sábado, 12 de outubro de 2013

Mulheres, Família e Profissão




Tentar ser supermulher está fora de moda

Ana Paula Chagas, 50, é headhunter há mais de duas décadas e sócia de uma empresa de recrutamento, além de uma das criadoras no Brasil do Women Corporate Directors, fórum cuja missão principal é ampliar a presença de mulheres no topo do comando das empresas.

Mulheres Executivas

BBC - A procura por mulheres executivas tem crescido no Brasil?
Ana Paula Chagas - Com certeza. Isso começou um pouco seguindo empresas americanas, que diziam que era preciso ter diversidade e criaram programas para contratar pessoas de (diferentes) sexos, raças. Mas elas concluíram que as empresas que têm mais diversidade dão mais lucro.
(Mas) hoje nem um 1% das presidentes das 500 maiores empresas são mulheres. É algo que leva tempo, uma geração ou duas, mas está mudando. Em gerência média já vejo muitas mulheres, e elas são maioria em algumas áreas, como RH e marketing.
É claro que a mulher tem um monte de outras responsabilidades - ela tem a maternidade, depois cuida dois pais. Tudo tem um preço.
Algumas mulheres não querem fazer isso (chegar ao topo do comando da empresa). Há mulheres que olham para mim e para minhas colegas e dizem, 'não sei se quero essa vida', de acordar 5h da manhã, trabalhar 12 horas por dia.
Ao mesmo tempo, essa mulher atual consegue conciliar tudo porque o marido divide as responsabilidades. Antigamente, quando eu entrevistava um executivo, ele não falava da família. Hoje entrevistei um, de 30 e poucos anos, e a primeira coisa de que ele falou foi da mulher, dos filhos. Ele lava a louça, ajuda.

Divisão de Tarefas

Gerou polêmica recentemente nos EUA caso da CEO do Yahoo!, Marissa Mayer, que tirou apenas algumas semanas de licença-maternidade e voltou ao trabalho. Por onde caminha esse debate?
O debate caminha pelo marido ajudar a dividir as tarefas - e não pela mulher desistir da carreira. O marido prefere a mulher que trabalha à dona de casa, porque precisa das duas rendas. Estou falando de 2% da população do Brasil - executivos, classe A e B. Porque, se falarmos da população inteira, a mulher é chefe de família, ela que segura o tranco, faz tudo - às vezes sem marido.
Em cargos competitivos, a mulher em licença-maternidade muitas vezes fica online, volta antes, vai a reuniões. A executiva às vezes fala 'eu não vou parar, não vou estragar minha carreira'. A do Yahoo! foi um pouco radical. Respeito também as mulheres que querem ter esse momento, amamentar e ficar em casa. Mas conheço muitas que voltam depois de um mês porque não podem largar seu trabalho e ficar cinco meses em casa. É uma decisão muito pessoal.
Tive filhos em empresas diferentes, para não atrapalhar a carreira. A mulher pode planejar a carreira e a hora de ter filhos - 'agora que eu entreguei um projeto é bom momento para parar'. No momento errado prejudica mesmo. Não dá para ter três filhos na mesma empresa e reclamar que não foi promovida.

Maternidade e Vida Profissional

É uma estratégia usada por várias executivas? Será que isso de certa forma não confirma que as empresas ainda veem esse lado materno da mulher como um fardo?
O fato é que uma executiva com carreira competitiva tem que planejar suas gestações sim. Filhos são maravilhosos, mas não da para ter dois ou três filhos em seguida, ficar mais de um ano fora da empresa e em poucos anos e ainda querer ser promovida. Portanto, quando possível, planejar a hora melhor de ter filhos é muito inteligente e um passo estratégico a favor das mulheres.
As empresas não veem a gravidez como um fardo, mas simplesmente promovem outra pessoa ou colocam outro no lugar.
(Ao mesmo tempo) as mulheres estão casando, estão tendo filhos, e estão tendo sucesso na carreira. Está dando, elas estão conseguindo.
Mas há muita ansiedade por tentar abraçar tanta coisa, não?
Aí talvez seja um pouco culpa da própria mulher, que tende a ser centralizadora. Ser a supermulher está fora de moda. Não dá para ser mulher perfeita, mãe perfeita, executiva perfeita. Buscar filho na escola, cuidar da casa, ser executiva, cuidar dos pais, e o marido só chegar à noite e encontra tudo arrumadinho - essa mulher está deixando de existir.
A que eu vejo mais hoje delega, terceiriza, e tem o maridão junto. Ele tem que ter orgulho da carreira dela. Mas se ele não apoia ou eles competem, aí não tem jeito.

As dificuldades de lidar com o Poder

Quais os principais debates em pauta na Women Corporate Directors?
O principal é: por que há poucas mulheres no topo das empresas?
Acho que algumas têm um perfil menos arrojado. Quando pergunto ao homem se ele está pronto para ser presidente ou sentar num conselho, ele fala 'sim, já estou indo'. Já a maioria das mulheres respondem 'ah, não sei, será que eu estou pronta, será que vou dar conta?'.
É um pouco da cultura em que fomos criadas. Algo que a mulher no Brasil tem de superar e dizer 'claro que estou pronta, senão não teria chegado onde cheguei'.
O maior desafio é a mulher entender que papel ela tem e quer ter; onde ela quer ser muito boa e onde aceita ser mais ou menos, sem culpa. Tirar isso de uma geração que foi criada para ser dona de casa é difícil.
Já a geração mais jovem acho que nem vai ter essa discussão. Cursei a Fundação Getúlio Vargas (em São Paulo) 20 anos atrás. Havia três mulheres na minha turma. Hoje, minha filha faz o mesmo curso de administração, e 60% da sala dela são mulheres. É uma mudança importante para as mulheres que vão entrar no mercado de trabalho.

As Futuras Gerações

Quais serão, então, os desafios da geração da sua filha?
Acho que os debates dela serão idênticos aos dos colegas homens da idade dela: se quer trabalhar em empresa ou ser empreendedora; se quer viajar o mundo; se quer casar e ter filhos ou não. O machismo não está nem na pauta.
A definição de sucesso está mudando para as mulheres do mundo corporativo?
O mundo corporativo está crise de qualidade de vida, mas isso vale tanto para mulheres como para homens. Todos querem trabalhar menos, ficar mais com a família, fazer mais ginástica. Isso é resultado de morar em cidades como São Paulo e da complexidade que virou cuidar da saúde, da família, dos pais, enfrentar o trânsito. Do presidente ao trainee da empresa, homens ou mulheres.

Novos Desafios

Quais os maiores desafios que enfrenta hoje como mulher?
O maior desafio é equilibrar todos os pratinhos - ser boa esposa; ter os filhos próximos apesar de ter pouco tempo, então buscar a qualidade desse tempo; não ter culpa, e sim orgulho de trabalhar fora; e cuidar dos pais, ir à manicure. Acabo fazendo ioga as 5h da manhã, o único horário que sobra.
Ter tido uma mãe que trabalhava influenciou muito. Ela sempre me dizia que eu tinha que ter a minha carreira. Ao mesmo tempo ela dizia que eu tinha que ser a Amélia perfeita. Mas de de jeito algum eu consegui; fiz muita terapia para aprender a lidar com isso. Tenho muito orgulho de trabalhar fora e não tive tempo de trocar fralda e dar papinha aos meus filhos (de 13 e 18 anos). Pergunto sobre isso para eles hoje e me dizem: 'mãe, nem lembro. Tenho orgulho de você'. Depois que passa, você vê que dá tudo certo.
E meu marido ajudou muito. Eu não teria a carreira que eu tenho se não fosse por ele.

Preconceito e Machismo

Vê traços de machismo e preconceito nos seus ambientes profissional e pessoal?
Sempre trabalhei em empresas (que valorizavam) a meritocracia, em que quem entrega resultado cresce. Nunca senti (machismo), pelo contrário - acho até que é uma oportunidade. Na minha carreira, (inicialmente) não havia muitas mulheres e as que estavam lá se destacavam. Hoje é diferente, já é meio a meio nas empresas.
Por que as mulheres ainda ganham menos em salário do que os homens?
Como recrutadora de pessoas no nível sênior, não vejo isso. Não existe isso de "se contratar mulher vou pagar menos do que para homens". No meu universo, que é um nicho, não tem isso. Talvez essas pesquisas salariais falem mais de chão de fábrica - é uma generalização.
Sem falar da área de consumo. Quem decide a compra do automóvel da família já é muito mais a mulher do que o homem. Ela decide a compra da maioria dos produtos da casa. Então (terá mais sucesso) uma empresa que tem mais mulheres que fazem produtos para essas mulheres. Já é chover no molhado - todas as empresas sabem disso.


Fonte: Site BBC - Brasil

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Modelos do Masculino


Seu parceiro é homem ou menino? Faça o teste!

 Por Mônica El Bayeh

 

Independente da idade e da aparência, muitas pessoas nunca atingem a maturidade. Passam a vida como meninos. Homens e mulheres passam pela mesma situação. A imaturidade não é privilégio de um sexo só. 
Alguns homens esquecem de crescer. Eles têm barba, pelos e músculos. Nos tiram o fôlego, mas internamente funcionam como adolescentes. Homens imaturos são perigosos como caminhão desgovernado. Fazem um estrago danado. Uma relação que quase sempre acaba em acidente, com seu nome na lista de feridos. Se quer saber se é o caso do seu, faça o teste e confira. E fuja se ainda der tempo! 

1 - Homens dirão que te amam porque realmente sentem assim. Meninos dirão que te amam para te comer mais rápido ou para você parar de falar.

2 - Homens não prometem muito. Na verdade, quase nada. Mas fazem. O que, no computo geral, dá a maior diferença. Meninos prometem muito. Gostam de causar. Percebem que te conquistam melhor dessa forma e abusam para se dar bem. Desfrutam das benesses que as promessas lhes trazem. Só não cumprem nenhuma delas. Uma espécie de discurso político. Não é para confiar, nem levar a sério. Voto dele na sua urna, um beijo e tchau.

3 - Homens te dão bem estar. Estão ao teu lado. Te fazem sentir mais bonita. Meninos te dão certa sensação de vazio. Uma aflição difusa. Você sente que algo não é bem assim como aparenta. Só não consegue diagnosticar exatamente o que é.

4 - Homens dizem que vêm e vêm mesmo! Dizem que farão e fazem. Dá até um certo alívio. Meninos marcam e não vêm. Vão ligar e não ligam. Te deixam esperando sem desculpa, nem satisfação. No máximo, quando você cobra, arrumam uma desculpa meia bomba e oca. Isso se você cobrar, senão nem isso.

5 - Homens sabem que, de qualquer forma, todos sempre são responsáveis pelo que acontece. Assumem e resolvem. Não adianta jogar para o outro só para ficar bem na fita. Meninos dirão que a culpa é sua. De que? De qualquer coisa. Não importa. É sua e pronto. Os acertos são deles, os erros são seus.

6 - Homens talvez peçam a sua foto pelada. Se bem que a maioria prefere você ao vivo e a cores. Entenderão sua entrega como confiança e guardarão sua foto em segredo. Meninos vão pedir sua foto pelada. Vão jurar que é só para eles. Prometer que vão apagar. Ficarão encantados quando conseguirem. Acharão um desperdício não mostrar para o mundo essa conquista. Afinal, é um troféu e tanto. Todos precisam saber como eles são uns fodões! É assim que você vai parar na web de bunda de fora. Entendeu?

7 - Homens ficarão ao seu lado nos seus momentos mais insuportáveis. Na sua pior TPM quando nem você mesma se aguenta e sua vontade é rosnar e roer pé de móvel. Homens sabem ser boa parceria. O que nessas horas faz toda a diferença. Meninos fugirão assustados quando você não estiver bem. Eles ficam sem ação, não sabem o que fazer. E também porque é chato ficar do lado de quem não vai lhes divertir. Meninos querem se divertir. Você mal é brinquedo quebrado, computador sem internet, joystick com defeito. Dirão que precisam ir, mas voltam depois... Ou não. Não crie expectativas, nem espere por muito tempo.

8- Homens sabem que relacionamento já dá um bocado de trabalho. O que é verdade. Investem em uma só para cuidar melhor. Meninos acham que mulher é igual carrinho de Hot Wheels : para colecionar!

9 – Fim de relacionamento. Homens terão receio de te comunicar o fato. Afinal é difícil, situação delicada. Envolve tristeza, luto. Mas o farão mesmo assim. Meninos não têm coragem de terminar a relação olhando na sua cara. Olho no olho não é para qualquer um. Em compensação são muito criativos nas várias formas de te comunicar que #partiu, #a fila andou, #já estou em outra. Pelo Twitter, por mensagem de celular ou mudando o status de relacionamento no Facebook. Você descobre no susto. Uns sem noção? Crianças são assim mesmo, sempre aprontando.

Tem os tipo ioiô. Criam um ciclo onde aparecem e somem ao qual você fica presa por um fio tênue de esperança. Nem somem de vez, nem ficam do seu lado. Te mantêm em stand by. Nunca se sabe quando você pode ser necessária. Você e os carrinhos de Hot Wheels? Peças da coleção, arrumados na prateleira. Esperando que ele lembre de você e volte para brincar.

Tem os menos criativos que simplesmente somem sem nenhuma satisfação nem resposta às suas ligações e mensagens. No geral, o recado é um só: você está sozinha de novo. Nem perdeu grande coisa. De verdade, antes só do que mal acompanhada, né não?

10 - Em comum, meninos e homens fazem qualquer negócio para não discutir a relação. Tudo menos DR. Respeite. Afinal, o negócio é chato mesmo. Muito falatório é característica nossa, coisa feminina. Homens agradecem se não precisarem conversar muito sobre afetos. Principalmente os afetos que estão com defeito. Não insista. Há formas mais inteligentes de contornar. Pense a respeito.

É comum também que as fases de homem e menino se alternem. Afinal somos todos cíclicos, instáveis e ambivalentes em menor ou maior grau. Temos nossas recaídas e regredimos em busca de conforto e amparo quando a coisa aperta. Corremos de volta ao passado, tempo bom em que alguém cuidava da gente e a vida era mais fácil. Costuma passar. Por via das dúvidas, no caso da foto com a bunda de fora... Melhor não mandar. Nunca se sabe em que fase eles podem estar.   
  

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mulheres: Conquistas e Desafios



Mulher brasileira é vítima de seu próprio machismo, diz historiadora...

Mary Del Priore é historiadora, professora universitária e autora de obras como História das Mulheres no Brasil , vencedor dos prêmios Jabuti, Casa Grande e Senzala,  Histórias e Conversas de Mulher, em que acompanha avanços femininos desde o século 18.
Para a historiadora, as mulheres brasileiras do último século conquistaram o direito de votar, tomar anticoncepcionais, usar biquíni e a independência profissional. Mas ainda hoje são vítimas de seu próprio machismo.
Muitas mulheres "não conseguem se ver fora da órbita do homem" e são dependentes da aprovação e do desejo masculino, opina ela.

BBC-BRASIL - Você vê traços de machismo ou preconceito em seus ambientes profissional e pessoal?
Mary Del Priore - No ambiente profissional, não vivi nenhum problema, porque desde os anos 1980 o setor acadêmico sofreu grande "feminilização". As mulheres formam um bloco consistente nas disciplinas (universitárias) mais diversas.
Mas, na sociedade, acho que o machismo no Brasil se deve muito às mulheres. São elas as transmissoras dos piores preconceitos. Na vida pública, elas têm um comportamento liberal, competitivo e aparentemente tolerante. Mas em casa, na vida privada, muitas não gostam que o marido lave a louça; se o filho leva um fora da namorada, a culpa é da menina; e ela própria gosta de ser chamada de tudo o que é comestível, como gostosa e docinho, compra revistas femininas que prometem emagrecimento rápido e formas de conquistar todos os homens do quarteirão.
O que mais vemos, sobretudo nas classes menos educadas, é o machismo das nossas mulheres.

- Mas muitas até querem que os maridos ajudem em casa, mas será que essas coisas do dia a dia acabam virando motivos de brigas justamente por conta do machismo arraigado? E também há mulheres estudadas, ambiciosas e fortes - mas também vaidosas, que ao mesmo tempo querem se sentir desejadas por um parceiro(a) que as respeite. Isso é uma conquista delas, não?
Ambas as questões não podem ter respostas generalizantes. Mais e mais, há maridos interessados na gerência da vida privada e na educação dos filhos. Quantos homens não vemos empurrando carrinhos de bebê, fazendo cursos de preparação de parto junto com a futura mamãe ou no supermercado? Tudo depende do nível educacional de ambos os parceiros. Quanto mais informação e mais educação, mais transparente e igualitária é a relação.
Quanto às mulheres emancipadas, penso que preferem estar sós do que mal acompanhadas. Chega de querer "ter um homem só para chamar de seu". Elas estão mais seletivas e não desejam um parceiro que queira substituir a mãe por uma esposa.

- Como a mulher mudou – e o que permanece igual – no último século?
Temos uma grande ruptura nos anos 60 e 70 no Brasil, que reproduz as rupturas internacionais, com a chegada da pílula anticoncepcional. As mulheres começaram a ocupar postos nos diversos níveis da sociedade, a ganhar liberdade sexual e financeira. Ela passa atuar como propulsora de grandes mudanças. Quebra-se o paradigma entre a mulher da casa e a mulher da rua.
(Mas) a mulher continua se vendo através do olhar do homem. Ela quer ser essa isca apetitosa e acaba reproduzindo alguns comportamentos das suas avós. Basta olhar algumas revistas femininas hoje. Salvo algumas transformações, a impressão é de que a gente está lendo as revistas da época das nossas avós.
A mulher não consegue se ver fora da órbita do homem, diferentemente de algumas mulheres europeias, que são muito emancipadas. O que ela quer é continuar sendo uma presa desejada.
A (antropóloga) Mirian Goldenberg diz que a mulher brasileira continua correndo atrás do casamento como uma forma de realização pessoal. No topo da agenda dela não está se realizar profissionalmente, fazer o que gosta, viajar, conhecer o mundo – está encontrar um par e botar uma aliança no dedo. Mesmo que o casamento dure uma semana.

Quais as amarras das mulheres atuais?
 O machismo é uma das questões. Outra, que talvez explique a inatividade da mulher frente a esse padrão, é que, com a entrada num mercado de trabalho tão competitivo, com tantas crises econômicas e uma classe média achatada, a luta pela sobrevivência se impõe sobre qualquer outro projeto.
Essa falta de tempo para respirar, o fato de ter que bancar filhos ou netos, isso talvez não dê à mulher tempo para se conscientizar e se erguer acima do individualismo – outra tônica do nosso tempo – e pensar no coletivo.

- Ao mesmo tempo em que a mulher avança no mercado de trabalho, algumas também têm perdido a vergonha de parar de trabalhar para cuidar dos filhos; ou resgatado, como hobbies ou profissão, antigas "tarefas de mulher", como tricô, cozinha, artes manuais. Desse ponto de vista, existe um poder maior de escolha das mulheres?
- Sempre apostei que as mulheres não deveriam buscar ser "um homem de saias", mas apostar em sua diferença e singularidade. As marcas do gênero, segundo sociólogos, são a criatividade, a diplomacia, capacidade de dialogar, etc. O fato de que elas busquem se realizar resgatando o trabalho doméstico, manual ou artesanal é uma prova de que a singularidade feminina tem muito a oferecer.
A mulher pode, sim, realizar-se através do trabalho doméstico e não necessariamente no público. Desse ponto de vista elas só estariam dando continuidade a uma longa tradição, discreta e oculta, que é a independência adquirida por meio de atividades desenvolvidas no lar. Nossas avós, quando trabalhadoras domésticas, já conheceram essa situação. A tecnologia só nos ajuda a torná-lo mais eficiente.

- Que papel a educação teve na mulher que você é hoje?
Tive uma trajetória peculiar. Resolvi fazer universidade (aos 28 anos) quando já era mãe de três filhos. A maturidade me ajudou muito a progredir. Tive a sorte de ter na PUC-RJ e na USP um ambiente muito receptivo, porque era um momento em que a universidade estava largando aquela camisa de força marxista e se abrindo para estudos de cultura e sociedade, que me interessavam.

BBC Brasil - Quais os principais desafios que você enfrenta como mulher?
Del Priore - Hoje o grande desafio, em qualquer idade, é o equilíbrio interior, estar bem consigo mesma. Quando começamos a envelhecer – o que é o meu caso, aos 61 anos –, é preciso olhar isso com coragem, ver isso como um investimento positivo. E ter tempo para a família, para as pessoas em volta da gente.
Quando era mais jovem, eu me preocupava muito com grandes projetos. Hoje me preocupo com o pequeno – acho que é por aí que você muda a realidade. É no dia a dia, na maneira como você trata as pessoas à sua volta, no respeito que você tem pelo seu bairro. Não temos condições de abraçar o mundo. Através do micro, a gente consegue aos poucos transformar o macro.

Essa entrevista faz parte da série "100 Mulheres - Vozes de Meio Mundo". A série, publicada globalmente pela BBC, trata dos desafios da mulher contemporânea.



domingo, 6 de outubro de 2013

Dilemas éticos e educação




Gustavo Ioschpe: devo educar meus filhos para serem éticos?

Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, saía de casa para a escola numa manhã fria do inverno gaúcho. Chegando à portaria, meu pai interfonou, perguntando se eu estava levando um agasalho. Disse que sim. Ele me perguntou qual. “O moletom amarelo, da Zugos”, respondi. Era mentira. Não estava levando agasalho nenhum, mas estava com pressa, não queria me atrasar.
Voltei do colégio e fui ao armário procurar o tal moletom. Não estava lá, nem em nenhum lugar da casa. Gelei. À noite, meu pai chegou em casa de cara amarrada. Ao me ver, tirou da pasta de trabalho o moletom. E me disse: “Eu não me importo que tu não te agasalhes. Mas, nesta casa, nesta família, ninguém mente. Ponto. Tá claro?”. Sim, claríssimo. Esse foi apenas um episódio mais memorável de algo que foi o leitmotiv da minha formação familiar. Meu pai era um obcecado por retidão, palavra, ética, pontualidade, honestidade, código de conduta, escala de valores, menschkeit (firmeza de caráter, decência fundamental, em iídiche) e outros termos que eram repetitiva e exaustivamente martelados na minha cabeça. Deu certo. Quer dizer, não sei. No Brasil atual, eu me sinto deslocado.
Até hoje chego pontualmente aos meus compromissos, e na maioria das vezes fico esperando por interlocutores que se atrasam e nem se desculpam (quinze minutos parece constituir uma “margem de erro” tolerável). Até hoje acredito quando um prestador de serviço promete entregar o trabalho em uma data, apenas para ficar exasperado pelo seu atraso, “veja bem”, “imprevistos acontecem” etc. Fico revoltado sempre que pego um táxi em cidade que não conheço e o motorista tenta me roubar. Detesto os colegas de trabalho que fazem corpo mole, que arranjam um jeitinho de fazer menos que o devido. Tenho cada vez menos visitado escolas públicas, porque não suporto mais ver professores e diretores tratando alunos como estorvos que devem ser controlados. Isso sem falar nas quase úlceras que me surgem ao ler o noticiário e saber que entre os governantes viceja um grupo de imorais que roubam com criatividade e desfaçatez.
Sócrates, via Platão (A República, Livro IX), defende que o homem que pratica o mal é o mais infeliz e escravizado de todos, pois está em conflito interno, em desarmonia consigo mesmo, perenemente acossado e paralisado por medos, remorsos e apetites incontroláveis, tendo uma existência desprezível, para sempre amarrado a alguém (sua própria consciência!) onisciente que o condena. Com o devido respeito ao filósofo de Atenas, nesse caso acredito que ele foi excessivamente otimista. Hannah Arendt me parece ter chegado mais perto da compreensão da perversidade humana ao notar, nos ensaios reunidos no livro Responsabilidade e Julgamento, que esse desconforto interior do “pecador” pressupõe um diálogo interno, de cada pessoa com a sua consciência, que na verdade não ocorre com a frequência desejada por Sócrates. Escreve ela: “Tenho certeza de que os maiores males que conhecemos não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo de novo, e cuja maldição é não poder esquecer. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”. E, para aqueles que cometem o mal em uma escala menor e o confrontam, Arendt relembra Kant, que sabia que “o desprezo por si próprio, ou melhor, o medo de ter de desprezar a si próprio, muitas vezes não funcionava, e a sua explicação era que o homem pode mentir para si mesmo”. Todo corrupto ou sonegador tem uma explicação, uma lógica para os seus atos, algo que justifique o porquê de uma determinada lei dever se aplicar a todos, sempre, mas não a ele(a), ou pelo menos não naquele momento em que está cometendo o seu delito.
Cai por terra, assim, um dos poucos consolos das pessoas honestas: “Ah, mas pelo menos eu durmo tranquilo”. Os escroques também! Se eles tivessem dramas de consciência, se travassem um diálogo verdadeiro consigo e seu travesseiro, ou não teriam optado por sua “carreira” ou já teriam se suicidado. Esse diálogo consigo mesmo é fruto do que Freud chamou de superego: seguimos um comportamento moral porque ele nos foi inculcado por nossos pais, e renegá-lo seria correr o risco da perda do amor paterno.
Na minha visão, só existem, assim, dois cenários em que é objetivamente melhor ser ético do que não. O primeiro é se você é uma pessoa religiosa e acredita que os pecados deste mundo serão punidos no próximo. Não é o meu caso. O segundo é se você vive em uma sociedade ética em que os desvios de comportamento são punidos pela coletividade, quer na forma de sanções penais, quer na forma do ostracismo social. O que não é o caso do Brasil. Não se sabe se De Gaulle disse ou não a frase, mas ela é verdadeira: o Brasil não é um país sério.
Assim é que, criando filhos brasileiros morando no Brasil, estou às voltas com um deprimente dilema. Acredito que o papel de um pai é preparar o seu filho para a vida. Essa é a nossa responsabilidade: dar a nossos filhos os instrumentos para que naveguem, com segurança e destreza, pelas dificuldades do mundo real. E acredito que a ética e a honestidade são valores axiomáticos, inquestionáveis. Eis aí o dilema: será que o melhor que poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria não aprisioná-los na cela da consciência, do diálogo consigo mesmos, da preocupação com a integridade? Tenho certeza de que nunca chegaria a ponto de incentivá-los a serem escroques, mas poderia, como pai, simplesmente ser mais omisso quanto a essas questões. Tolerar algumas mentiras, não me importar com atrasos, não insistir para que não colem na escola, não instruir para que devolvam o troco recebido a mais...
Tenho pensado bastante sobre isso ultimamente. Simplesmente o fato de pensar a respeito, e de viver em um país em que existe um dilema entre o ensino da ética e o bom exercício da paternidade, já é causa para tristeza. Em última análise, decidi dar a meus filhos a mesma educação que recebi de meu pai. Não porque ache que eles serão mais felizes assim - pelo contrário -, nem porque acredite que, no fim, o bem compensa. Mas sim porque, em primeiro lugar, não conseguiria conviver comigo mesmo, e com a memória de meu pai, se criasse meus filhos para serem pessoas do tipo que ele me ensinou a desprezar. E, segundo, tentando um esboço de resposta mais lógica, porque sociedades e culturas mudam. Muitos dos países hoje desenvolvidos e honestos eram antros de corrupção e sordidez 100 anos atrás. Um dia o Brasil há de seguir o mesmo caminho, e aí a retidão que espero inculcar em meus filhos (e meus filhos em seus filhos) há de ser uma vantagem, e não um fardo. Oxalá. 

Fonte: Site Revista Veja



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A arte de dizer não




Saber Negar


Não se pode concordar com tudo nem com todos. É tão importante saber negar como saber conceder, e para os que têm poder é uma prudência necessária. Mais se aprecia o “não” de alguns do que o “sim” de outros, porque um “não” dourado satisfaz mais do que um seco “sim”. Há muitas pessoas que sempre têm um “não” na boca, com o qual estragam tudo. Para elas, o “não” vem sempre em primeiro lugar. Depois, acabam cedendo, mas não são estimadas por causa do aborrecimento inicial. Não se deve negar as coisas repentinamente, é melhor uma decepção gota a gota. Também não se deve negar por completo, pois se suprimiria a dependência. É melhor que sempre fique um resto de esperança para adoçar o gosto amargo da recusa. A cortesia deve ocupar o vazio do favor, e as boas palavras devem suprir a falta de ação. O “não” e o “sim” são palavras curtas, mas exigem muita reflexão. 

Baltasar Gracián
A Arte da Prudência


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Depressão na Terceira Idade



O envelhecimento da população é um fenômeno mundial e contemporâneo. É cada vez maior a porcentagem de idosos no planeta e, com isso, cresce a preocupação com a saúde desta população.
Quando o idoso torna-se dependente, por razões financeiras, de saúde ou perda do conjugue; geralmente passa a morar com algum membro de sua família. Este convívio pode ser bastante turbulento para ambas as partes se não forem tomadas uma série de precauções. As pessoas que cuidam ou convivem com um idoso precisam ter atenção a atitudes que podem comprometer o relacionamento, além de abrir portas para doenças como a depressão.
O estado depressivo na terceira idade se caracteriza principalmente por um humor deprimido, melancólico e geralmente vem acompanhada de ansiedade e tensão muscular. A incidência da doença aumenta significativamente após a morte de um cônjuge. Este é um dos dez acontecimentos mais estressantes na vida que podem levar a depressão.

As particularidades da depressão do idoso são queixas somáticas como, dores crônicas, cansaço e distúrbios de apetite. Dentre os sintomas psicológicos, o mais frequente são: A perda da capacidade de sentir prazer e déficits cognitivos, particularmente de memória. Inquietação, insegurança e hostilidade. Irritabilidade e Agressividade. Insônia e/ou excesso de sono.

Pelo sofrimento causado ao idoso e seus familiares, é importante procurar ajuda profissional para um tratamento adequado. No convívio diário, gestos simples - como o de inserir o idoso na rotina da casa, perguntando o que ele quer comer, pedindo a sua opinião sobre determinado programa de televisão, ou até mesmo qual passeio gostaria de fazer no fim de semana -; ajudam na integração do convívio familiar.

A diferença da depressão no idoso com relação aos indivíduos de outras faixas etárias é que este já sofreu, naturalmente, uma redução em seu convívio social. Se aliado a isto não se sentir importante e não puder participar do dia-a-dia dos familiares próximos, ficará desestimulado e acabará se isolando por iniciativa própria. A partir daí, irá se alimentar menos, movimentar-se menos e ficar mais sonolento. Está aberta uma porta para doenças como desnutrição, processos infecciosos, desidratação ou deterioração orgânica e muscular, que acabam acelerando o envelhecimento.




segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Freud: A função libidinal do Trabalho



Quando numa pessoa não existe uma disposição especial que indique com precisão a direção que seus interesses na vida tomarão, o trabalho profissional comum, aberto a todos, pode desempenhar um importante papel. Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o indivíduo tão firmemente à realidade quanto à ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana.  A possibilidade que essa técnica oferece de deslocar uma grande quantidade de componentes libidinais, sejam eles narcísicos, agressivos ou mesmo eróticos, para o trabalho profissional, e para os relacionamentos humanos a ele vinculado, empresta-lhe um valor que de maneira alguma está em segundo plano quanto ao do que goza como algo indispensável à preservação e justificação da existência em sociedade. A atividade profissional constitui fonte de satisfação especial, se for livremente escolhida, isto é, se, por meio de sublimação, tornar possível o uso de inclinações existentes, de impulsos pulsionais persistentes ou constitucionalmente reforçados. No entanto, como caminho para a felicidade, o trabalho não é altamente prezado pelos homens. Não se esforçam em relação a ele como o fazem em relação a outras possibilidades de satisfação. A grande maioria das pessoas só trabalha sob a pressão da necessidade, e essa natural aversão humana ao trabalho suscita problemas sociais extremamente difíceis.


Sigmund Freud – O Mal-Estar na Civilização

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Memória Afetiva: Re-Memórias



A memória é sempre inventiva e infiel. O passado que volta à consciência é apenas o reflexo remoto de uma realidade perdida para sempre, uma realidade que captamos inevitavelmente deformada através do filtro de nossa percepção atual. Esse é o motivo pelo qual a recordação de nosso passado é apenas o fruto de uma ilusória reconstrução. Quando pensamos, por exemplo, na casa de nossa infância, sempre a imaginamos imensa, mas, voltando lá, decepcionamo-nos com suas modestas dimensões. A casa que o garotinho deixou não é mais a mesma aos olhos do homem maduro que ele se tornou. Assim, o presente opera como uma lente deformadora do passado. Portanto, toda recordação é, necessariamente, o resultado da reinterpretação subjetiva de uma realidade antiga, e nunca sua evocação fiel. Não existe passado senão remodelado e recriado à luz de nossa percepção presente. É por isso que diremos que a recordação não é o passado, mas um ato do presente, uma criação do presente.

J.D. Nasio 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Flores Raras ... e Banalíssimas





Estreia "Flores Raras", de Bruno Barreto. O filme - baseado no livro "Flores Raras e Banalíssimas", de Carmen L. Oliveira -nova edição pela Rocco - conta a história dos 17 anos (mais ou menos) que Elizabeth Bishop passou no Brasil.



Na sua chegada ao porto de Santos, em 1951, Bishop já era uma poeta reconhecida, "poet laureate" dos EUA. Nota: "poet laureate" é um cargo de poeta oficial nacional, que raramente me desapontou. Carol Ann Duffy, uma de minhas poetas preferidas, ainda é "poet laureate" do Reino Unido; Billy Collins e Louise Glück foram "poet laureate" dos Estados Unidos, sem contar Robert Frost e Joseph Brodsky. Aliás, eu descobri Collins e Duffy quando se tornaram "poet laureate" de seus países.



Enfim, Bishop estava circum-navegando a América do Sul; viajando, ela queria aliviar sua melancolia. Como Robert Lowell lhe diz lindamente no filme: ela procurava a "cura geográfica". Em Santos, a poeta desceu do barco com a ideia de passar uma semana ou duas visitando uma amiga, Mary Morse, que era então a companheira de Lota de Macedo Soares.



À primeira vista, o encontro de Elizabeth Bishop e Lota não foi muito promissor. Aos olhos de Lota, maravilhosamente interpretada ou inventada por uma inesquecível Glória Pires, Bishop devia parecer como uma chata, por grande poeta que fosse. E é provável que Bishop se assustasse pela presença expansiva de Lota. Agora, uma sugestão: é sempre bom desconfiar dos outros ou outras que seu parceiro ou parceira acha imediata e excessivamente desinteressantes.



De qualquer forma, o encontro de Elizabeth e Lota foi o começo de uma relação que é, para mim, um protótipo de história de amor que vale a pena. Alguns dirão que não acabou bem. Mas esse não é um argumento. O que importa mais é que, nos anos em que elas se amaram, cada uma delas deu o melhor de si: Bishop escreveu os poemas de "North and South" (que lhe valeram o prêmio Pulitzer), e Lota concebeu e realizou o aterro de Flamengo, no Rio de Janeiro.



É frequente que, num casamento, o cônjuge, por adorável que seja, apareça como alguém que limita nosso desejo -às vezes, ele, de fato, compete com nossa vida e domestica nossos sonhos. Esse não foi o caso de Elizabeth e Lota: cada uma potencializou o gênio da outra -essa é uma flor rara.
Detalhe crucial, "Flores Raras" não é um filme sobre um amor homossexual, simplesmente porque o fato de que se trata de duas mulheres é indiferente -o espectador não tem nem tempo nem disposição para aprovar ou para recriminar o amor de Elizabeth e Lota.



Talvez, na sociedade privilegiada e culta do Rio de Janeiro dos anos 1950-1960, pouco importasse que Lota e Elizabeth fossem duas mulheres. Não sei. O fato é que Bruno Barreto conseguiu contar a história de Lota e Elizabeth de tal forma que o gênero e a opção sexual das amantes é muito menos importante do que o amor entre elas.



Ontem, em São Paulo, no "Fronteiras do Pensamento", palestrou Anthony Appiah (professor em Princeton, autor de "O Código de Honra", Cia das Letras). Numa entrevista a Cassiano Elek Machado, na Folha de 10/8, Appiah menciona a revolução moral recente pela qual "há 20 anos, a maioria das pessoas (nos EUA) diria que a ideia do casamento gay é totalmente ridícula. Hoje, se você falar com jovens americanos, 70% deles vão defender sua aprovação".



Pois bem, "Flores Raras" não precisa caber num catálogo de "filmes homossexuais" porque cabe no dos grandes filmes de amor e porque já pertence a uma época em que a orientação sexual talvez seja, enfim, inessencial.



Não me lembro de um momento de minha vida (sequer a infância) em que a orientação sexual fosse, para mim, um fato relevante. Um pilar de minha educação moral foi minha avó, que era católica devota e moralmente preconceituosa, mas dotada de senso prático -se eu fosse homossexual, ela provavelmente se tornaria antipapal (talvez anglicana) na hora.



O outro pilar foi meu pai, para quem a própria ideia de "anormalidade" era uma bizarrice. Embora fosse especialista, tinha uma prática de médico de família: de manhã, ele visitava seus pacientes a domicílio. Quando eu estava de férias, ele pedia que eu o acompanhasse. Dizia que era para lhe fazer companhia. Suspeito que ele quisesse me ensinar a reconhecer meus semelhantes na diversidade do mundo, das casas, dos quartos e das vidas. Enfim, divago. Não perca "Flores Raras".

Contardo Calligaris
Jornal Folha de São Paulo



sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Fragmentos



A tarefa da psicanálise é se ocupar do inconsciente 

quando o inconsciente nos faz sofrer, isto é, quando a

defasagem entre o que somos e o que nos escapa nos

tornam infelizes. 



J.D. Nasio - Um Psicanalista no Divã



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Dicas para uma boa apresentação



Apresentar trabalho, seja como aluno ou como profissional, tornou-se uma prática corriqueira. Afinal, vivemos em uma sociedade marcada pelo avanço da tecnologia visual. Uma tecnologia que nos permite tirar fotos ou fazer filmes em qualquer momento do dia.


No entanto, uma coisa é preparar a apresentação das fotos do final de semana ou das férias para mostrar para os amigos ou familiares. Outra, muito diferente, é apresentar para um grupo, com ajuda de imagens, nosso ponto de vista sobre uma teoria ou um produto.


Praticamente todas as apresentações têm como objetivo levar pessoas a aderir a algo: pode ser uma ideia, um produto, um conceito ou mesmo uma mudança de comportamento. Para alcançar esse objetivo a apresentação – texto e imagens - deve ser conduzida por uma história coerente, bem estruturada e atraente, capaz de despertar e manter a atenção da audiência.


A sua maneira de pensar e de construir uma apresentação profissional tem mais a ver com a sua idade e com a sua geração do que você imagina.


Executivos da geração X e anteriores tendem a optar por um tipo de construção distinto dos profissionais da geração Y. É claro que não é algo tão engessado assim, mas as diferenças são geralmente visíveis.



E embora os profissionais mais jovens estejam mais identificados com o novo modelo, mais atrativo e com mais recursos visuais, as duas gerações têm pontos fortes e fracos na hora de elaborar suas apresentações. Confira:





Pontos Fortes da geração X e anteriores


1. Conhecimento aprofundado
“A geração X tem a questão de ir atrás do conhecimento, porque antigamente se alguém queria entender alguma coisa tinha que conversar com uma pessoa que soubesse ou se aprofundar nos estudos”.
São pessoas que apresentam conhecimento embasado e mais aprofundado sobre temas, o que reflete positivamente na hora de elaborar uma apresentação.

2. Calma e segurança
O pensamento é mais racional e a pressa é menor. Por isso, a dedicação com que os profissionais da geração X trabalham uma apresentação traz segurança tanto na hora de elaborar o material quanto no momento da apresentação. 



Pontos fracos da geração X e anteriores

1.  Muito texto, pouca imagem
Essa geração não tem muita facilidade visual, usam e abusam dos bullet points.  Ausência de recursos visuais pode deixar a apresentação pesada e nada atrativa para quem a vê.

     2. Pouca abertura para novas ideias
    Há um risco de achar que sabe tudo sobre o tema. O excesso de segurança pode atrapalhar na hora de o profissional se abrir para novas ideias. E na hora de transmitir este conhecimento, há o perigo de nem sempre levar em consideração a bagagem dos ouvintes.
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     Pontos fortes da geração Y e futuras
1. Bagagem mais visual e criativa
É uma geração que sabe lidar com a imagem e com a fotografia. Por isso, apostar em recursos visuais definitivamente é um ponto forte das suas apresentações.
2.   Agilidade na hora de buscar conteúdo

O acesso à informação é pleno. Os jovens da geração Y sabem onde encontrar o que precisam e não têm dificuldade em lidar com as novas tecnologias. Já nasceram com essas ferramentas, por isso a facilidade. A facilidade de encontrar conteúdo permite que os jovens tenham maior poder de análise crítica. São pessoas que não acreditam em tudo que elas veem.

Pontos fracos da geração Y e futuras

1.   Superficialidade
É simples e rápido buscar e encontrar textos, imagens, filmes, conteúdos para a apresentação. O desafio é fazer a curadoria para extrair o que é relevante. O imediatismo dos jovens atrapalha na hora de se aprofundar sobre os temas.

2. Excesso de informações desconectadas
Outro pecado cometido pela geração Y na hora de organizar uma apresentação é o excesso de informações. É tão fácil conseguir conteúdo que os profissionais podem cair nesta armadilha de ir colocando conteúdo sem que ele esteja amarrado. O problema é transformar a apresentação em um grande “Frankenstein” de conteúdo.


FONTE: Site Revista Exame


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Os Assexuados: Uma Vida Sem Sexo



Nem gays, nem héteros, nem bissexuais. Eles simplesmente não gostam de transar. Homens e Mulheres que não sentem desejo, defendem a abstinência e lutam para ser reconhecidos como uma nova orientação sexual.



Michael Doré tem 28 anos e nunca beijou. Nem pretende. Beijos, carinhos e qualquer forma de contato íntimo lhe causam repulsa. “O sexo me enoja”, diz ela. “Sou um assexual convicto.” É quase impossível imaginar que um cara como ele, charmoso, bem-sucedido — é um matemático norueguês e PhD da Universidade de Birmingham, na Inglaterra —, sequer pense em transar. Ainda mais nos dias de hoje, em que sexo e orgasmo são quase uma obrigação. E, antes que alguém pergunte o que há de errado com Michael, ele mesmo responde: “Não, não sou gay, não fui abusado na infância, nem tenho problemas hormonais. Eu simplesmente não gosto de transar”.

Assim como ele, a pedagoga mineira Rosângela Pereira dos Santos, o bancário americano Keith Walker e uma legião de assexuados dos mais diferentes cantos do planeta começam a sair do armário. São homens e mulheres de todas as idades, perfeitamente capazes de fazer sexo, mas sem nenhum gosto pela coisa. Gente que, graças ao apoio da Aven (Asexual Visibility and Education Network), rede que luta pela visibilidade dos assexuados no mundo, conseguiu se unir para levantar a bandeira da abstinência e lutar para que a assexualidade seja reconhecida como uma quarta orientação sexual (além de héteros, homos e bissexuais).
 
Sob o slogan “It’s o.k. to be A” (algo como “tudo bem ser assexuado”), esse grupo tem frequentado as passeatas gays de Nova York, São Francisco, Londres e Manchester. No grupo, lutando contra o preconceito em relação aos que não gostam de transar, há desde aqueles que nunca tiveram uma relação sexual na vida, até os que fazem sexo por obrigação, para não perder o parceiro.

 “Por assexual entende-se apenas aquele que não sente atração sexual, não o que não é capaz de se envolver”, explica a socióloga Elisabete Oliveira, que fez do assunto tema de seu doutorado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. “Existem os assexuais românticos e os não românticos. O primeiro grupo consegue se apaixonar, casar e até ter filhos — desde que não haja sexo envolvido. O segundo não gosta de carinhos e não se sente apto a se apaixonar.”



Na França, no dia 24 de abril de 20913, aconteceu (na internet) a primeira jornada dos assexuados. Um movimento que há anos, segundo o jornal Libération, junta, cada vez mais, sujeitos que se declaram pertencentes a uma sexualidade “sem sexo”.

O fenômeno merece atenção, haja vista que se torna uma palavra de ordem para 1% dos sujeitos do planeta que atestam esta nova identidade. Em nome do “respeito” devido a cada ser humano, esta nova denominação quer se fazer reconhecer, em sua diferença, como um “quinto gênero” (LGBT mais assexuados) que têm o “direito” de existir.

A blogueira e jornalista Peggy Sastre, autora do No Sex, avoir envie de ne pas faire l’amour, (No sex, vontade de não fazer amor). Defende que na assexualidade não se trata nem da abstinência do lado religioso, nem da recusa, do corpo enquanto tal, mas uma reivindicação de que se possa, de que se tenha o direito de não ter vontade… de fazer amor, como o título de seu livro indica. São sujeitos que «preferem não».

FONTES: Site: Instituto Adé Diversidade
Site: Escola Brasileira de Psicanalise