quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

ABC da Violência



Algumas vezes, a violência contra a mulher começa muito cedo, ainda no período de namoro. A tendência é que quando a magia da paixão se extingue, inicie o amor. No entanto, em certos casos, não é o amor que toma o lugar da paixão, mas a dependência.

A princípio a dependência é encantadora: “Ele não faz nada sozinho.” – reclama a garota com um brilho de satisfação nos olhos. “Ele me controla o tempo todo.“ “Ele briga comigo, diz que não dá para continuar, mas no dia seguinte me liga desesperado pedindo para volta.” Essas são as pequenas queixas que indicam o processo da dependência.

Alguns outros “maus comportamentos” do namorado dependente nem são mencionados, já que eles despertam vergonha, pois indicam claramente o quanto a dependência pode ser opressiva. Entre eles, podemos suspeitar das pequenas agressões físicas: beliscar, empurrar, arranhar. Do ciúme possessivo: não deixa a namorada sair sozinha, nem com as amigas. Controla todos os movimentos dela, pergunta constantemente onde esteve e com quem esteve. Quer saber de todos os detalhes e questiona todas as decisões tomadas por ela. Esse interrogatório, é claro, funciona na lógica da tortura: Cada resposta que ela dá é questionada, criando uma incerteza que é interpretada, por ele, como falta de consistência. E, portanto, como possível mentira.

Já que ela não sabe o que quer, ele começa a tomar todas as decisões e a não valorizar as opiniões dela. Essa falta de valorização leva, muito facilmente, a humilhação. Ele começa a fazer comentários depreciativos dela na frente dos amigos. Às vezes, num tom de “brincadeira”: Piadinhas e comparações negativas. Se ela retruca o comentário, ele responde que ela não tem humor, não sabe brincar.

Se ela enfrenta as certezas dele, ele se torna violento. Assustada, na maioria das vezes, ela recua com medo da agressividade. Ainda assim, ela será culpada pela reação violenta dele. Com frequência, nestes momentos de muita raiva, ele diz que vai embora. Que quer terminar a relação. Se ela permite, no dia seguinte ele volta pedindo desculpas e prometendo mudanças. Se ela aceita as desculpas, inicia-se uma “fase de lua de mel”. Ele se torna uma pessoa amorosa e cordata, tudo o que ela sonhava. Mas, isso não dura muito tempo. Logo em seguida todo o processo de degradação da parceira volta a predominar no comportamento dele.

A dependência se parece com amor, mas não é amor. Imagine um dependente de droga. Ele precisa dela para continuar vivendo. Ele é capaz de fazer muitas “loucuras” para consegui-la, mas ele não a ama. Não é algo sobre o qual ele fala com prazer e orgulho. Na verdade, a dependência é um processo tão tirânico que a maioria das pessoas não admite que sejam dependentes. A dependência transforma o “eu” em objeto de uma vontade sobre a qual o sujeito não tem nenhum controle. E isso gera muita frustração, muita raiva.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A virada dos anos 60: Uma nova feminilidade



Até a década de 50, do século passado, o código moral ocidental dividiu as mulheres em dois grupos: as “santas” e as “vagabundas”. Hollywood representou essa dualidade em maravilhosas personagens que transcenderam as telas.

Marilyn Monroe interpretou no cinema, e na vida real, a loura fatal. Embora suas personagens na ficção cinematográfica mais insinuassem do que vivessem a sexualidade, na mídia foi constantemente promovida como “A” mulher fatal. Marilyn representava o papel da mulher devoradora de homens, que nenhuma esposa gostaria de ver perto de seu marido. Amiguinha de políticos influentes, a loura era desejada por todos os homens, mas nenhum filho pensaria em apresentar a sua mãe uma namorada com aquele perfil.

O perfil da “mulher santa” e boazinha, ideal para levar ao altar, também ganhou suas musas. Grace Kelly e Doris Day interpretaram com maestria esse tipo de mulher. Grace Kelly, com sua majestosa beleza, teve a chance de mostrar o quanto a vida pode ser boa e feliz para as mulheres lindas e boazinhas. O seu casamento real, em Mônaco, foi um verdadeiro conto de fadas, que mesmo a morte trágica da atriz não conseguiu apagar.

Já Doris Day representava a esposa que todo homem gostaria de ter. Não tão bonita quanto às duas primeiras, fazia o tipo engraçada, compreensiva e meio bobinha. Usava avental, mas mantinha-se sempre elegante. Seu guarda roupa era bem básico, nada parecido com os de Grace Kelly, claro. Afinal, uma boa esposa da classe média não deveria gastar o dinheiro do marido com excesso de luxo. Boas esposas deveriam ser econômicas.

Imagem cultuada da moral da boa moça, as personagens de Doris mantinham a virgindade como regra fundamental. Os homens poderiam perdoar os caprichos, a falta de beleza e de conhecimento das suas futuras esposas, mas jamais, em hipótese alguma, a falta da virgindade. Para se casar, uma moça tinha que ser virgem. O mantra que toda a mãe repetia insistentemente para as suas filhas era: “Se for até o fim, não tem volta. Nunca”.

Na década seguinte, anos 60, esses valores começam a mudar. A dualidade se desfaz, entram em cena novos perfis de conduta feminina. Nas telas de Hollywood essa mudança foi muito bem representada pela personagem Holly Golightly, vivida por Audrey Heprburn, no filme Bonequinha de Luxo. Holly transgredia todas as boas regras moral, mas Holly não era uma vagabunda, era uma excêntrica.

Ela fazia o que queria e dizia o que queria. A independência era a força central de sua vida. Seu verdadeiro desejo. Aqui é preciso fazer uma ressalva para lembrar que a Holly original, independente e extremamente avançada para sua época, é a personagem de Truman Capote, cujo livro Bonequinha de Luxo, foi adaptado para o cinema.

Mas, mesmo com as pinceladas de doçura acrescentada pelo roteiro do filme, Holly, com seu pretinho básico, representou uma nova imagem do feminino. Ela criou um novo perfil moral para as mulheres. Nesse novo perfil, morar sozinha, sair, andar linda e ficar um pouco bêbada não era mais tão ruim.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Homem ou Mulher?


Há três anos, Laerte, 60, cartunista da Folha, usa roupas femininas e maquiagem em seu dia a dia. Na terça retrasada, pelo protesto de uma cliente que o reconheceu como Laerte (e, portanto, como homem), ele foi proibido de ter acesso ao banheiro feminino de uma pizzaria paulistana.

Quem está certo, Laerte ou a cliente que protestou? A questão é, no mínimo, complexa.

Em regra, na nossa cultura, na hora de usar um banheiro público, a gente se divide em HOMENS e MULHERES. Por quê? Perguntei ao meu redor e obtive dois tipos de respostas.

1) Na hora em que nos dedicamos a funções que são naturais, mas das quais nos envergonhamos, é mais confortável saber que não seremos objetos de desejo sexual.

Problema: segundo esse princípio, os homossexuais masculinos deveriam frequentar os banheiros femininos e vice-versa. E os bissexuais fariam xixi em qual banheiro?

2) A divisão dos banheiros públicos não teria a ver com o sexo, mas com o gênero. Seja qual for o objeto de nosso desejo, na hora de exercer as funções excretórias, preferiríamos estar entre pessoas com uma anatomia igual à nossa. Nesse caso, Laerte, que só se veste de mulher, não poderia usar o banheiro feminino.

Problema: o que aconteceria com um(a) travesti ou com um(a) transexual, ou seja, com alguém que transforma seu corpo até encarnar o gênero oposto? Yasmin Lee, Lea T ou um transexual de mulher para homem iriam para qual banheiro?

Simplificando ao máximo, na esperança de esclarecer:

"Cross-dresser" é quem gosta de se vestir com roupas do outro sexo - ocasionalmente ou, como Laerte, o tempo inteiro. Isso não implica uma preferência sexual específica. Muitos "cross-dressers" masculinos desejam só mulheres. Outros se mantêm castos, porque seu único prazer está no fato de habitar, por assim dizer, a pele do outro gênero.

"Travesti" implica uma transformação do corpo (hormônios, implantes) e a presença de uma fantasia sexual, que é diferente para cada um, mas na qual a "ambiguidade" do travesti funciona como um fetiche (para ele mesmo e para os outros).

Ser "transgênero" ou "transexual" significa ter a clara sensação de que seu corpo é inconciliável com seu sentimento profundo de identidade: você nasceu num corpo errado, que você odeia, sobretudo a partir da puberdade, quando ele desenvolve seus atributos de gênero. Os primeiros capítulos do livro de João Nery, "Viagem Solitária, Memórias de um Transexual 30 Anos Depois" (Leya), são perfeitos para entender o drama de quem descobre que ele discorda de seu próprio corpo.

A condição de transexual é independente de orientação ou preferência sexuais. Posso nascer num corpo de mulher e desejar homens, mas viver esse corpo como uma prisão e querer (ou melhor, precisar) me tornar homem; mudando de gênero, continuarei desejando homens. No fim, nascido mulher, eu me tornarei homem homossexual. Só para atrapalhar: qual banheiro frequentarei?

Na realidade complexa (e confusa) de sexo, gênero e orientação sexual, as categorias que descrevi se misturam e não designam destinos - ainda menos destinos claramente reconhecíveis desde a infância.

No lindo, delicado (e imperdível) filme de Céline Sciamma, "Tomboy" (maria-rapaz), a jovem Laura (extraordinária Zoé Héran) se vale de sua bonita figura andrógina (a puberdade ainda não chegou) para passar por menino entre seus novos amigos.

No fim, o espectador decide: o que foi que a gente viu? O começo de um mal-estar transexual? O nascimento de uma homossexualidade? Ou apenas a brincadeira de um verão, que permanecerá como uma lembrança divertida num futuro heterossexual e sem incertezas? Não sabemos e, de fato, nada permite dizer.

Aos nove anos, a menina que seria João Nery foi levada a uma terapeuta. A razão era que ela agia e pensava como um menino, e a mãe gostaria que lhe explicassem o porquê dessa conduta e lhe dissessem como ela deveria se comportar diante disso.

Nery escreve: "O diagnóstico indicou que era fixado no meu pai, com uma necessidade de imitá-lo por ser a filha do meio. Assim, tentava me sobressair para ter mais atenção e afeto. Minha mãe não deveria me forçar, impingindo-me roupas femininas ou coisas do gênero, pois tudo passaria com a idade".

Com a idade, nada passou. A terapeuta se enganou? Não exatamente: ela não tinha mesmo como saber.

Cortado Calligaris – Folha de São Paulo – 02/02/2012

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Sobre o viver e o morrer


A cultura ocidental ainda nega amplamente a morte. Até as pessoas idosas procuram não falar ou pensar na morte, e os corpos dos mortos são mantidos a distancia. Uma cultura que nega a morte torna-se inevitavelmente superficial, preocupada, apenas com a aparência das coisas. Quando se nega a morte, a vida perde a profundidade. A possibilidade de saber quem somos
para além do nome e da forma física - a nossa dimensão transcendental- desaparece, pois a morte é a abertura para essa dimensão.

Eckhart Tolle

 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

COMO É SEU PARCEIRO IDEAL?



Como é seu parceiro ideal? Qual o tipo de homem que você procura? Essas perguntas ressoam por aí. Desde o bate papo entre amigas, não importa a idade; até as entrevistas dos “caderno de comportamento” da mídia escrita. Afinal, se ainda não encontrei o “amor de minha vida”, “minha cara metade” tento me convencer que estou procurando. E que sei muito bem o que estou procurando.

Sabemos que há uma enorme diferença entre querer e desejar. Algumas coisas são colocadas no campo do querer, outras no campo do desejo. Quando dizemos: Eu quero um namorado. Estamos conscientes desse “querer”. Sentimos necessidade de ter alguém e por isso vamos à luta para encontrá-lo. Neste campo do querer – da consciência ou do “eu” -, dispomos de uma lista enorme de qualidades que queremos encontrar num parceiro.

“Eu quero” um homem gentil e engraçado. Alguém que me faça rir, um parceiro de festas. “Eu quero” um homem que seja independente financeiramente. Que não dependa de mim, nem dos pais para pagar suas contas. “Eu quero” um homem que goste de animais. Ou ao menos, que respeite minha luta na defesa dos animais. “Eu quero” alguém que não trabalhe o tempo todo. Que tenha tempo para curtir a vida. Essas são algumas das “qualidades” do homem ideal para a maioria das mulheres.

Mas o amor não está no campo do querer. Ele é da ordem do desejo, que é inconsciente e, portanto, contingente. Eu não encontro o amor da minha vida porque “quero” encontrar. Assim como encontro o vestido para formatura, ou para as festas de final de ano. O homem que vai mexer com a minha libido e com as minhas fantasias mais primaria, aparece de repente. E pode ter, ou não, algumas daquelas características do homem ideal que eu costumava relacionar.

Sim, ele é o homem ideal. Mas de uma idealidade que desconheço totalmente. Ele tem traços de uma idealidade que geralmente não confesso nem para mim mesma. Por isso, o amor é uma incógnita. Por esse motivo, os poetas podem dizer: O amor tem razões que a própria razão desconhece.

sábado, 24 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL ! ! ! !



feliz natal ! ! 

merry christmas ! ! !

frohe weihnachten ! ! !





domingo, 18 de dezembro de 2011

A Sexualidade Masculina






As mulheres podem fingir ter um orgasmo com facilidade. A anatomia feminina facilita. Para os homens, como o orgasmo é, quase sempre, acompanhado pela ejaculação; dificilmente eles conseguem fingir que seu desempenho foi satisfatório ou prazeroso, quando isso verdadeiramente não aconteceu.

Portanto, para eles qualquer dificuldade em manter uma ereção ou chegar ao orgasmo é acompanhada de uma terrível frustração. Poucos homens admitem com facilidade seus fracassos entre os lençóis. Afinal, é sua masculinidade que está em jogo nesse momento, conforme pensa a maioria. Mas, será que é mesmo?

Segundo Freud, a sexualidade humana não tem nada de natural. Ela é construída socialmente. Nossas crenças a respeito da sexualidade nos são apresentadas como fundadas em “fatos evidentes por si mesmos”. Como “algo intuitivo”, e, portanto, como algo universalmente válido para todo sujeito, em qualquer circunstância espaço-temporal.

Ou seja, a ideia de que ser um homem másculo é ser um homem sempre potente sexualmente, é imposta à criança desde os seus primeiros anos de vida. Ela já vem pronta no discurso dos pais, que por sua vez, repetem o discurso social vigente. Numa sociedade em que o discurso falocrático é o discurso dominante, o falo – no ato sexual representado pelo pênis - não pode falhar.

A falha, no momento do ato sexual, é sentida como castração. E, quem gosta de mostrar-se castrado? Qual homem que, de bom grado, quer mostrar sua “suposta” impotência perante uma mulher? Quando isso acontece sua imagem narcísica é turvada. Sua autoestima é sugada pela frustração.

Alguns se defendem fazendo piadas, ironizando a situação. Outros culpam a parceira de forma brutal. Outros ainda, só querem desaparecer. Nada querem saber sobre o que aconteceu: não querem falar. Mas, não importa qual é a reação de um homem nesse momento, seu sentimento é sempre de tristeza, frustração e raiva. Sentimentos que podem fragilizar alguns homens de maneira aterradora, mesmo quando seu desempenho é satisfatório na maioria das vezes.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As misérias da felicidade


"Sem muito mais em que basear a ansiada segurança de sua posição social, ressoando como autoconfiança e auto-estima, exceto os ativos pessoas de propriedade pessoal ou a serem adquiridos pessoalmente, não admira que as demandas por reconhecimento, como diz Jean-Claude Kaufmann, "inundem a sociedade". "Todo mundo busca ansiosamente a aprovação, a admiração ou o amor nos olhos dos outros." E observamos que as bases para a auto-estima fornecidas pela "aprovação e admiração" de outros são notoriamente frágeis. Como se sabe, os olhos se movem, e as coisas sobre as quais eles recaem ou pela quais deslizam são conhecidas por sua propensão a virar e revirar de maneiras impossíveis de prever, de modo que o impulso e compulsão de "observar atentamente" na verdade nunca cessam. O calor da vigilância atual pode muito bem transformar a aprovação e aclamação de ontem na condenação e no ridículo de amanhã. O reconhecimento é como o falso coelho numa caçada: sempre perseguido pelos cães, jamais preso em suas mandíbulas."

De Zygmunt Bauman, em A arte da Vida.


domingo, 11 de dezembro de 2011

O Difícil Gesto de Terminar



Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era prá sempre
Sem saber
Que o pra sempre
Sempre acaba...

Nesses versos, o poeta nos ensina que as paixões não são eternas. Na maioria das vezes, o destino das paixões, quando a relação persiste no tempo, é transformar-se em amor, e isso é bastante diferente. Mas, algumas vezes, o fogo da paixão se apaga completamente. O olhar do amante perde todo o brilho, o amado parece ficar invisível.

Nesses momentos, só resta ter forças para iniciar o processo de separação. Saída digna, para o final de uma paixão verdadeira. Mas, não é fácil se separar. Mesmo quando se tem certeza que esta seria a atitude mais coerente para o enredo. Mesmo quando a convivência foi lavada pelas cores desbotadas da apatia, ou as cores frias da indiferença ou, quem sabe, das cores negras do rancor.

Separação dói. Não importa o quanto estamos certos dessa escolha. A perspectiva de ficar sozinho, depois de um longo tempo dividindo nossa intimidade com outra pessoa, gera medo, ansiedade e raiva. Três sentimentos difíceis de admitir, porque nunca aprendemos muito bem a lidar com eles.

A raiva que sentimos e que dificilmente admitimos projetamos sobre o parceiro, culpando-o pelo fracasso da relação. Nesse movimento, ficamos no lugar de vítima. Por lado, a ansiedade costuma produzir indecisão. Se persistirmos na relação, sentimo-nos débeis e frustrados; mas se sairmos, podemos nos arrepender. E, por fim, o medo. Medo de recomeçar. Medo de aceitar que poderemos ficar por um longo tempo tendo só a nós mesmos por companhia. Medo de admitir o desejo por outro modo de vida.

Por não ter coragem para enfrentar essa verdadeira batalha de afetos, muitas pessoas preferem manter-se em relações que já não produzem nenhum prazer. Relações Ocas – segundo um outro poeta - onde tudo tem um preço, mais nada tem valor.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sexualidade e Qualidade de Vida


Como todo comportamento humano, a sexualidade é constituída pelos padrões culturais de um grupo social, num certo período de tempo. Sabemos, por exemplo, das mudanças que a pílula anticoncepcional provocou nos padrões da sexualidade feminina. Antes do advento da pílula, o risco de engravidar era um forte elemento de repressão do desejo erótico. Esse evento, oportunizado pela ciência médica, demonstra que o prazer sexual, na espécie humana, só é possível se incluir a volúpia em corpos libertos das determinações da natureza.

Por estar constituída dentro do discurso, mais do que da natureza, a sexualidade humana, evidentemente, sofre interferências do grau de informação ou desinformação adquirida nas diversas formas de educação deste tema. Desde a repressão mais direta, a que as manifestações da sexualidade são submetidas no campo familiar, ao mergulho nos tabus, preconceitos, medos e superstições dos discursos moralizantes da escola e da igreja; cada sujeito carrega na própria carne as delícias e as dores de seu erotismo.

Sob essa perspectiva, podemos afiançar que padrões econômicos e qualidade de vida também influenciam a satisfação do prazer. Para ter prazer precisamos estar com nossas necessidades básicas razoavelmente atendidas. Períodos muito tensos, ou angustiantes, não propiciam o abandono necessário ao prazer.

A lógica da produtividade, desempenho e eficiência a que somos submetidos diariamente, quando levada para cama gera grandes desastres. Aumenta a “ansiedade de desempenho” entre as pessoas que se julgam liberadas para desfrutar o sexo, e aumenta as probabilidades de fracasso entre os lençóis: não obtenção de ereção e/ou orgasmo. Da mesma forma, o aumento da autovigilância colabora para inibir todos os sentidos possíveis do prazer.

O que nos leva a apostar que a vida sexual insatisfatória, queixa de um grande número de adultos, na maioria dos casos é consequência direta da miséria de sua qualidade de vida. E que tomar consciência dessa realidade é dar início a novo modo de se relacionar com o prazer.



domingo, 27 de novembro de 2011

“Paz e Amor”: O sonho de uma geração.



Minha geração sonhou mudar o mundo. Mergulhados em novos clichês ideológicos – constituídos, principalmente, pelas teorias psicanalítica e marxista - fomos para as ruas exigir a inscrição de novos valores sociais. Lutamos bravamente pelo direito de sonhar com uma sociedade livre dos valores “burgueses”. Questionamos as várias teses da velha ideologia burguesa que afirmava, por exemplo, que a maternidade era um instinto “natural” das mulheres.

Lemos Freud e Marx – este último sempre escondido, seus textos foram proibidos na época da ditadura - acompanhamos, com fé cega, as dezenas de autores, cineasta e analistas sociais que reverberavam a crítica da ideologia burguesa, iniciada no final do século XIX, por esses dois grandes contraventores da ordem estabelecida.

Nosso maior alvo era a família, núcleo fundamental para a disseminação dos valores bolorentos da burguesia. Acreditávamos que a essência das mudanças aconteceria no núcleo familiar. Na busca de novas formas de união, criamos comunidade hippies e anarquistas, aonde a liberdade das relações afetivas ia de encontro aos vínculos, que considerávamos opressores, do casamento burguês oficializado pela igreja católica e respaldado pelo código civil que delegava todos os direitos à representação paterna.

Nossa esperança era a de que as novas gerações – nossos filhos – estariam livres da “opressão” dos valores familiares. E que os grupos sociais que se formariam, na esteira da afirmação das diferenças, como os homossexuais, seriam fundamentais para a invenção de novas formas de prazer. Prazeres que a família burguesa nunca antes sonhara.

Nossos sonhos não se realizaram, mais nossa luta provocou muitas mudanças. Hoje, os valores familiares não são mais aqueles das décadas de 60 e 70, do século passado. A família constituída pelo “pátrio poder” agoniza nos rincões evangelizados dos pequenos grupos. Para o espanto de muita gente da minha geração, os jovens homossexuais exigem o direito de constituir uma família. E, perplexos, constatamos que a exigência deste direito tem um efeito de mudança, no conceito de família, muito maior do que aquele que sonhamos um dia.



domingo, 20 de novembro de 2011

Síndrome de Shrek

Shrek é um ogro feliz. Apaixonou-se pela jovem princesa e foi correspondido. Casou-se com ela, teve três filhos adoráveis e continuou mantendo os laços de amizade com os companheiros de aventuras da época de solteiro. Shrek realizou seu conto de fadas. Conquistou uma vida afetiva sólida, tornou-se um ogro respeitável e nada assustador.

Um belo dia, Shrek se da conta da rotina sem graça que tomou conta de sua vida. Seu dia-a-dia tornou-se uma sucessão de compromissos que precisavam ser cumpridos para manter o bem-estar da família. A vida tinha perdido o encanto, as obrigações roubaram-lhe o brilho da felicidade. Mergulhado no marasmo das repetições cotidianas, passa a encantar-se com as memórias da época em que era um ogro assustador e livre. Lembranças antigas das aventuras que o faziam sentir-se um “ogro de verdade”.

A frustração desperta um sentimento de raiva que o ogro acaba projetando na mulher e nos filhos. Culpa a família pelo seu mal estar e melancolia. Nesse momento, surge um personagem que lhe oferece a oportunidade mágica de fugir do cotidiano por um dia. Claro que a ideia é encantadora. Por um dia poder voltar ao passado, viver sem o peso das obrigações. Sherk não resiste, aceita a proposta, embalado pela perspectiva de recuperar a sua liberdade. Entusiasmado, não percebe o logro da proposta.

Essa sensação de frustração causada pelas memórias de um tempo para sempre perdido, tão bem representada nessa fábula contemporânea, não tem nada de estranho, ou excepcional. Todo ser humano, em algum momento de sua vida, será tomado por ela. Não tem nada haver com a consciência de ter cometido um erro, ou a decepção de descobrir que o amor acabou.

Como Sherk, sentimos que continuamos a amar os nossos parceiros, mas esse amor já não tem mais o brilho que costumava ter. A vida parece ter paralisado. Não conseguimos vislumbrar nenhum sinal de mudança. Surge uma enorme necessidade de partir, dar um tempo, terminar com o comodismo a sair em busca de novos sonhos. É claro que o parceiro, assim como Fiona, não entende nada do que está acontecendo, e por isso sofre. Esse sofrimento nos causa culpa. A culpa aumenta o mal estar.

Na maioria das vezes, largamos tudo. Fazemos as malas e partimos em busca de novas aventuras. Esta decisão, mesmo acompanhada de muito medo, é a mais comum, e, penso, a mais ética com o parceiro. Mesmo que de início lhe cause muita dor. Em muitos casos, assim como na fábula do ogro, depois de certo tempo voltamos a querer conquistar o parceiro abandonado. O amor, antes adormecido, ganha novo brilho.

Outras vezes, fugimos do marasmo pela via da infidelidade. Um olhar de desejo lançado em nossa direção faz surgir à esperança de uma nova felicidade e de novas aventuras. Mas, se o que estamos sentindo é só um “momento sherk”, essa nova aventura vai durar pouco tempo. Ela terá a função de acordar sentimentos adormecidos.