai sempre fracassar. Afinal, a divisão entre a liberdade e a homeostase do amor, é inerente a todo ser humano, e mais cedo ou mais tarde vamos ter que aprender a conviver com ela.

terça-feira, 17 de abril de 2012

A excitação anal nos homens




Um ótimo texto de Flavio Gikovate sobre o
 dilema que
 criamos para nós mesmos,
sempre que ideias preconceituosas
inibem o  prazer.


O fato é que a enervação do orifício externo do ânus faz com que a estimulação táctil da área provoca importante excitação sexual. Trata-se, pois, de uma zona erógena importante. E mais: a penetração determina a estimulação prazerosa da próstata que pode, por si, provocar a ejaculação. É preciso pensar sobre isso de uma forma livre, de modo que a excitação não seja confundida com homossexualidade. Se for uma mulher a estimular a região anal e se ela introduzir algum objeto no homem, o prazer será sentido de forma idêntica e não haverá outro homem envolvido (nem mesmo em imaginação). A excitação “pertence” àquele homem e não depende de quem a provoca.

Estas práticas, chamadas de sodomia, acompanharam a vida de muitos homens ao longo dos séculos. Muitas vezes eram parte da masturbação e só no século XIX passaram a ser vistas de forma preconceituosa, rejeitadas pela maioria dos homens e por muitas mulheres. Ao longo do século XX se consolidou a idéia de que desejos eróticos relacionados com a região anal são próprios e exclusivos de homens homossexuais, concepção vigente até nossos dias.

Assim, o território anal tornou-se interditado para os que gostam de mulheres; estes, ao que parece, têm que se proteger e tomar muito cuidado para não caírem em tentações inaceitáveis. As repressões sociais reforçam estas proibições e as famílias continuam a educar seus filhos no sentido de se comportarem como “machos” – ou “machões”. Em nossa cultura a maior parte dos homens mal encosta na região anal e não permite que suas companheiras os estimule por esta via.

No sexo, as proibições determinam, para muitos, o desejo de transgressão. Os homens que não têm coragem de se abrir com suas parceiras acabarão por buscar a companhia dos travestis. Pelo fato de “parecerem” mulheres despertam o desejo visual da mesma forma que elas. Ao mesmo tempo, estão “equipados” para a relação anal. O desejo é pela forma feminina do corpo e o prazer anal é o que está sendo buscado. Saída engenhosa! Pensando melhor, talvez a preocupação com a homossexualidade só devesse entrar em cena quando o desejo visual depender do corpo de um homem.

domingo, 15 de abril de 2012

As riquezas de uma relação romântica


Em quase todos os relacionamentos a linguagem romântica dura pouco. São raríssimos os casais que conseguem viver, ao longo de várias décadas, uma relação de carinho e respeito. Logo que aparecem os primeiros impasses provocados pelas diferenças entre os parceiros, o discurso romântico é substituído por brigas constantes.
No dia-a-dia, as divergências de opinião e a falta de um projeto comum provocam irritação permanente. E isso não vale só para as grandes diferenças. O cotidiano se faz nos pequenos detalhes: Onde vamos jantar? Onde vamos passar as férias? Que filme assistir? Como educar os filhos? O que faremos com os parentes? E assim por diante.
São justamente estas pequenas contradições que provocam a irritação, a raiva e, portanto, a maioria das brigas. As afinidades aproximam as pessoas, enquanto as diferenças as afastam. Levamos muito tempo para aprender a conviver com as diferenças. Além do mais, a oposição é a raiz da inveja, e a inveja é inimiga do diálogo. Nos relacionamentos onde a diferença é vista como oposição, as brigas serão o normal, e os momentos de encontro e harmonia serão exceções cada vez mais raras.

O discurso romântico no casamento poderia ser bastante comum porque o amor não padece do desejo de novidade que tanto agrada ao prazer sexual. “Ao contrário, o amor é apego, é vontade de aconchego, de tranquila intimidade. Trata-se de um sentimento que floresce e frutifica melhor quando tudo é exatamente igual e antigo. Gostamos da nossa casa, daquela velha roupa que nos agasalha tão bem. Gostamos de voltar aos mesmos lugares do passado, da nossa cidade, do nosso país. Queremos também sentir essa solidez e estabilidade com o nosso parceiro amoroso. Amor é paz e descanso e deriva justamente do fato de uma pessoa conhecer e entender bem a outra. Por isso, é importante que as afinidades, as semelhanças, predominem sobre as diferenças de temperamento, caráter e projetos de vida. Seres humanos parecidos poderão viver uma história de amor rica e de duração ilimitada. Não terão motivos para divergências. Não sentirão inveja.”