segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A ordem é inventar




Durante um longo tempo, os estudos de gênero foram realizados quase que exclusivamente por pesquisadoras feministas, passando, nos últimos anos, a despertar o interesse de pesquisadores não militantes como antropólogos, sociólogos e historiadores renomados.

Por consequência, as questões se diversificaram e as perspectivas de observação e pesquisa se multiplicaram, transformando os estudos de gênero num consistente campo de produção de saber.  Advém dessa área de pesquisa a constatação de que o modelo patriarcal do “homem” e da “mulher”, já não sustenta as novas identidades. Na sociedade contemporânea, dizem esses pesquisadores, não existe a possibilidade de eleger um único modelo que sirva como referência para todos.

No campo da feminilidade, acompanhamos, pessoalmente ou através das narrativas históricas, o movimento feminista na luta pela desconstrução dos arquétipos tradicionais da construção do feminino. Nos últimos anos, a mulher mudou. Como disse um amigo outro dia: “Hoje, elas querem tudo. É difícil achar uma mulher que simplesmente queira ser mãe e esposa.”

No campo da masculinidade, o modelo de homem, produzido pela sociedade patriarcal, vem sendo tão questionado que foi obrigado a abrir espaços para outras masculinidades mais flexíveis e plurais. Algo que era visto como natural - “o poder do macho” - passou a ser seriamente problematizado.

A identidade masculina passou de uma inflexibidade poderosa para uma participação interativa flexível. No modelo tradicional, o homem era visto como alguém forte e firme em suas decisões, inflexível em sua vontade pétrea, machista e egoísta. Nesses novos tempos, mais importante que dar ordens é convencer e seduzir; melhor que ser sempre igual, é mostrar-se criativo, respondendo diferentemente, conforme o aspecto de cada circunstância.

Hoje, sem o modelo fixo, que assegure a identidade, alguns homens se sentem mais a vontade para experimentar novas vivências afetivas.  Outros reagem atordoados, procurando novas formas de ser que lhes devolvam a segurança perdida. Para isso, hipertrofiam os traços machistas em academias, fabricam abdomens tanquinhos, ao mesmo tempo em que vão perdendo a vergonha de confessar seu interesse nos melhores cremes, na cirurgia plástica e nas mais fascinantes e eletrizantes combinações de roupa. 

Concluindo. No mundo pós-moderno tornou-se obsoleto o debate maniqueísta: Homem x Mulher.

Maria Holthausen

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Relacionamento Homoerótico: Um Novo Modelo de Família




Falar da família contemporânea é falar das mudanças que essa instituição civil vem incorporando desde os meados do século passado. Se antes, os laços familiares eram formados apenas por critérios patrimoniais e biológicos, hoje, o elemento unificador da constelação familiar é o afeto. As famílias se formam através dos vínculos de amor e afeição. Estes, sim, são os verdadeiros elementos solidificadores da união familiar.

A família homoerótica, homoafetiva ou homoparental, é uma das várias formas da família contemporânea. Ela parte da união, por vínculo de afeto e desejo sexual, entre pessoas de mesmo sexo. Uma união que, embora aprovada pelo código civil, ainda sofre as consequências de muitos preconceitos.

Talvez, um dos maiores preconceitos, vividos hoje pelos casais homoeróticos, é o da adoção de crianças. Teme-se, por exemplo, que crianças adotadas por esses casais sofram a intolerância e, muitas vezes, o ódio irracional da sociedade pela opção de seus pais adotivos. Diz-se: - “Essas pessoas não estão levando em conta o sofrimento, causado na criança, pelo preconceito que pesa sobre os seus pais.”

Não sou ingênua, acredito que essas crianças viverão, sim, uma série de situações preconceituosas e terão que aprender a conviver com elas. Mas, por causa do preconceito, não podemos duvidar do direito desses casais de adotarem suas crianças. Muitas outras crianças sofrem com o preconceito social: as negras, as gordinhas ou muito magrinhas, as que nasceram com alguma diferença física ou emocional, e assim por diante.

A maioria dos adultos sofreu algum tipo de preconceito na infância e teve que aprender a conviver com eles. E afinal, muito mais importante que o preconceito é o afeto, a educação e a segurança que os casais homoparentais podem oferecer a uma criança que vive em um abrigo institucional. Crianças precisam de dedicação, cuidado, respeito e amor, precisam de alguém que lhe dê condições para crescer de maneira saudável, tendo seus direitos e deveres observados e respeitados. Nenhum abrigo, por melhor que seja, pode oferecer essas condições.

Portanto, se nos preocupamos com o preconceito que essas crianças podem vir a sofrer, temos que arregaçar as mangas e começar a colocar um basta no preconceito. O erro é o preconceito, não esse modelo de adoção. As escolas precisam estar mais preparadas para lidar com as novas formas de famílias. Assim como todos os profissionais que trabalham nas várias etapas do processo de adoção.  

Maria Holthausen

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Pragmáticos versos Românticos




Para o escritor irlandês, Oscar Wilde, o mundo está povoado por dois tipos de pessoas. Os cínicos, aqueles que sabem o preço de tudo, mas não conhecem o valor de nada. E os sentimentais, aqueles que reconhecem um valor incomensurável em tudo, mas não sabem o preço de nada.

Abrindo mão da ironia do autor, podemos, também, dividir a espécie humana em duas classes: os pragmáticos e os românticos. Chamaremos de pragmáticos, aquelas pessoas que sabem o preço, por exemplo, da sua casa no mercado imobiliário. Mas, dificilmente conseguem estabelecer um vinculo afetivo com ela. E de românticos, aqueles que estabelecem primeiro um vínculo afetivo com a casa. O valor de mercado, para eles, tem pouca influência na relação afetiva que mantem com a casa.

Sem a carga moral da ironia, podemos supor que essa perspectiva define, apenas, duas maneiras diferentes de se relacionar com o mundo. Os pragmáticos são menos afetivos, mais “pé no chão”. Os românticos são mais afetivos, vivem “nas nuvens”. 

Geralmente, os homens são mais pragmáticos e as mulheres mais românticas. Se a dose do romantismo de um e do pragmatismo do outro é pequena, forma-se uma bela dupla. Ele pode apreciar o modo como ela se relaciona afetivamente com o mundo a sua volta. E ela se sente segura por saber que seu parceiro mantém os pés bem firmes no chão. E no caso de ele ser o mais romântico, mais sonhador. É ela que pode manter os projetos do casal amarado em bases sólidas.

No entanto, quando a lógica matemática domina todos os interesses de um dos parceiros, e a lógica poética domina o comportamento do outro, a convivência diária pode ficar bem complicada. Com visões de mundo tão diferentes, a tendência de conflito, em cada decisão do casal, é muito grande. Geralmente, o pragmático mantém com mão de ferro suas decisões. Dentro da lógica do mercado, suas escolhas sempre serão vistas com mais coerência. O outro, o romântico, será interpretado como muito sonhador. E, portanto, não merece ser levado a sério.

Para que o relacionamento se mantenha, o sonhador se inibe, passa a não expressar mais suas ideias. Abre mão de seus sonhos e de seus desejos. Não porque esses sonhos e desejos não tenham valor, mas porque o seu parceiro só sabe ver preços, não sabe dar valor.
 
Maria Holthausen

terça-feira, 28 de agosto de 2012

As dificuldades de não ser convencional.



Felicidade e liberdade são valores, ou estados emocionais, que buscamos alcançar desde muito cedo. Mas, desde o momento que tomamos consciência que os nossos desejos, necessidades e prazeres são diferentes dos desejos, necessidades e prazeres dos nossos pais, ou de qualquer outra pessoa, percebemos, também, que a felicidade e a liberdade só serão alcançadas a partir de nossas próprias escolhas.

Consequentemente, não é a toa que esses valores são tão difíceis de alcançar. Fazer as próprias escolhas e responsabilizar-se por elas, assim como, sustentar os nossos desejos, não é trabalho fácil. Temos que lutar contra o temor do desafeto e das represálias em geral, ao qual estão sujeitos todos os indivíduos, que não se comportam conforme os padrões usuais e tidos como aceitáveis, pela sua família e grupo social. Se os nossos desejos não correspondem ao desejo do grupo em que estamos inseridos, se não somos tão convencionais como o esperado, a possibilidade de não ser amado é grande. E, não ser amado é uma sanção quase insuportável para qualquer ser humano.

Para sermos amados por nosso grupo familiar, teremos de agir de acordo com seus valores.  Porque, sabemos, cada pessoa toma a si próprio como um modelo de perfeição a ser proposto especialmente para os filhos. Mesmo que a própria pessoa possa se sentir brutalmente infeliz e insatisfeita. O egoísmo narcísico sustenta-se na lógica da repetição do mesmo.

Sair desse impasse, não é uma tarefa fácil. Como ser feliz sabendo que nossas escolhas não são respeitadas por aqueles que amamos? Como encontrar forças para ir atrás dos nossos sonhos, quando eles não são compartilhados por aqueles que esperávamos ser apoiados? O sentimento de solidão e de exclusão, nesses casos, faz com que muitos optem pelo caminho mais tranquilo. Ou seja, alienar-se ao desejo do outro.

Seguir por um caminho já traçado, parece ser o mais fácil. Nele corremos menos riscos. Afinal, ele foi projetado por aqueles que vivem repetindo que desejam a nossa felicidade “acima de tudo”.  Como bons meninos(as) seremos admirados e invejados pelos nossos pais e nossos pares. Porém, sentiremo-nos profundamente infelizes e profundamente solitários, apesar de termos feitos todas as concessões para evitar essa dolorosa sensação de abandono.

Maria Holthausen

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A Elegância como Gesto




Acabei de ler um pequeno texto, de 2004, do saudoso Daniel Piza, sobre a elegância. Piza começa o texto afirmando que, nos tempos atuais, a deselegância está na moda. E, porque a moda é a deselegância, costumamos menosprezar a elegância como um atributo de superfície.

Não é nada disso - assegura Piza, sobre o preconceito contemporâneo desse tão saudável e esquecido modo de relacionamento social. A elegância é o reconhecimento de que há potenciais campos de consenso entre os seres humanos e, logo, a forma de busca-los – nem que seja para descartá-los – tem de ser transparente e proporcional.

 A elegância, continua Piza, é um modo de manter a sobriedade sem cair na frieza; de aceitar a complexidade da realidade, mas não se conformar com a pequenez; de ser claro, para resistir tantos aos eufemismos como às hipérboles. É a arte de dizer muito em pouco, de adensar sem adornar, de simplificar para não banalizar. É ser incisivo, sem ser inconsequente. É não pendurar no pescoço uma cartaz que diz ¨Olha como sou fashion!¨, mas também não é ser tão discreto que se fala sozinho.

Esquecidos do valor moral desse modo de relação social, costumamos associar à elegância ao estar bem vestido ou ao estar com o corpo “em forma”. Ou seja, associamos elegância a uma imagem e não a um gesto.   O texto de Daniel Piza nos faz redescobrir a elegância do gesto, do ato, da ação: um modo elegante de se relacionar com o outro.

Um modo de relacionamento onde, por exemplo, a sinceridade não seja sinônimo de agressividade ou depreciação do parceiro. Onde o amor pelo parceiro, ou pelos filhos, não seja sinônimo de posse. Onde a luta pelo espaço profissional leve em conta a condição humana de incompletude.

Ser elegante é antes de tudo saber olhar para o outro com humanidade. E nunca perder a perspectiva que dentro desse caldo chamado “humanidade”, somos todos iguais, porque somos todos mortais.      


Maria Holthausen 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Lei Maria da Penha



Neste mês comemora-se seis anos da Lei Maria da Penha. A lei que criminalizou a violência contra as mulheres. A promulgação da lei foi importante, nem tanto pelos seus efeitos legais, mas por seus efeitos psicológicos na sociedade. Antes dessa lei, percebíamos a violência contra as mulheres como algo comum entre alguns casais. Era, antes de tudo, um problema do casal. Só quando essa violência transformava-se em homicídio é que a justiça entrava em ação.

Sob o efeito da lei, percebe-se que o problema não é do casal, mas da família. Toda a família sofre as consequências desses atos agressivos. Os filhos levarão por toda a vida a memória dessa violência. Os meninos, a partir do exemplo do pai, podem ser tornar adultos violentos. As meninas, num movimento simbiótico com a mãe, procurarão, mesmo sem ter consciência dessa procura, maridos agressivos, repetindo a história da mãe.

Ao perceber que a violência ultrapassa as fronteiras do casal, espalhando seus efeitos por toda a família, as mulheres se sentem mais livres para lutar pelos seus direitos. Antes, era muito comum que a mulher se sentisse responsável pela violência do companheiro. Se ela apanhava era porque, de algum modo, merecia apanhar. Essa culpa causava muita vergonha e ela tinha grande dificuldade em buscar ajuda.

Buscar ajuda não é só ir a uma delegacia fazer um BO. A justiça inibe a violência, mas não resolve a gênese desse comportamento. Comportamentos agressivos são construídos ao longo de uma vida, e não serão resolvidos através da punição judicial. Homens violentos precisam de tratamento psicológico, tanto quanto uma pessoa viciada em droga. 

Por isso, é preciso que as mulheres, parceiras da violência, tenham consciência que a justiça vai ajuda-las no momento de crise. Mas a solução do problema virá através de um trabalho terapêutico. Esse processo pode começar com uma terapia de casal. O terapeuta irá escutar a dinâmica da violência no casal e poderá intervir no sentido de desconstruir essa dinâmica.

A terapia, de casal ou individual, é um processo bem menos doloroso que a prisão. E que, por certo, trará benefícios bem mais profundos para todos os envolvidos.
 
Maria Holthausen

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O Parceiro Narcisista




Pessoas com traços narcisistas dificilmente estão envolvidas com seus parceiros. Embora pareça ao contrário. A princípio, são fáceis de amar porque são muito sedutoras, charmosas e detalhistas. Geralmente são intuitivas, sabem detectar o que agrada o outro e investem sua sedução nestes pontos.

No entanto, à medida que a relação avança, o parceiro começa a perceber que as manobras de sedução escondem uma enorme frieza emocional, uma grande intolerância à crítica e uma necessidade exacerbada de admiração. São exigentes ao extremo. Têm ciúmes de tudo e de todos. São aquelas pessoas que têm ciúmes “até da própria sombra”.

Outra característica importante do narcisista, que o parceiro vai ter que conviver, é a egolatria: sensação de grandeza. Ele sabe tudo: eu sei, eu faço, eu aconteço; são seus mantras. Por consequência, suas necessidades são sempre prioritárias. A necessidade do outro vem depois, ou pior, são desvalorizadas.

Qualquer crítica que se faça a sua conduta responde com fúria cega, porque o outro não reflete o que ele espera. E se o parceiro tenta falar sobre as suas necessidades e frustrações, o narcisista, com sua lógica imbatível, vai levar a discussão por um caminho que lhe seja bastante satisfatório. Afinal, para o narcisista, é o parceiro que deve ajustar suas expectativas na relação. As dele, sempre estiveram muito claras, e são muito justas.

Se você tem um parceiro narcisista, seguramente tem sofrido as consequências da egolatria, e da frieza emocional, dessa pessoa. E se mesmo assim continua na relação, é porque ainda está seduzido pelos traços encantadores desta pessoa. Afinal, nos encantamos com os narcisistas porque, na maioria das vezes, são pessoas muito bonitas. Mantem um cuidado constante com a aparência, e são encantadores socialmente. E, acima de tudo, são pessoas muito seguras e determinadas.

Quem é o parceiro ideal do narcisista? A pessoa que tem dificuldade em ser amada. Por causa dessa característica, ela é muito mais motivada a dar amor do que receber amor. Quando essa dupla se encontra, a química é perfeita: um ama dar amor, o outro, ama ser amado.

Maria Holthausen

domingo, 29 de julho de 2012

Família e Responsabilidade Ética



Já não temos um modelo ideal de casamento, porém ainda temos casamentos. Houve uma época em o modelo ideal era tão consistente que abarcava com seus mitos o vazio e as frustrações entre dois seres. Na época em que o casamento era uma união indissolúvel, por exemplo, a dificuldade da convivência era a consequência de uma escolha com a qual tínhamos que nos responsabilizar.

O mundo anterior do qual estamos nos despedindo, organizava as relações sociais em torno de símbolos maiores: o pai, na família; o chefe, na empresa; e a pátria, na sociedade civil. Medíamos nossa satisfação pela proximidade que conseguíamos do ideal proposto, em cada lugar que ocupávamos ao longo da vida. Para isso seguíamos uma disciplina estabelecida em protocolos e procedimentos. Como o mundo era padronizado, o futuro podia ser previsto. Os pais tinham muito mais segurança na herança moral que transmitiam aos filhos.

Uma vez perdida essas figuras típicas do passado, restam, nas relações afetivas, famílias sem modelos. As familiais contemporâneas ficam órfãs dos seus ideais, reduzindo-se unicamente as contingências do desejo de cada um. Tudo é simultâneo, ou na ordem das preferências pessoais. Pode-se ter filhos aos vinte ou aos quarenta anos. Casar-se quantas vezes quiser, e ter filhos de vários casamentos. As relações homoafetivas adquirem o estatuto de relação estável. Hoje, muitas crianças são criadas por dois “pais” ou “duas mães”. Ou então, por vários pais e mães que vão se sobrepondo um ao outro nas diversas relações do casal. Ou ainda, somente o pai ou somente a mãe.

Porém, não importa como seja constituída a família: por cama, ou proveta; hetero ou homossexual; parceira ou monoparental. A família é a instituição humana que tem a capacidade de fazer com que nos confrontemos com a nossa história singular. É por entre essas relações parentais que construímos nossos desejos mais primários. É dela que recebemos nossa herança genética, cultural e afetiva.

Portanto, mesmo sem um modelo ideal, a família continua com o dever de assumir a responsabilidade ética dessa herança.

Maria Holthausen

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Amamos o que Criamos




Temos usado a expressão “Zona de Conforto” como um conceito valise. Isto é, um tipo de conceito que empregamos nas mais diversas análises comportamentais. Fala-se em zona de conforto profissional, afetiva, intelectual e assim por diante. Sempre que queremos discorrer sobre o comodismo, a falta de iniciativa, o medo de trilhar novos caminhos e o medo de fazer novas escolhas; falamos da dificuldade de sair de uma Zona de Conforto.

Embora seja um perigo usar o mesmo conceito para fazer análise de situações tão diferentes, a noção de “Zona de Conforto” forma uma imagem tão interessante e esclarecedora, que é difícil fugir dela. Por isso, vou usar esse conceito como ponto de partida de uma situação comum aos relacionamentos. Qual seja: a dificuldade para desconstruir a idealização que fizemos da pessoa amada.

A paixão, como qualquer outro sentimento intenso, gera medo. Temos medo do ardor de nosso afeto por uma pessoa que acaba de entrar na nossa vida. Uma pessoa que, até há pouco tempo, era um ilustre desconhecido. Para nos protegermos do medo, começamos a criar uma série de idealizações sobre aquela pessoa. Essas idealizações tem o poder de criar um novo personagem. É como se criássemos um avatar. Não amamos o Pedro, a Maria, o Carlos ou a Matilde; amamos um avatar idealizado dessas pessoas.

Apaixonamo-nos por um ideal criado por nossas próprias fantasias românticas e eróticas. Essa construção psíquica funciona como uma Zona de Conforto. Já que não temos que olhar para a figura amada, como alguém muito diferente de nós mesmos. Afinal, “narciso acha feio tudo o que não é espelho”. E o amor circula no registro do narcisismo.

Assim, quando olhamos para nosso parceiro, vemos a nós mesmos. Vemos o nosso ideal romântico projetado no outro. Essa projeção, que de início nos protege das dificuldades de viver com um estranho, com a convivência diária, vai entrando em conflito. Aí começam as brigas, as queixas e as insatisfações. – Ele, ou ela, não era aquilo que eu pensei, que eu imaginei um dia. Claro que não era.  Não era, não foi e não será.

A desconstrução desse ideal, por um lado, acaba com nossa Zona de Conforto. O que, na maioria das vezes, gera muita decepção. Mas por outro lado, é a chance de aprender a amar a alguém diferente de nós mesmos. Um amor que se sustenta na diferença, e não no espelhamento.

Dá mais trabalho. Mas é um aprendizado importante e enriquecedor.

Maria Holthausen

sábado, 14 de julho de 2012

Uma Cortina de Fumaça




No texto da semana passada, apontamos para dois diferentes modos de vivenciar a sexualidade entre parceiros. O da libido masculina, que é sustentado pela erotização de imagens de diversas figuras femininas. E o da libido feminina, que se sustenta no ideal amoroso projetado no parceiro. Acreditamos que para muitos casais, a consciência dessa diferença pode provocar mudanças e trazer mais satisfação aos pares.

Entretanto, é preciso admitir que, em alguns casos, as inibições sexuais causam dificuldades que não podem ser tão facilmente resolvidas. A gênese dessas inibições não está no relacionamento, mas na construção subjetiva de cada parceiro. E, infelizmente, é a mulher que tem menos facilidade em admitir suas inibições sexuais.

É mais fácil para a mulher esconder-se sobre o manto protetor da figura materna - um lugar que exige muita dedicação e muito pouca erotização - e esquecer-se do seu papel de parceira sexual na vida do homem. Quem irá culpar uma mulher por ser uma mãe dedicada?  Ninguém! Na verdade, quando estamos em frente a uma mãe muito dedicada só podemos fazer elogios. 

Quanto aos seus outros papeis, o da esposa, amante e namorada do pai de seus filhos; só podemos observar em silêncio. Sobre esses outros lugares que a mulher-mãe continua a ocupar, só temos o direito de dar opinião ou de levantar alguma questão com a autorização dela. Essa proteção da intimidade afetiva-sexual, tão comum ao mundo feminino, é um grande obstáculo para o enfrentamento das dificuldades sexuais.

Mesmo com todas as conquistas adquiridas, falar sobre a sexualidade ainda é um tabu para as mulheres. Não é a toa que as conversas francas, sobre a sexualidade, divididas entre as amigas no seriado Sex and the City, foi interpretada por muita gente como um comportamento perverso das personagens. A sexualidade ainda é um tema masculino.

As mulheres fazem sexo, mas não falam sobre isso. O que é uma pena. Pois, chega um tempo em que o marido cansa de reclamar e vai procurar sua satisfação em outro lugar. As amigas, que não sabem de nada, não podem ajudar. Os filhos, que já estão crescidos, não costumam saber como auxiliar. Nesses momentos, a mulher se sente muito sozinha. Muito abandonada. Poucas conseguem juntar forças para procurar uma solução para suas dificuldades. Acabam passando pela vida adulta, usufruindo muito pouco dos prazeres que a sexualidade pode lhes oferecer.

sábado, 7 de julho de 2012

As fantasias sustentam o desejo




É comum ouvir os maridos reclamarem da falta de desejo sexual de suas esposas. Penso que, para alguns homens, essa queixa é uma estratégia para manter a fantasia fálica. Ele atribui à esposa a responsabilidade pelos fracassos de seu próprio desejo. Como a culpa é dela, ele pode continuar pensando que ainda possui o mesmo vigor e desejo da juventude. Um pequeno engodo que faz muito bem ao narcisismo masculino.

Contudo, na maioria dos casos, essa queixa expressa as diferentes trilhas percorridas pela libido masculina e feminina depois do casamento. Para o homem, o desejo tem o direito de continuar livre, leve e solto depois da troca de alianças. Ele pode continuar desejando, seduzindo e fantasiando com outras mulheres. Mesmo quando ele é fiel, quando esses comportamentos são usados, apenas, para manter as fantasias libidinais que sustentam o desejo.
 
Para um grande número de mulheres, a libido, depois do casamento, percorre um caminho muito mais árido. A sociedade cobra delas, assim como elas cobram de si mesmas, que todas as suas fantasias eróticas tenham como personagem central o marido. É muito difícil encontrar numa roda de amigos, uma mulher casada fazendo jogos de sedução com os parceiros que a rodeiam.

Essa trilha de mão única, que percorre a libido feminina depois do casamento, pode ser algo que o homem espera que aconteça.  Mas nem sempre ele sabe o que fazer com isso.

Por ter menos fantasias eróticas, a mulher necessita de mais contato físico para se sentir erotizada. Ela precisa ser seduzida com olhares, carinhos, beijos e palavras românticas. Necessidades que os homens teimam em não reconhecer. Afinal, isso dá trabalho, exige tempo de dedicação e coragem para mudar certas atitudes que não correspondem às expectativas da parceira.

Acredito que para muitos casais, a consciência dessa diferença e a mudança de atitude masculina resolveriam grande parte das queixas. Mas, para eles, é bem mais fácil continuar com o mesmo padrão de comportamento e, depois, reclamar da falta da libido feminina. Ou pior, dizer que é ela – a esposa – que tem problemas com a sua sexualidade. Culpa que muitas mulheres carregam a vida toda. Principalmente aquelas que tiveram poucas experiências sexuais antes do casamento.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O Mistério Feminino



Capitu nasceu no final do século XIX. É inteligente, bonita e esperta. Uma garota humilde, mas avançada e independente, muito diferente da mulher vista como modelo pela sociedade patriarcal daquela época. Como uma das principais personagens da nossa literatura, Capitu será eterna. Assim como serão eternas as discussões de um dos temas preferidos dessa trama machadiana: Capitu traiu ou não seu marido Bento Santiago, o Bentinho?

Na época de seu lançamento o romance era visto como o relato inquestionável de uma situação de adultério, do ponto de vista do marido traído. Afinal, é o marido, Bentinho, o narrador da história. É sob o olhar desse homem apaixonado que a trama se desenrola.  

Depois dos anos 1960, quando questões relativas aos direitos da mulher assumiram importância maior em todo o mundo, surgiram interpretações que indicavam outra possibilidade: a de que a narrativa pudesse ser expressão de um ciúme doentio, que cega o narrador e o faz conceber uma situação imaginária de traição.

No entanto, mesmo sobre a perspectiva de novos valores, a dúvida continua.  Esta persistente incógnita nos provoca a olhar com mais atenção para a construção psicológica dessa personagem. E então, nos deparamos com uma característica fundamental dessa mulher: Capitu é uma mulher misteriosa, enigmática, inexplicável. Seu comportamento, suas atitudes e suas falas quase sempre não nos permitem entrever sua interioridade. Aquilo que ela pensa permanece recluso dentro dela, e podemos apenas fazer suposições a respeito.

A complexidade dessa personagem. Seus mistérios.  A falta de transparência mantém a eterna dúvida sobre a sua possível traição. O que quer essa mulher? – podemos perguntar. Betinho não sabia, assim como nós continuamos a não saber. Ela era capaz de trair? Era. Ela traiu? Nunca vamos saber.

O enigma feminino é algo que perturba profundamente os homens. Freud foi um dos primeiros a confessar. Em um mundo em que a transparência é a lei, o mistério causa angústia. Superfícies transparentes acalmam, as opacas exigem mais cuidados e atenção. É mais fácil à convivência com mulheres com estruturas psíquicas simples. Seus interesses e valores mudam muito pouco ao longo da vida. Podem dizer tudo o que pensam, porque pensam muito pouco. Como discos furados, repetem sempre o mesmo discurso. Dificilmente saem da zona de conforto que constroem em torno de si.

Por outro lado, as “Capitus” jamais se revelaram por inteiro. Por não terem uma visão maniqueísta da vida, o mistério e o enigma fazem parte de seu modo de ser. Por isso mesmo, exigem muito mais atenção e coragem de seus parceiros. Homens sem coragem e sem interesse por esse tipo de mulher costumam chamá-las de dissimuladas. Um valor moral negativo, que esconde o medo de ser surpreendido pelo Outro.