segunda-feira, 20 de maio de 2013

Neuroquímica & Subjetividade




Acordei doente mental


A poderosa American Psychiatric Association (Associação Americana de Psiquiatria – APA) lançou neste final de semana a nova edição do que é conhecido como a “Bíblia da Psiquiatria”: oDSM-5. E, de imediato, virei doente mental. Não estou sozinha. Está cada vez mais difícil não se encaixar em uma ou várias doenças do manual. Se uma pesquisa já mostrou que quase metade dos adultos americanos tiveram pelo menos um transtorno psiquiátrico durante a vida, alguns críticos renomados desta quinta edição do manual têm afirmado que agora o número de pessoas com doenças mentais vai se multiplicar. E assim poderemos chegar a um impasse muito, mas muito fascinante, mas também muito perigoso: a psiquiatria conseguiria a façanha de transformar a “normalidade” em “anormalidade”. O “normal” seria ser “anormal”.

A nova edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) exibe mais de 300 patologias, distribuídas por 947 páginas. Custa US$ 133,08 (com desconto) no anúncio de pré-venda no site da Amazon. Descobri que sou doente mental ao conhecer apenas algumas das novas modalidades, que tem sido apresentadas pela imprensa internacional. Tenho quase todas. “Distúrbio de Hoarding”. Tenho. Caracteriza-se pela dificuldade persistente de se desfazer de objetos ou de “lixo”, independentemente de seu valor real. Sou assolada por uma enorme dificuldade de botar coisas fora, de bloquinhos de entrevistas dos anos 90 a sapatos imprestáveis para o uso, o que resulta em acúmulos de caixas pelo apartamento. Remédio pra mim. “Transtorno Disfórico Pré-Menstrual”, que consiste numa TPM mais severa. Culpada. Qualquer um que convive comigo está agora autorizado a me chamar de louca nas duas semanas anteriores à menstruação. Remédio pra mim. “Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica”. A pessoa devora quantidades “excessivas” de comida num período delimitado de até duas horas, pelo menos uma vez por semana, durante três meses ou mais. Certeza que tenho. Bastaria me ver comendo feijão, quando chego a cinco ou seis pratos fundo fácil. Mas, para não ter dúvida, devoro de uma a duas latas de leite condensado por semana, em menos de duas horas, há décadas, enquanto leio um livro igualmente delicioso, num ritual que eu chamava de “momento de felicidade absoluta”, mas que, de fato, agora eu sei, é uma doença mental. Em vez de leite condensado, remédio pra mim. Identifiquei outras anomalias, mas fiquemos neste parágrafo gigante, para que os transtornos psiquiátricos que me afetam não ocupem o texto inteiro. 

Há uma novidade mais interessante do que as doenças recém inventadas pela nova “Bíblia”. Seu lançamento vem marcado por uma controvérsia sem precedentes. Se sempre houve uma crítica contundente às edições anteriores, especialmente por parte de psicólogos e psicanalistas, a quinta edição tem sido atacada com mais ferocidade justamente por quem costumava não só defender o manual, como participar de sua elaboração. Alguns nomes reluzentes da psiquiatria americana estão, digamos, saltando do navio. Como não há cordeiros nesse campo, movido em parte pelos bilhões de dólares da indústria farmacêutica, é legítimo perguntar: perceberam que há abusos e estão fazendo uma “mea culpa” sincera antes que seja tarde, ou estão vendo que o navio está adernando e querem salvar o seu nome, ou trata-se de uma disputa interna de poder em que os participantes das edições anteriores foram derrotados por outro grupo, ou tudo isso junto e mais alguma coisa?  

Não conheço os labirintos da APA para alcançar a resposta, mas acredito que vale a pena ficarmos atentos aos próximos capítulos. Por um motivo acima de qualquer suspeita: o DSM influencia não só a saúde mental nos Estados Unidos, mas é o manual utilizado pelos médicos em praticamente todos os países, pelo menos os ocidentais, incluindo o Brasil. É também usado como referência no sistema de classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). É, portanto, o que define o que é ser “anormal” em nossa época – e este é um enorme poder. Vale a pena sublinhar com tinta bem forte que, para cada nova patologia, abre-se um novo mercado para a indústria farmacêutica. Esta, sim, nunca foi tão feliz – e saudável. 

O crítico mais barulhento do DSM-5 parece ser o psiquiatra Allen Frances, que, vejam só, foi o coordenador da quarta edição do manual, lançada em 1994. Professor emérito da Universidade de Duke, ele tem um blog noHuffington Post que praticamente usa apenas para detonar a nova Bíblia da Psiquiatria. Quando a versão final do manual foi aprovada, enumerou o que considera as dez pioresmudanças da quinta edição, num texto iniciado com a seguinte frase: “Esse é o momento mais triste nos meus 45 anos de carreira de estudo, prática e ensino da psiquiatria”. Em carta aoThe New York Times, afirmou: “As fronteiras da psiquiatria continuam a se expandir, a esfera do normal está encolhendo”.  

Entre suas críticas mais contundentes está o fato de o DSM-5 ter transformado o que chamou de “birra infantil” em doença mental. A nova patologia é chamada de “Transtorno Disruptivo de Desregulação do Humor” e atingiria crianças e adolescentes que apresentassem episódios frequentes de irritabilidade e descontrole emocional. No que se refere à patologização da infância, o comentário mais incisivo de Allen Frances talvez seja este: “Nós não temos ideia de como esses novos diagnósticos não testados irão influenciar no dia a dia da prática médica, mas meu medo é que isso irá exacerbar e não amenizar o já excessivo e inapropriado uso de medicação em crianças. Durante as duas últimas décadas, a psiquiatria infantil já provocou três modismos — triplicou o Transtorno de Déficit de Atenção, aumentou em mais de 20 vezes o autismo e aumentou em 40 vezes o transtorno bipolar na infância. Esse campo deveria sentir-se constrangido por esse currículo lamentável e deveria engajar-se agora na tarefa crucial de educar os profissionais e o público sobre a dificuldade de diagnosticar as crianças com precisão e sobre os riscos de medicá-las em excesso. O DSM-5 não deveria adicionar um novo transtorno com o potencial de resultar em um novo modismo e no uso ainda mais inapropriado de medicamentos em crianças vulneráveis". 

A epidemia de doenças como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) tem mobilizado gestores de saúde pública, assustados com o excesso de diagnósticos e a suspeita de uso abusivo de drogas como Ritalina, inclusive no Brasil. E motivado algumas retratações por parte de psiquiatras que fizeram seu nome difundindo a doença. Uma reportagem do The New York Times sobre o tema conta que o psiquiatra Ned Hallowell, autor de best-sellers sobre TDAH, hoje arrepende-se de dizer aos pais que medicamentos como Adderall e outros eram “mais seguros que Aspirina”. Hallowell, agora mais comedido, afirma: “Arrependo-me da analogia e não direi isso novamente”. E acrescenta: “Agora é o momento de chamar a atenção para os perigos que podem estar associados a diagnósticos displicentes. Nós temos crianças lá fora usando essas drogas como anabolizantes mentais – isso é perigoso e eu odeio pensar que desempenhei um papel na criação desse problema”. No DSM-5, a idade limite para o aparecimento dos primeiros sintomas de TDAH foi esticada dos 7 anos, determinados na versão anterior, para 12 anos, aumentando o temor de uma “hiperinflação de diagnósticos”.  
Pensar sobre a controvérsia gerada pelo nova “Bíblia da Psiquiatria” é pensar sobre algumas construções constitutivas do período histórico que vivemos. Construções culturais que dizem quem somos nós, os homens e mulheres dessa época. A começar pelo fato de darmos a um grupo de psiquiatras o poder – incomensurável – de definir o que é ser “normal”. E assim interferir direta e indiretamente na vida de todos, assim como nas políticas governamentais de saúde pública, com consequências e implicações que ainda precisam ser muito melhor analisadas e compreendidas. Sem esquecer, em nenhum momento sequer, que a definição das doenças mentais está intrinsicamente ligada a uma das indústrias mais lucrativas do mundo atual.

Parte dos organizadores não gosta que o manual seja chamado de “Bíblia”. 
Mas, de fato, é o que ele tem sido, na medida em que uma parcela significativa dos psiquiatras do mundo ocidental trata os verbetes como dogmas, alterando a vida de milhões de pessoas a partir do que não deixa de ser um tipo de crença. Talvez seja em parte por isso que o diretor do National Institute of Mental Health (Instituto Nacional de Saúde Mental – NIMH), possivelmente a maior organização de pesquisa em saúde mental do mundo, tenha anunciado o distanciamento da instituição das categorias do DSM-5. Thomas Insel escreveu em seu blog que o DSM não é uma Bíblia, mas no máximo um “dicionário”: “A fraqueza (do DSM) é sua falta de fundamentação. Seus diagnósticos são baseados no consenso sobre grupos de sintomas clínicos, não em qualquer avaliação objetiva em laboratório. (...) Os pacientes com doenças mentais merecem algo melhor”. O NIMH iniciou um projeto para a criação de um novo sistema de classificação, incorporando investigação genética, imagens, ciência cognitiva e “outros níveis de informação” – o que também deve gerar controvérsias.

A polêmica em torno do DSM-5 é uma boa notícia. E torço para que seja apenas o início de um debate sério e profundo, que vá muito além da medicina, da psicologia e da ciência. “Há pelo menos 20 anos tem se tratado como doença mental quase todo tipo de comportamento ou sentimento humano”, disse a psicóloga Paula Caplan à BBC Brasil. Ela afirma ter participado por dois anos da elaboração da edição anterior do manual, antes de abandoná-la por razões “éticas e profissionais”, assim como por ter testemunhado “distorções em pesquisas”. Escreveu um livro com o seguinte título: “Eles dizem que você é louco: como os psiquiatras mais poderosos do mundo decidem quem é normal”.

A vida tornou-se uma patologia. E tudo o que é da vida parece ter virado sintoma de uma doença mental. Talvez o exemplo mais emblemático da quinta edição do manual seja a forma de olhar para o luto. Agora, quem perder alguém que ama pode receber um diagnóstico de depressão. Se a tristeza e outros sentimentos persistirem por mais de duas semanas, há chances de que um médico passe a tratá-los como sintomas e faça do luto um transtorno mental. Em vez de elaborar a perda – com espaço para vivê-la e para, no tempo de cada um, dar um lugar para essa falta que permita seguir vivendo –, a pessoa terá sua dor silenciada com drogas. É preciso se espantar – e se espantar muito.

Vale a pena olhar pelo avesso: quem são essas pessoas que acham que o “normal” é superar a perda de uma mãe, de um pai, de um filho, de um companheiro rapidamente? Que tipo de ser humano consegue essa proeza? Quem seríamos nós se precisássemos de apenas duas semanas para elaborar a dor por algo dessa magnitude? Talvez o DSM-5 diga mais dos psiquiatras que o organizaram do que dos pacientes. 

Há ainda mais uma consequência cruel, que pode provocar muito sofrimento. Ao transformar o que é da vida em doença mental, os defensores dessa abordagem estão desamparando as pessoas que realmente precisam da sua ajuda. Aquelas que efetivamente podem ser beneficiadas por tratamento e por medicamentos. Se quase tudo é patologia, torna-se cada vez mais difícil saber o que é, de fato, patologia. Por sorte, há psiquiatras éticos e competentes que agem com consciência em seus consultórios. Mas sempre foi difícil em qualquer área distinguir-se da manada – e mais ainda nesta área, que envolve o assédio sedutor, lucrativo e persistente dos laboratórios. 

Se as consequências não fossem tão nefastas, seria até interessante. Ao considerar que quase tudo é “anormal”, os organizadores do manual poderiam estar chegando a uma concepção filosófica bem libertadora. A de que, como diria Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal”. E não é mesmo, o que não significa que seja doente mental por isso e tenha de se tornar um viciado em drogas legais para ser aceito. Só se pode compreender as escolhas de alguém a partir do sentido que as pessoas dão às suas escolhas. E não há dois sentidos iguais para a mesma escolha, na medida em que não existem duas pessoas iguais. A beleza do humano é que aquilo que nos une é justamente a diferença. Somos iguais porque somos diferentes. 

Esse debate não pertence apenas à medicina, à psicologia e à ciência ou mesmo à economia e à política. É preciso quebrar os monopólios sobre essa discussão, para que se torne um debate no âmbito abrangente da cultura. É de compreender quem somos e como chegamos até aqui que se trata. E também de quem queremos ser. A definição do que é “normal” e “anormal” – ou a definição de que é preciso ter uma definição – é uma construção cultural. E nos envolve a todos. Que cada vez mais as definições sobre normalidade/anormalidade sejam monopólios da psiquiatria e uma fonte bilionária de lucros para a indústria farmacêutica é um dado dos mais relevantes – mas está longe de ser tudo. 

E não, eu não acordei doente mental. Só teria acordado se permitisse a uma Bíblia – e a pastores de jaleco – determinar os sentidos que construo para a minha vida. 

ELIANE BRUM
Fonte: Site da Revista Época




quinta-feira, 16 de maio de 2013

EFEITO NOCEBO




O efeito nocebo ocorre quando um tratamento falso inflige sintomas indesejáveis. É o inverso do efeito placebo, caracterizado pela melhora do quadro do paciente apenas pelo efeito psicológico, quando ele recebe um tratamento simulado. A sugestão negativa ou o efeito nocebo ocorre sempre que existirem expectativas negativas, que são frequentemente provocadas quando médicos, por exemplo, explicam todas as complicações que podem ocorrer durante um procedimento indicado ao seu paciente.

Uma parte dos efeitos colaterais das drogas ocorre também por essa indução psicológica, quando, por exemplo, o paciente lê uma bula e passa a sentir os efeitos colaterais descritos nela, ou quando um paciente está sob teste de uma nova medicação, ingere uma cápsula sem a droga, mas começa a ter os mesmos efeitos colaterais descritos pelo medicamento verdadeiro. Essas reações ocorrem por dois motivos: o condicionamento pavloviano e a reação psíquica às expectativas. Uma maneira de se reduzir isso é evitar tocar no assunto “efeito colateral”, o que interfere na questão ética de esclarecer o que será feito com o paciente e quais os riscos. A saída, portanto, é reforçar as vantagens do tratamento proposto.

A mídia também tem um papel alimentador de efeito nocebo, pois toda vez que divulga supostos efeitos danosos de uma substância ou produto pode induzir pessoas sugestionáveis a apresentar sintomas ou até mesmo doenças imputadas ao uso do produto. Um fenômeno que pode indicar o quanto o efeito nocebo está presente em nossas vidas é a chamada hipersensibilidade eletromagnética, que é definida por mal-estar desencadeado por exposição a ondas eletromagnéticas, como as emitidas por telefones celulares. A existência dessa condição é bastante questionada, mas algumas pessoas se queixam de dor de cabeça, tontura, queimação ou formigamento na pele quando expostas a equipamentos eletrônicos. Alguns indivíduos até evitam o convívio o social e se mudam para áreas remotas com menos eletricidade.
Com o auxílio de exames de ressonância magnética pode-se demonstrar que áreas ligadas à sensação de dor estão ativadas no cérebro dessas pessoas quando estão tendo o mal-estar. Ainda que a doença não seja real, os sintomas são.

O doutor Michael Witthoft, da Universidade Johannes Gutenberg, da Alemanha, e o doutor James Rubin, do King’s College de Londres, estudaram a hipersensibilidade eletromagnética e concluíram que ela pode muito bem ser um nocebo. Em seu estudo, colocaram 147 voluntários para assistir a dois documentários. Parte dos voluntários assistiu um filme sobre os potenciais efeitos nocivos dos telefones celulares e aparelhos de rede Wi-Fi e a outra parte assistiu a outro filme que descrevia como esses aparelhos eram seguros. Em seguida, todos os indivíduos eram expostos a ondas de rede Wi-Fi, que se dizia serem reais, mas na verdade não existiam. Resultado: 54% dos voluntários descreveram sensações associadas  à  hipersensibilidade, dois precisaram abandonar o estudo, pois não suportaram os sintomas ocasionados pelas ondas imaginárias. Apesar de ambos os grupos apresentarem sintomas, o grupo que assistiu ao documentário que mostrava os perigos dos aparelhos foi o que mais apresentou sintomas.

O Dr. Wittihoft acredita que a simples antecipação de efeitos colaterais pode desencadear dor e distúrbios, e assim, a mídia sensacionalista pode interferir negativamente na saúde de grande parte da população quando divulga dados sem base científica sobre riscos de um determinado produto ou medicamento criando verdadeiras neuroses ou até doenças.

Por Rogério Tuma
FONTE: Revista Carta Capital

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Quando o estresse penetra na pele





Às 5h45 do dia 17 de janeiro de 1995 a terra tremeu no sul do Japão. Em apenas 20 segundos, a catástrofe natural em Kobe eliminou ávida mais de 6 mil pessoas e aniquilou 300 mil casas. A violenta destruição não passou incólume pelo psiquismo dos afetados. Conforme comprovam inúmeros estudos, nas áreas destruídas repentinamente muito mais gente passou a sofrer de doenças vasculares associadas ao estresse, em comparação às estatísticas nas regiões não afetadas. 

No entanto, a sobrecarga emocional não prejudica apenas o coração. O dermatologista Atsuko Kodama, do Centro Médico de Câncer e Doenças Cardiovasculares de Osaka, observou em 1999 que a catástrofe provocou um efeito surpreendente: piorou sensivelmente também a situação da pele de muitas pessoas com neurodermite. Mais de um terço da população passou a sofrer de eczemas, coceiras e inflamações cutâneas com mais frequência. 
Essa constatação não surpreende pessoas que sofrem com problemas de pele. Em geral, elas sabem que irritação, preocupações e tensão podem piorar os sintomas. Principalmente as doenças de pele inflamatórias como a neurodermite, a psoríase (uma manifestação autoimune que causa uma forte descamação da pele) ou o vitiligo pioram justamente quando estamos diante de uma situação na qual nos sentimos avaliados, enfrentamos uma grande frustração ou em casos de conflito. 

Em várias ocasiões a origem do problema está na infância. É o que demonstraram em 2010 a psicóloga Edita Simoni e seus colegas do Departamento de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade de Rijeka, na Croácia. Os pesquisadores entrevistaram pacientes com psoríase e pessoas saudáveis do grupo de controle, perguntando sobre experiências traumáticas que tinham vivido na infância. De fato, aqueles que sofriam de psoríase relataram com muito mais frequência experiências dolorosas e estressantes. Vários, no entanto, começaram a sofrer com as escamações de pele somente na adolescência. Os pesquisadores supõem que, provavelmente, a instabilidade emocional tão presente nessa fase da vida reforça os efeitos negativos das vivências traumáticas. 

Mas por qual caminho o estresse “penetra na pele”? Segundo médicos e psicólogos, a tensão e a sobrecarga emocional crônicas desequilibram as defesas do corpo – principalmente se faltam estratégias pessoais adequadas de superação (por exemplo, acompanhamento psicológico, hábito de praticar meditação e espaço entre os afazeres diários para simplesmente se dedicar a atividades prazerosas).

EM DESEQUILÍBRIO 
Quando enfrentamos uma situação estressante, os sistemas nervoso, hormonal e imunológico reagem com um complicado mecanismo de adequação. O corpo libera mais os chamados receptores adrenérgicos: adrenalina e noradrenalina. Essas substâncias elevam a frequência cardíaca e a pressão sanguínea – o que nos prepara para uma eventual fuga ou luta. Além disso, deflagram processos que podem culminar em inflamações: células do sistema imunológico se deslocam do sangue até os tecidos para atacar potenciais agentes patogênicos, caso estes sejam identificados.

Pouco depois, entra no jogo o cortisol, conhecido como o hormônio do estresse. Sua tarefa consiste em reverter as inflamações causadas pela adrenalina e noradrenalina. Problemas crônicos, principalmente na infância, costumam atrapalhar o equilíbrio dessas duas reações. Assim, em algum momento o corpo pode não produzir mais cortisol suficiente. Se essas pessoas são submetidas a fortes sobrecargas psíquicas, as inflamações resultantes não são mais aliviadas – um passe livre para as neurodermites e outros problemas de saúde.

Em 2008, pesquisadores coordenados por Eva Peters, da Santa Casa de Berlim, descobriram a importância de outro sistema bioquímico do estresse para doenças psicossomáticas de pele – o chamado eixo de neuropeptídeos e neurotrofinas. Durante um dia inteiro, os cientistas submeteram camundongos que sofriam de uma espécie de neurodermite a um barulho que causava temor. 

Ao analisarem a pele dos animais procurando diversos marcadores de inflamações, os pesquisadores alemães perceberam a presença de um tipo específico de célula nervosa que se multiplica de forma especialmente rápida em situações de estresse. Nessas ocasiões, os neurônios liberam diversas moléculas mensageiras, entre elas a proteína “substância P”. Esta, por sua vez, põe em cena os mastócitos – agentes do sistema imunológico que liberam histamina (substância que aparece em caso de alergias, causa coceiras insuportáveis e faz a pele inchar). Aparentemente ela também é responsável pelo surgimento de eczemas em fases de turbulências psíquicas. 

Agora cientistas buscam possibilidades de tornar a substância P inócua. “Um medicamento que inibisse o efeito da substância poderia ser um importante elemento terapêutico para refrear as reações inflamatórias da pele”, acredita Eva Peters. O problema é que nem sempre apenas medicamentos são suficientes para reverter processos orgânicos complexos. Hoje, médicos e psicólogos utilizam cada vez mais técnicas de relaxamento e psicoterapia para complementar os procedimentos de tratamento dermatológico. “Parece inegável que doenças crônicas de pele estão, na maioria dos casos,  associadas a doenças psíquicas como ansiedade e depressão”, afirma Uwe Gieler, da Clínica de Psicossomática e Psicoterapia da Universidade de Giessen, na Alemanha.

Muitas vezes, os problemas físicos e psíquicos entram em um ciclo vicioso: o estresse estimula as reações inflamatórias da pele e a coceira aumenta. Os pacientes se coçam, o que piora ainda mais a inflamação. Assim, principalmente as noites se tornam uma tortura. Instaura-se então um círculo vicioso: as pessoas dormem mal, sua disposição e desempenho durante o dia diminuem e elas tendem a sentir o estresse “normal” de fora especialmente pronunciada, o que prejudica ainda mais os sintomas. Além disso, devido às alterações visíveis da pele, frequentemente se sentem estigmatizadas e emocionalmente fragilizadas.

Alguns programas de acompanhamento têm ajudado crianças, jovens e seus pais a lidar com a patologia. Na Alemanha foi desenvolvido o Consórcio para Treinamento para Conviver com Neurodermite (Agnes, na sigla alemã), com base na psicologia comportamental.  Durante as reuniões, médicos e psicólogos oferecem informações sobre a doença; ensinam, por exemplo, como agem os desencadeadores típicos das crises e como evitá-los. Os pacientes aprendem como cuidar corretamente da pele e o que podem fazer contra a coceira. Administração do estresse e técnicas de relaxamento estão também entre os temas abordados. Além disso, os participantes têm a oportunidade de trocar experiências e buscar os possíveis sentidos que os sintomas ocupam em sua história de vida. 

Outro programa, Estudo Alemão sobre Intervenções em Dermatite Atópica (Gadis, na sigla em inglês), realizado com mais de 800 crianças e adolescentes que sofriam de neurodermite, mostrou que um treinamento de seis semanas pode favorecer sensivelmente o estado da pele. Tanto as crianças quanto adultos que cuidavam delas passaram a lidar melhor com a doença e sua qualidade de vida melhorou muito. Um ano após o treinamento, os efeitos ainda permaneciam. Atualmente, especialistas concordam que aprender como superar o estresse psíquico, todos os dias, é essencial para nos sentirmos bem na própria pele.




Angelika Bauer-Delto
FONTE:   Revista Mente & Cérebro

quarta-feira, 27 de março de 2013

AUTISMO



O próximo dia 02 de abril será um dia muito especial. Nesta data, o mundo se debruça sobre a síndrome que atinge mais de 70 milhões de pessoas. No Brasil, mais de Um Milhão e Meio de autistas buscam soluções e ajuda, onde menos de 5% recebem assistência adequada. Para termos uma ideia do que representa esse número, aí vai uma comparação: se somarmos o índice de incidência de diabetes infantil, de câncer infantil e de AIDS infantil, este número ainda será menor do que a porcentagem infantil de portadores de autismo.

No próximo dia 02 de abril, às 19h, um concerto sinfônico festejará a data. Com a participação da Orquestra Sinfônica de Barra Mansa-RJ, sob a batuta do maestro Vantoil de Souza, o Santuário Nacional de Aparecida se unirá a todos os cantos do mundo que comemoram essa data, sendo inteiramente iluminado de azul.

O Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2007. Seu objetivo é trazer informações sobre o Autismo e a importância do diagnóstico e intervenção precoce, além de mostrar que a essência das pessoas é a mesma, independente de suas aparências físicas ou questões psicológicas.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

“No Brasil, pensamos que só a cadeia resolve”




Esse é um tema que vale a pena discutir com os amigos, com os filhos, 
em sala de aula ou no botequim. 

A juíza aposentada Vera Regina Müller é uma das pioneiras no Brasil na defesa de penas alternativas. Apaixonou-se pelo tema no início da década de 1980, quando conheceu a realidade britânica: de cada cem penas aplicadas no Reino Unido, 80 são alternativas. Müller implantou penas alternativas no Rio Grande do Sul, sua terra natal, em 1985. Em 2000, faria o mesmo na Central Nacional de Penas e Medidas Alternativas (Cenapa) do Ministério da Justiça, que comandou no fim do governo de Fernando Henrique Cardoso. Com o julgamento do “mensalão”, mais do que nunca o debate sobre as penas alternativas volta à tona, mas o assunto guarda duas ironias: se o governo do PSDB foi o responsável por tê-las implementado no País, não deixa de ser, no mínimo, curioso que o partido agora defenda, com unhas e dentes, o encarceramento dos condenados. Por outro lado, o PT, que gostaria de ver José Dirceu, José Genoino e outros colegas de partido cumprir penas alternativas, em vez de presos, diminuiu a verba federal para o setor nos últimos anos. A juíza explica sua visão do tema na entrevista abaixo:

CartaCapital: Desde que a senhora esteve no governo, evoluiu a questão das penas alternativas no Brasil?
Vera Müller: Carecemos, hoje, de um sistema online para medir as aplicações no País. Os dados que chegam são muito atrasados. Até onde se contou, em 2009, o número de penas alternativas ultrapassou o número de encarcerados: são cerca de 540 mil encarcerados e mais de 640 mil aplicações de penas alternativas. E deve ser muito mais.

CC: Não é irônico que o PSDB, que criou uma central de penas alternativas, defenda agora o encarceramento dos condenados no “mensalão”?
VM: É irônico, mas tem outra conotação aí, política. No Brasil, achamos que a única coisa que resolve é a cadeia. Está aí o (José Luiz) Datena que passa a tarde na televisão a martelar, a preconizar o encarceramento. Quando comecei a fazer esse trabalho, verifiquei que 75% dos processos numa vara criminal eram de menor potencial ofensivo. Só 35% são delitos mais graves. Os demais não tiveram defensor público, são pobres, sem qualificação profissional, poderiam estar fora da cadeia. Os delitos mais graves são em muito menor número, mas a população não sabe disso.

CC: Há quem defenda que crimes de colarinho-branco não sejam punidos com penas restritivas de liberdade, mas com multas e penas alternativas. A senhora concorda?
VM: Depende do crime de colarinho-branco. A Justiça Federal tem juizado especial e trabalha com penas alternativas e o recolhimento é fantástico exatamente em função da aplicação de multas a crimes do colarinho-branco. Muitas instituições são beneficiadas com isso, dá para fazer muita coisa. O que eu fico impressionada é dizer que “não vai dar em nada, vai aplicar pena alternativa”. Pena alternativa, quando bem aplicada, tem a sua função de prevenção da criminalidade e de reprimenda. O que se procura? Fazer com que a pessoa se sinta tão constrita, responsabilizada, que não volte a delinquir.

CC: Para aplicar a pena alternativa, a questão é apenas o réu não oferecer risco à sociedade?
VM: Violência, grave ameaça ou risco à sociedade. A maior parte das tipificações do código penal é para delitos mais leves. Quando a pena é de até quatro anos, o juiz precisa aplicar a pena alternativa se o réu preencher as condições: se é primário, se não tem antecedentes, se o delito é proporcional, tem vários requisitos. Quando tem essas condições, tem de aplicar, não pode fugir.

CC: Hoje quais são as penas alternativas possíveis?
VM: Tem a prestação de serviços à comunidade, a limitação de fins de semana, a prestação pecuniária. Têm, também, aquelas que a Lei Maria da Penha trouxe, que é o agressor se manter a tantos metros de distância da vítima e ter de se apresentar à Justiça de tempos em tempos. Em minha opinião, o que funciona muito bem, quando bem aplicada, é a prestação de serviços à comunidade. A reincidência é menor.

CC: Se as penas alternativas fossem mais bem aplicadas, as cadeias estariam mais vazias?
VM: Num primeiro momento, se acreditava que poderia esvaziar, mas são muitos os fatores. Como o movimento de entrada é muito grande, não dá para dizer isso. O que precisa é mais investimento. Fui ao Ministério da Justiça e, quando vi os recursos aplicados, me apavorei: são os mesmos de 12 anos atrás. São só 3 milhões de reais previstos para o ano que vem.

CC: Quer dizer que o PT agora defende penas alternativas, mas não investiu em sua aplicação?
VM: Investiu, mas todo o dinheiro do Fundo Penitenciário Federal está sendo utilizado para o superávit primário. A arrecadação que a pena alternativa teria é muito maior do que estes 3 milhões que se têm agora para o orçamento do ano que vem. Está na mão do ministro tomar alguma atitude.

CC: As penas alternativas caminharam mais rápido no governo FHC ou no governo Lula/Dilma?
VM: No governo FHC foi dado o start. Depois, num período grande do mandato de Lula, o recurso chegou a 9, 10 milhões de reais, mas logo começou a reduzir. Então, acho que os dois governos estimularam. O que não pode é deixar morrer, precisa dar um salto. No nosso país entende-se que a expiação tem de ser na cadeia, e quanto pior a cadeia, melhor. Mas lidamos com seres humanos. Como é que essa pessoa vai sair e ter uma vida harmônica na sociedade se é maltratado lá dentro? A pena alternativa ajuda muito para que ele não ingresse na prisão. E quem está lá tem de ser bem tratado.

CC: Outro dia o ministro José Eduardo Cardozo falou que se mataria se fosse preso no Brasil. O que a senhora achou?
VM: Teve o lado bom e o lado ruim deste comentário. O lado bom é que ele foi absolutamente sincero, foi até elogiado pela coragem de dizer o que estava sentindo. O lado ruim é: puxa, então por que não faz alguma coisa? Hoje o que está se propondo para o ministro é a municipalização da execução penal, já que o delito acontece no município.

CC: Existe na opinião pública uma vontade muito grande pelo encarceramento, não é?
VM: Exato, coloca-se o encarceramento como uma forma de terceirizar a execução penal. “Eu vou deixar lá na cadeia, não quero nem ver”. Pretende-se jogar para baixo do tapete, como se o réu não fosse fruto da sociedade em que a pessoa vive. Quando eu era criança, tinha uma cadeia pública pertinho de onde a gente brincava, em São Leopoldo (RS). Não tinha muros fechados, eram de arame, e a criançada enxergava os presos. Nenhuma criança estranhava. Hoje, quando querem fazer uma cadeia em qualquer lugar é uma gritaria lascada, ninguém quer saber de prisão por perto. Talvez fosse preciso um trabalho de mídia importante para explicar o que são as penas alternativas.
Fonte: Site Revista Carta Capital


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Decisões Morais


Toda ação articula-se em torno de uma escolha.


É uma da tarde, e você dirige uma caminhonete pelas ruas de São Paulo. De repente, você esbarra num carro parado; ao lado dele, dois motoqueiros; um dos dois enfia seu braço armado pelo vidro do motorista do carro; o assaltante ameaça e grita, ele pode atirar a qualquer momento, quer seja porque não estão lhe entregando o que ele pediu, quer seja porque não gostou do que lhe foi entregue, quer seja porque, simplesmente, ele está nervoso e a fim de matar.

Atrás de você e da cena do assalto, só buzinam os mais afastados, que não enxergam o que está acontecendo. Os mais próximos ficam paralisados, divididos entre o medo e a vergonha por não reagirem e por serem cidadãos de um lugar onde isso é possível e corriqueiro.

Você está na posição ideal para pisar fundo e atropelar os dois meliantes, antes que atirem ou que fujam, ganhando, mais uma vez, dos assaltados e de todos nós.

Você não vai acelerar. É por medo de que o assaltante evite seu carro e acerte você com um tiro? É por preguiça de se envolver com polícia e investigação? Ou receia que cúmplices e familiares dos criminosos se vinguem?
Tudo bem, imaginemos que seja noite funda: não há ninguém, só os assaltantes, os assaltados e você. Ninguém verá nada. Ainda assim, você não vai acelerar?

Talvez prevaleça em você a inibição que paralisa a muitos na hora de machucar um semelhante, mesmo odioso. Ou talvez você queira agir "segundo a lei". Mas você sabe que a lei contempla e admite a "legítima defesa de terceiro"? Tudo bem, sua única obrigação jurídica é acionar a autoridade competente: fique no seu carro e ligue para a PM, uma viatura chegará a tempo para interromper o assalto e proteger os assaltados - não é verdade?

Ok, você hesitou demais, um dos assaltados acaba de ser baleado. Juridicamente, você não tem responsabilidade por não ter agido. A lei não exige de ninguém que seja herói. Mas será que isso é verdade também da moral? Você vai dormir tranquilo?

Outro dilema. Agora, imagine que, exatamente na mesma cena, você seja o assaltado. A caminhonete do dilema anterior apareceu, atropelou os assaltantes e sumiu. O bandido para quem você entregou sua bolsa está no asfalto, numa poça de sangue. Você faz o quê? Chama uma ambulância e espera para dar depoimento? Ou recupera o que lhe foi roubado e vai embora?

Já escrevi aqui mais de uma vez: admiro a teoria dos estágios do pensamento moral, de Lawrence Kohlberg. Resumindo, com nosso exemplo: é inútil querer decidir se é mais moral jogar a caminhonete para cima dos ladrões ou se esconder atrás do volante.

O que importa é a razão de nossa escolha. Se decidirmos por medo da punição, por conformidade ou mesmo por respeito à lei, nossa conduta será moralmente medíocre. Se decidirmos segundo o que nos parece certo, em nosso foro íntimo, nossa conduta -seja ela qual for- será de uma qualidade moral superior.

Mais uma coisa: Kohlberg também mostrou que a gente não melhora moralmente à força de memorizar valores ou exemplos a seguir, mas destrinchando dilemas e ponderando como e por que agiríamos de uma maneira ou de outra.

Os dois dilemas que acabo de expor são extraídos de um filme excelente, que não me sai da cabeça, "Disparos", de Juliana Reis, em cartaz desde sexta passada.

"Disparos" acontece no Rio, embora seu roteiro seja, hoje, mais paulistano do que carioca. De qualquer forma, não perca o filme e não fuja do debate íntimo sobre o que você faria numa situação parecida (até porque as chances de viver uma situação parecida aumentam a cada dia).

O Senado acaba de incluir disciplinas de ética no currículo do ensino fundamental e médio. Espero que se evite a monumental estupidez de ensinar ética normativa, ou seja, de querer enfiar valores em nossas crianças - goela abaixo, como se fossem partículas consagradas.

Para crianças como para adultos, "aprender" ética significa aprimorar a disposição a pensar moralmente, ou seja, a capacidade de debater, em nosso foro íntimo, os enigmas complexos (e, muitas vezes, insolúveis) que a realidade nos apresenta. Como disse, essa disposição só melhora à força de encarar dilemas.

Sem esperar o mais que provável desastre do novo curso, podemos ir (e levar nossos adolescentes) ao cinema. "Disparos" é um filme perfeito para pesar a complexidade da vida urbana no Brasil, ou seja, para pensar o que significa sermos morais hoje, aqui, no lugar em que estamos vivendo.


BY: Contardo Calligaris
Fonte: Jornal Folha de São Paulo – 28/11/2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Para que serve a Psicanálise?



"Serve para diminuir ao mínimo possível o sofrimento neurótico e o sofrimento banal, ou seja, reduzi-los ao que é totalmente inevitável; serve para tentar reorientar ou desorientar a vida da gente --desorientar é uma maneira de orientar! Enfim, serve para tornar a experiência cotidiana muito mais interessante. Pensando bem, quase tudo se inclui nessas três coisas"
Contardo Calligaris
Psicanalista e colunista da Folha


"A psicanálise é um método de investigação do modo de funcionar da mente que, bem-sucedido, tem como consequências um desenvolvimento maior da personalidade e proporcionar condições de bem-estar mental. Para que serve? Eu poderia perguntar: para que serve existir? A utilidade da psicanálise compartilha com o sentido de nossa própria existência"
Luiz Tenório Oliveira Lima
Psicanalista e professor


"Tratar das dores da alma. E é um processo tão longo para diluir a dor quanto foi para implantá-la. A substância com a qual a psicanálise lida não obedece às leis da mecânica. Não tratamos de matéria, não tratamos de concretudes: são dores da alma, substâncias de outra categoria"
Anna Veronica Mautner
Psicanalista e colunista da Folha


"Serve para possibilitar que a pessoa suporte viver a pós-modernidade. Saímos de uma sociedade que estabelecia claramente os certos e os errados. O homem atual se apavora frente a essa liberdade e se esconde atrás das fórmulas prontas de viver. Nesse contexto, a psicanálise vai na contracorrente da ideologia de que tudo tem remédio, dos livros de autoajuda e das neorreligiões. Ela transforma a angústia paralisante do homem frente à liberdade responsável das opções em uma ação criativa"
Jorge Forbes
Psicanalista e psiquiatra


"O objetivo da psicanálise é libertar o paciente de seus sintomas e de seus problemas. Acima de tudo, é um método curativo, além de ajudar a transformar o paciente em alguém mais adaptado à sua realidade e aumentar a sua inteligência emocional"
Juan-David Nasio
Psicanalista, diretor dos Seminários Psicanalíticos de Paris


FONTE: Jornal Folha de São Paulo – 27/09/2012 - "Enquete: para que serve a psicanálise."

domingo, 25 de novembro de 2012

Saber ouvir, saber falar.



Se você não é bom de papo, desenvolva a arte de ouvir. O resultado pode ser muito compensador. Quer saber por quê? Leia o texto de Cristiane Segatto.

A garota me pergunta qual é a rotina de um jornalista numa grande revista semanal. Aos 18 anos, enfrenta a tensão que antecede as provas do ENEM e de múltiplos vestibulares. Está prestes a encarar a seleção para Direito em várias faculdades, mas acha que leva jeito para Jornalismo. O pai, advogado, não gosta da ideia. Está postergando o pagamento da inscrição para o vestibular da Faculdade Cásper Líbero, uma das principais escolas de comunicação de São Paulo.

Sem querer, sem planejar, a menina teve uma ótima chance de saber algo sobre os bastidores de uma redação. Ela e eu fomos convocadas pela Justiça Eleitoral para trabalhar como mesárias na eleição do último domingo. Passamos dez horas juntas. Lado a lado, numa situação absolutamente informal e solidária.

A garota chegou à seção eleitoral com uma apostila preparatória para as provas do ENEM. Queria aproveitar para estudar nos longos minutos em que não havia eleitor na sala. De tempos em tempos, desviava os olhos do caderno e me fazia uma pergunta sobre jornalismo. 

Como é? Quanto ganha? Trabalho demais? Longas madrugadas de ralação? Autonomia para escolher as pautas? Muito cacique para pouco índio? Glamour? Festas? Gente interessante? 

Tentei responder com clareza e sinceridade. Com o maior interesse, com a maior boa vontade. Não consegui. A cada pergunta, sequer conseguia concluir uma ou duas frases. Começava a falar e já era interrompida. Ela falava sem parar. Daquele embate de vozes resultava um monólogo.  

Senti que a garota saiu daquele encontro do mesmo jeito que entrou. Se fosse jornalista, voltaria à redação com as mãos e a cabeça vazias – apesar de ter estado com o entrevistado durante dez horas. Ela ainda não sabe ouvir. Um erro fatal no jornalismo, em muitas outras profissões, na vida.

Não é a primeira vez que ouço um estudante dizer que pensa em ser jornalista porque gosta de falar. Gostar de falar não é uma habilidade fundamental nesta profissão. Em algumas situações, como no caso dessa estudante, pode até atrapalhar. Para fazer um bom trabalho, um jornalista não precisa ser um encantador de massas, um comunicador nato como Chacrinha.

Precisa, necessariamente, saber ouvir. Os melhores jornalistas que conheço falam pouco. Angustiantemente pouco, em certos casos. Por outro lado, são esplêndidos ouvintes. Ouvem o que o interlocutor diz e principalmente o que ele não diz.

Grandes verdades raramente são verbalizadas. Para revelar o que uma pessoa sente e pensa, de fato, é preciso ser capaz de captar gestos, vacilos, ambientes, a verdade explícita que detalhes (os móveis de uma casa, por exemplo) podem denunciar sobre quem os escolheu.

Em outras profissões não é diferente. Um psicólogo que não sabe ouvir está fadado ao insucesso. Um médico que não ouve se transforma numa ameaça constante à saúde pública. Um professor pode ser condenado a falar eternamente para as paredes. Um advogado, um promotor, um delegado que não sabe ouvir as palavras que não são ditas estará sempre longe da verdade.

Bons ouvintes são raros. Cada vez mais raros. A proliferação dos celulares transformou as cidades em impérios da incontinência verbal. No ônibus, no metrô, nos cinemas, em qualquer ambiente fechado, ouvimos a zoada das vozes que não se encontram.

Alguém dirá que se uma pessoa fala ao aparelho é sinal de que outra a ouve do lado de lá da linha. Não necessariamente. Do outro lado alguém ouve e não escuta. Tem urgência em falar, em vencer o delay que picota a conversa e traz de volta a voz do outro. Aquela voz que precisa ser instantaneamente subjugada.

Em tempos de falação vazia, nos esquecemos de ouvir. Essa é a causa de qualquer parte de nossos desentendimentos. Temos muito que aprender com os grandes ouvintes – sejam eles jornalistas, psicólogos, filósofos, professores, qualquer pessoa que entenda o valor da escuta bem feita. Qualquer pessoa que tenha paciência e interesse genuíno pelo outro.

Saber ouvir é também uma característica das pessoas mais influentes. Pouca gente se dá conta disso. Em geral, acreditamos que líderes são necessariamente aqueles que dispõem de grande capacidade de expressão verbal e poder de convencimento. Uma pesquisa publicada recentemente no Journal of Research in Personality traz um novo ponto de vista.

O pesquisador Daniel Ames da Columbia University, nos Estados Unidos, coletou informações sobre 274 estudantes de MBA da East Coast University. Eram moças e rapazes com idade média de 28 anos.

Colegas de trabalho desses voluntários foram convidados a dar notas sobre o poder de influência de cada. Deram informações sobre a capacidade deles de fazer um colega mudar de ideia, capacidade de conquistar apoios para realizar tarefas, capacidade de trabalhar com pessoas com diferentes opiniões e interesses, capacidade de reverter, a seu favor, a opinião dos presentes em uma reunião etc.

Os participantes também foram avaliados em itens capazes de apontar as habilidades de expressão verbal e de capacidade de ouvir. O que o pesquisador descobriu? Os três achados principais:

Bons ouvintes têm grande poder de influência, independentemente de sua capacidade verbal. Quem sabe ouvir têm acesso às crenças, aos objetivos, aos conhecimentos de seus interlocutores. Isso porque as pessoas revelam informações com mais facilidade quando percebem que o outro tem interesse genuíno por elas.

A escuta bem feita permite que os bons ouvintes entendam o contexto das situações e possam direcionar suas tentativas de persuasão no sentido correto.

Quando as pessoas se sentem ouvidas de forma genuína, elas tendem a apoiar os bons ouvintes nas mais variadas situações, inclusive nos embates do ambiente corporativo. Torço pela garota assustada com o vestibular. Ela tem todo o tempo do mundo para aprender a fazer diferente. Se eu encontrá-la novamente, vou tentar dizer. Espero que ela me ouça.

Saber ouvir não é só uma questão de sobrevivência na profissão. É também um fator que contribui para o bem-estar de quem fala e de quem ouve. Quem ouve e realmente escuta nunca sai de uma conversa do mesmo jeito que entrou. Sai melhor e mais interessante.

BY: CRISTIANE SEGATTO
FONTE: Revista Época 



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Questionando o discurso "Científico"



Transcrição do depoimento da jornalista Laura Capriglione no debate promovido pelo Centro de Convivência É de Lei, sobre “Mídia, Drogas e HIV” (14/9/2012)


Eu queria agradecer o convite e a oportunidade de estar aqui com vocês. Cabe a mim falar sobre um lado delicado dessa história toda que é o lado da cobertura da imprensa. Eu digo que é um lado delicado porque a imprensa, se por um lado ela joga luzes, ela também pode muito bem, e com a melhor das intenções, reforçar o maior dos preconceitos. (...) Essa cobertura desse evento [a operação na cracolândia] foi pra nós (...) uma experiência extremamente reveladora do que é o universo do crack. Digo isso porque não sei se vocês se lembram quando o crack apareceu, há 20 anos, uma das primeiras matérias que se veiculou foi na Veja, do Elio Gaspari, muito bem escrita como sempre, e a matéria dele começava com um tuiiiimmm, e com esse “tuiiiimmm” a pessoa tava morta, tava frita, “tuiiiimmm” era o suposto “tuiiiimmm” que a droga deflagrava nos sistemas neuronais e aí vinha um linguajar supostamente científico pra dizer exatamente aquilo que o meu colega da mesa mencionou, pra construir a ideia de uma droga que tinha alguns efeitos devastadores, aliás a palavra devastador nunca foi tão utilizada quanto na cobertura do crack, pra dizer o mínimo se diz que o crack é uma experiência devastadora. Mas ele faz muito mais que isso, ele queima os neurônios – tô citando coisas que apareceram na imprensa – ele queima os neurônios, uma tragada vicia inevitavelmente, ele destrói a família, destrói os laços, ele enfim desumaniza a pessoa que deixa de ser um cidadão como nós e passa a ser uma pessoa que precisa de uma intervenção total, e essa intervenção pode ser policial, por que não?, mas pode ser uma internação forçada, compulsória, como a gente ouviu de novo ser mencionado agora na cobertura da cracolândia, essa foi uma das vias que mais acolhimento tiveram... qual a saída? Internação compulsória, isso foi defendido por autoridades, governo do estado...

Pra nós, eu que trabalho na Folha, que é aqui no Centro, quase mergulhada na cracolândia, a gente tem cracolândia de um lado, de outro, na frente e atrás, e pra nós, felizmente ou infelizmente, essa proximidade, quando a gente ouvia as balas, ouvia os tiros, a redação saía, foi muito bom porque a gente tava ali do lado, e a Folha conseguiu flagrar os tiros de bala de borracha, as bombas de efeito moral, isso virou matéria, virou TV Folha, virou um monte de coisa. (...) Isso foi uma experiência muito rica pros profissionais que estavam ali envolvidos. (...) “os craqueiros são pessoas sem o menor discernimento, estão com o cérebro queimado, a droga destruiu qualquer traço de humanidade, generosidade, inteligência”, quem durante muito tempo teve o monopólio da fala sobre os craqueiros foi exatamente a turma dos médicos, a turma dos psiquiatras, a turma das clínicas, essa turma que acabou tendo o monopólio e hoje a gente pode, as pessoas começam a perceber cada vez mais, esse discurso longe de ser científico é um discurso interessado, porque a maior parte dessas pessoas são também donas de clínicas, donas de entidades e são contratadas pelo poder público, são entidades que têm clínicas, convênios com a secretaria da saúde, enfim... só que isso era um pequeno detalhe que passava totalmente despercebido da imprensa, que entrevistava médicos que o tempo inteiro estavam disponíveis pra falar sobre os efeitos devastadores do crack na experiência de um dependente químico.
O que essa experiência da invasão, da disputa do território da cracolândia, fez foi obrigar os jornalistas, que ficaram muito tempo, quase vinte anos, no conforto dessa conversa por telefone na maior parte das vezes, longe da cracolândia, e eu queria só lembrar quantas vezes a gente viu notícias nos jornais, particularmente na televisão, de repórteres muito bem intencionados, por isso eu digo que o problema não foi falta de boas intenções, o problema é um pouquinho maior, tem a ver com preconceito e uma série de coisas, quantas vezes a gente viu aquela cena do carro da imprensa, do carro da televisão, sendo apedrejado pelos craqueiros violentíssimos? A gente viu essa cena um milhão de vezes, um zilhão de vezes, com a melhor das boas intenções. Mas ninguém parou pra se perguntar, só que hoje a gente para pra se perguntar, por isso eu digo que foi um momento que a gente teve de chegar perto do problema, ninguém parou pra se perguntar por que é que aquelas pessoas apedrejavam os carros da imprensa. A maior parte apedrejava os carros da imprensa pelo único e acho que legítimo motivo que essas pessoas têm direito à própria imagem, tem direito a preservar a própria imagem, coisa que não passava pela cabeça de alguém que julgava os caras desumanos demais pra defender a própria imagem, que essas pessoas tinham esse direito. Por que eles tinham de ser expostos, e isso não é uma prerrogativa, diga-se de passagem, de usuários de crack, qualquer população que vive nessas situações limites são pessoas que ficam extremamente constrangidas com essa exposição na mídia. (...) mas essa imagem dos carros de imprensa sendo apedrejados pelos craqueiros era a mão na luva, era perfeito pra provar a tese que os craqueiros eram não-pessoas, eram animais, pior que animais, que a droga tinha desumanizado esses caras e que eles não mereciam nenhuma consideração a não ser uma intervenção total.
Os jornalistas foram pra cracolândia (...), e tomaram um choque com o que viram lá e com as situações que acabaram presenciando. Eu queria dizer que, entre outras coisas, como a gente tava naquela ideia de que alguma coisa precisa ser feita pra salvar essas pessoas de si mesmas, dessa droga que aliena as pessoas de si mesmas, logo no começo parecia que tudo podia, a Secretaria [dizia que] com gentileza não dá pra tratar, e ela não tava falando sozinha, ela tava dialogando com uma ideia que a sociedade tinha dessa população. E vocês podem ter certeza que teve um apoio enorme a essa intervenção da Secretaria, e dentro da Folha, no espaço de comentários (...) era esse mesmo, tira todo mundo, limpa a rua.

Foi muito importante a presença da Defensoria Pública com aquele panfletinho simplíssimo, que falava de direitos, o cara não tem direito de andar na rua, não tem o direito de ficar parado, de sentar na calçada?, parecia uma coisa normal que ele não tivesse... pra se ver o grau de preconceito que tinha, as premissas com que a gente foi pra rua eram as mais nefastas possíveis. Bom, aí teve um jornalista da Folha que saiu andando com os meninos pra medir quanto que esses caras tinham que andar por dia por conta dessas abordagens da polícia e desse impedimento da polícia de que essas pessoas ao menos sentassem. Então se começou a andar junto com as pessoas, começou a conversar com as pessoas, e o que a gente pode ver foi exatamente a desconstrução desses mitos que cercavam os usuários de crack.

Eu tenho certeza que a gente é melhor hoje do que era antes, por incrível que pareça, se essa cobertura, se essa guerra insana que a polícia, que o governo do estado, que a prefeitura moveram, insana mesmo porque a gente vê que os efeitos disso foram simplesmente uma espécie de castigo a essa população que já é tão castigada pela vida, mas um segundo efeito foi aproximar a gente de uma realidade que a gente ignorava solenemente. Porque a gente tava contaminada por esse discurso médico.
Vou dar alguns exemplos, são coisas bestas, bobas, agora recentemente a TV Folha fez uma matéria, a Folha foi atrás de uma velhinha que tava procurando a Desirée, que tava grávida, ela virou personagem porque estava grávida e tava na cracolândia e a sogra dela queria que ela voltasse pra casa porque a Desirée tava ali naquela vida louca. A Desirée é uma das que tá presa, acusada de tráfico, e teve o filho na cadeia. Muito tempo depois, agora, ela teve o filho, ela tá na cadeia, não tá usando crack, tá linda, tá maravilhosa. Fizeram um TV Folha com a Desirée (...), ela tá com o filho e quer continuar com o filho. Quando o pessoal da TV Folha tava editando o material, veio uma menina muito legal e perguntou: Laura, por que vai sair uma matéria dessas agora, pra pegar e mostrar o quê, isso parece novela do SBT, pra que serve essa matéria?

Bom, quando a gente tava fazendo matéria sobre as mães do crack eu fui até os conselhos tutelares, a pauta foi encaminhada com uma única razão, coitadinhas das crianças que são geradas e nascem numa situação como essa. O poder público tem que tirar essas crianças das mães, o objetivo da pauta era esse. Tem que tirar essas crianças dessa situação absurda e tal. Fui lá no conselho tutelar, qual a posição do conselho tutelar? Tira, tira já, tira já! A posição do conselho tutelar daqui, da Praça da República, é tirar já as crianças dessa situação de risco que as crianças não têm nada a ver com a vida da mãe, não sei que. Eu vou falar francamente que achei que não era tão louco isso, não era tão louca essa posição, que de repente podia até ser, e de repente apareceu na minha frente uma mulher dependente de crack, que não era mais dependente de crack, que tava livre, e que disse, olha, eu só saí do crack por causa do meu filho, a minha única ponte com a vida foi meu filho. Se eu perdesse naquela hora o meu filho eu provavelmente não saía nunca mais. Bom, não sei se não saía mais ou não, mas tornou muito mais difícil aquela equação, não podia ser mais simplesmente assim, a mulher tá no crack, arranca o filho dela. O caso da Desirrée, por mais que parecesse uma novela do SBT, mostrava uma outra coisa, que não era uma via de mão única, que precisa ser visto a situação particular de cada uma das mulheres, não pode ser uma norma geral, você tinha que olhar praquele ser humano, não podia ser uma norma tudo que se impusesse pra supostamente salvar a criança. O que começou a acontecer, e é isso que eu queria dizer pra encerrar, aquilo que antes tava tudo muito claro, pra todo jornalista: o craqueiro era um bicho, o filho do craqueiro ou da craqueira tinha que ser arrancado deles, a internação compulsória a gente não gosta muito disso mas também pode mesmo ser a única saída então vamos nessa – pode ser, não é a única saída –, a gente teve de deixar de lado isso pra começar olhar pra cada um daqueles seres humanos sofridos de uma outra maneira.
Eu acho que a gente errou muito e ainda vai errar muito também. Mas eu acho que aquela experiência da cracolândia, às vezes a gente era, junto com a Defensoria, os únicos que estavam ali, pra falar com eles, pra ouvir as reclamações deles, pra flagrar a viatura da polícia passando duas vezes em cima da cabeça dum menino que foi atropelado numa dessas abordagens (...), de fato a gente teve de começar a se relacionar com uma gente que a gente desconhecia completamente. Eu acho que as coberturas de crack tendem a melhorar, tendem a ser menos preconceituosas, mas eu queria dizer também que esse contradiscurso médico em relação a essa posição que é a favor da internação, que só com drogas pesadas... isso aí precisa melhorar muito, essa comunicação precisa melhorar muito, desse outro lado, o outro jeito de lidar com a coisa, porque de novo: os adeptos dessas medidas totais eles estão sempre disponíveis, se você ligar pra eles à meia-noite e meia eles atendem o telefone e falam, olha, os efeitos são devastadores, e fazem aquela cara: de-vas-ta-dores, e tudo bem, e a gente escreve, devastadores... é preciso que o outro discurso seja feito também, que outras experiências sejam mostradas. Por exemplo, esse vídeo aí [mostrado pela Defensoria], com esse cara aí falando, é incrível, se queimou os neurônios desse menino e ele falando desse jeito, eu tô querendo também esse negócio... (risos) eu fui numa clínica que era mantida em São Bernardo que aplica esse princípio dos doze passos e que é de um dos médicos mais disponíveis pra dar entrevista, falando que a única saída é a internação, não sei quê. Bom, aí tinha nessa clínica tratava de dependência de álcool e drogas então tinha álcool e o resto tudo era crack ali. E tava todo mundo sem nada, sem fumar, sem nada, e teve uma mesa-redonda, todo mundo falando... A vivacidade daqueles caras acabou com qualquer ideia que eu tivesse sobre esses efeitos arrasadores, o curto-circuito neuronal, pega fogo no cérebro e aquela coisa toda, acabou, eu vi que a gente precisava aprender tudo de novo sobre crack.

Fonte: Observatório da Imprensa
21/11/2012

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Autismo: Uma muralha de Silêncio




Algumas crianças, logo ao nascer, são cercadas por uma muralha invisível que as impossibilita de interagir com o meio e as pessoas que a rodeiam. Esta muralha, nos primeiros dois anos de vida, contém espaços porosos que permitem aos pais um grau razoável de interação com o bebe. Mas, infelizmente, a cada ano que passa, essa porosidade vai diminuindo e, aos seis anos, na maioria dos casos, a criança está totalmente isolada, dentro da muralha do autismo.

Assim como não há duas crianças idênticas, também não há dois autistas idênticos. Essa diversidade dificulta o diagnóstico precoce, tão fundamental no caminho da cura dessa síndrome. Até mesmo pediatras e psicólogos experientes encontram dificuldades para fazer o diagnóstico, nos primeiros anos de vida do bebe, dependendo do grau do transtorno. Os exames complementares, mesmo os mais sofisticados, como tomografia de crânio ou ressonância magnética, pouco ajudam na conclusão final. É o relato dos pais e, algumas vezes, da escola, que possibilita o diagnóstico clínico.

A falta de tratamento adequado, logo nos primeiros anos, compromete o desenvolvimento cognitivo, emocional e psicológico da criança. Daí a necessidade do diagnóstico nos três primeiros anos de vida da criança, e a necessidade de desenvolver um trabalho interdisciplinar continuado, que ofereça propostas de tratamento e educação especializados. 
 
O diagnóstico clínico considera três critérios básicos. O primeiro aponta a dificuldade ou ausência de interação social – marcada pela incapacidade de estabelecer contato visual, se relacionar com crianças da mesma faixa etária e compartilhar sentimentos. Essa falta de interação muitas vezes dificulta a amamentação. É comum durante o processo de diagnóstico, escutar da mãe que a criança não conseguia sugar o seio.

O segundo critério revela o desenvolvimento tardio da fala – não raro a criança não se comunica verbalmente de nenhuma maneira. A dificuldade de entrar na linguagem produz, desde os primeiros meses de vida, o desinteresse pelo contato visual – preferem olhar para objetos e não para rostos. Não imitam comportamentos, não bocejam, não choram ou riem quando outros fazem na sua frente.

O terceiro critério de diagnóstico revela os movimentos repetitivos e rítmicos do corpo. Elas repetem sempre o mesmo gesto, uma compulsão totalmente desprovida de sentido aparente. Com bastante frequência, acredita-se que se tornou retardada mental e até mesma surda. Não é nada disso. O autismo se fecha progressivamente a qualquer relação humana, por causa, muito provavelmente, do sofrimento insuportável de não se reconhecer diante do outro.

Crianças com quadro de autismo que recebem atendimento precoce - clínico e educacional especializado - apresentam melhoras significativas, desenvolvem a linguagem, integram-se ao meio ambiente, frequentam escolas e, quando adultas, perdem grande parte das características de autista, conseguindo, então, se integrar socialmente.

O fundamental na síndrome autista é que o tratamento inicie antes dos primeiros três anos. É durante esse período que se pode cogitar um processo de cura.
Maria Holthausen