terça-feira, 10 de maio de 2011

Eu-te-amo: uma palavra ou um grito?



Eu-te-amo não tem empregos. Essa palavra, tanto quanto a de uma criança, não está submetida a nenhuma imposição social; pode ser uma palavra sublime, solene, frívola, pode ser uma palavra erótica, pornográfica. É uma palavra que se desloca socialmente.

Eu-te-amo não tem nuances. Dispensa as explicações, as organizações, os graus, os escrúpulos. De uma certa forma – paradoxo da linguagem -, dizer eu-te-amo é fazer como se não existisse nenhum teatro da fala, e é uma palavra sempre verdadeira (não tem outro referente a não ser seu proferimento: é um performativo)

Eu-te-amo não tem distanciamento. É a palavra da díade (maternal, apaixonada); nela, nenhuma distância, nenhuma deformação vem clivar o signo; não é metáfora de nada.

Eu-te-amo não é uma frase: não transmite um sentido, mas se prende a uma situação limite: “aquela em que o sujeito está suspenso numa ligação especular com o outro.” É uma holofrase.

(Embora seja dito milhões de vezes, eu-te-amo não está no dicionário; é uma figura cuja definição não pode exceder o título.)


Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu amor”



Consideramos que as pessoas se unem por amor e se separam por ódio. Mas nem sempre é assim. O ódio, algumas vezes, tem o poder de unir. E quando o ódio une duas pessoas, é essencial permanecer o mais próximo possível porque, de outra forma, há um sério risco de que o outro deixe de botar lenha nessa fogueira.

Quem nunca escutou um conhecido declarar solenemente: Nossa vida é um inferno, a gente não se entende, mas ficamos juntos porque nos amamos. Será que isso é amor? O psicanalista francês, Jacques Lacan, criou uma palavra para designar esse tipo de relação afetiva: ele chamou de “amódio”. Nela, o casal ama o ódio que os une.

Talvez, mais grave ainda, sejam os casos de união pelo ódio nos casais que se separam judicialmente. Na maioria das vezes, naqueles casais em que um dos parceiros ficou muito ressentido pela escolha do outro. Lembramos que ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo nosso sofrimento. Um outro a quem designamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo de todos os fracassos que possam ocorrer no futuro.

Esses casais, embora separados, encontram mil desculpas para continuar morando muito perto um do outro, ou seja, não se separam. Não dividem mais a mesma cama, nem o mesmo tempo, mas estão próximos o suficiente para que um não permita que o outro viva em paz. Não quero dizer que toda separação de corpos exija uma separação geográfica. Quando a decisão da separação é uma responsabilidade assumida pelos dois, a dor também é dividida igualmente: ninguém se sente vítima. Neste caso, o casal vai se afastando conforme vai reconstruindo sua vida.

Porém, quando a separação é considerada uma traição, seja ela real ou ilusória, aquele que se sente ressentido não pode permitir que o outro seja feliz Aí, nesses casos, a vingança se torna um projeto de vida. Por não poder perdoar a dor que o outro me causou, vou viver a minha vida com um único objetivo: causar a dor no meu algoz. As conseqüências dessa escolha são sempre desastrosas. Em primeiro lugar, porque dificilmente é uma escolha consciente. Dificilmente a pessoa ressentida assume o seu desejo de vingança. Se assumisse, provavelmente, depois de alcançado o objetivo seguiria com a sua vida tendo que se responsabilizar por seus atos. Em segundo lugar, quando têm filhos, colocam os filhos no meio do fogo cruzado, causando-lhes muitos sofrimentos. E, finalmente, porque acabam com qualquer chance de construir uma vida melhor, mais saudável e, por que não, mais feliz.

domingo, 24 de abril de 2011

A arte da convivência com o outro



Elas são jovens, bonitas, inteligente, articuladas profissionalmente; mas fracassadas no amor. A cada dia é mais fácil encontrar mulheres dentro desse estereótipo. E o que é mais difícil de compreender, elas dão pouquíssimo valor a tantas características positivas, já que a frustração amorosa tende a coibir o sentimento prazeroso do sucesso.

Algumas até tem consciência que no campo profissional se saem muito bem. Mas essa consciência não é o suficiente para produzir bem estar emocional. O sentimento de solidão turva a imagem narcísica. Queixam-se dos insucessos afetivos, das relações fracassadas e dos desencontros amorosos.

Vivem cheias de medo. Medo da solidão. Medo de passar a época “ideal” de ter filhos. Medo de sair sozinha para se divertir. Medo de ficar sozinha para sempre. Medos que, como todos os medos, criam ansiedades, inibições e geram comportamentos defensivos.

Tornam-se mulheres magoadas, irritadas e frustradas com a vida. Esquecem que se relacionar é dar e receber ao mesmo tempo, é abrir-se para o novo, é aceitar e fazer-se aceito, buscar ser entendido e entender o outro. Quem, realmente, quer dividir a vida com outra pessoa precisa aprender a diminuir a carga imaginária dos medos.

Precisa aprender a correr os riscos da relação afetiva e a conhecer os seus limites para poder lidar com os limites do outro. Precisa aprender a gostar de dividir o seu espaço com outro e a escutar sem fazer julgamentos precipitados. Pois, a compreensão do outro inclui saber reconhecer e determinar as diferenças que existem naturalmente entre as pessoas, incluindo as experiências pessoais. E, finalmente, precisa ter consciência que se amor é um sentimento gratuito, a vivência amorosa exige um grande investimento emocional.

sábado, 23 de abril de 2011

FELIZ PASCOA



"Ou aparecerá um novo homem, um cidadão do mundo, ou a humanidade estará ameaçada. Devemos estabelecer a paz entre nós para salvagadar o mundo e a paz com o mundo para nos salvar."

terça-feira, 19 de abril de 2011

Erotomania: quando o amor incomoda.


Imagine que você não consiga pensar em nada que não tenha relação com determinada pessoa. Seu desejo e desespero são tão intensos que se aproximam da dor física. A ausência do ser amado o conduz a escrever dezenas de mensagens e a ligar para o seu número várias vezes ao dia. Por vezes, sentindo que está abandonado ou que ninguém dá atenção à sua dor, é compreensível que surjam ódio e planos de vingança. Em princípio, isso pode parecer apenas sinal de um comportamento irracional demonstrado por uma pessoa apaixonada que não é correspondida. Algo que, de acordo com senso comum, vai passar com o tempo. Mas, e se esses sentimentos e comportamentos persistirem? E se as tentativas de participar da vida do ser amado se tornar cada vez mais exageradas e agressivas?

O fenômeno da perseguição excessiva ganhou atenção da mídia nos últimos anos, devido ao fim trágico de vários casos. Psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, porém, conhecem essa ameaça há mais tempo. Nos primeiros anos do século XX, Freud já escrevia sobre esse tema e o circunscrevia dentro de um caso de psicose paranóica: O caso Schreber. Nos anos 80, a erotomania foi classificada como distúrbio psíquico pela psiquiatria. No “delírio erotomaníaco” parte-se do princípio de que se é amado pela outra pessoa, mesmo que não haja nenhum motivo que leve a essa conclusão.

O esforço incessante de entrar em contato com alguém é considerado uma das principais características da erotomania. Mesmo diante da rejeição explícita, a pessoa insiste na aproximação: seja por telefone, bilhetes, e-mail ou diretamente. Alguns enviam presentes ou objetos bizarros, às vezes assustadores, como colagens de fotos com caveiras no lugar dos rostos. Alguns se tornam agressivos, podendo voltar-se violentamente contra a vítima, seus parentes próximos ou conhecidos ou mesmo seu animal de estimação.

Quem está mergulhado no delírio erotomaníaco sofre pelas exigências irracionais que esse processo produz. Nada pode satisfazer uma demanda delirante de amor. Por outro lado, quem se torna objeto desse delírio tem sua vida suspensa, amputada pelo horror das constantes ameaças. Na maioria das vezes, é obrigada a lidar com seu torturador no dia a dia. Se o telefone toca, pensa automaticamente que pode ser o perseguidor. Nessa atmosfera de medo e perplexidade, esquece o que é ter uma vida normal.

terça-feira, 12 de abril de 2011

CONVITE


Caros amigos,

Nesta sexta-feira (15 de abril) tocarei no Teatro Pedro Ivo em Florianópolis às 21h. Será a abertura da temporada 2011 da Pró-Música, com um programa dedicado ao Romantismo (200 anos de Chopin, Schumann e Liszt). De Chopin, a Balada nº1 e o Scherzo nº3; de Schumann, Intermezzo (do Carnaval de Viena), Aufschwung (de Fantasiestücke) e Arabesque; de Liszt, Benediction de Dieu dans la Solitude e Valsa Mefisto.

Um abraço,

Alberto



domingo, 10 de abril de 2011

O erotismo passa pela fantasia.


A maioria dos homens inicia a vida sexual com ejaculação precoce. Isso não é estranho nem problemático, pois a combinação de um desejo intenso com a pouca experiência antecipam a ejaculação por simples ansiedade. Por sorte dos garotos, nessa fase de grande potência, a quantidade compensa com vantagens a pouca qualidade do ato.


Muito tempo antes da primeira relação sexual, o jovem já dispõe de uma complexa rede de fantasias eróticas que serão utilizadas ao longo de sua vida, e que serão importantes para o seu desempenho sexual. Essas fantasias têm uma estrutura universal, mas são diferentes em cada ser humano. Todo homem inventa uma fantasia masturbatória, uma cena própria para gozar. Essa trama vai sendo criada a partir de vários fragmentos das experiências marcantes que ele viveu desde o início de sua vida. “Funciona como o segredo de um cofre onde se guarda, cuidadosamente, a chave do gozo.”

Muitos homens jamais revelam o conteúdo de suas fantasias, outros necessitam contar a parceira para que ela possa ocupar um papel na cena erótica. Nesse último caso, as coisas podem se complicar. Algumas vezes, a mulher não lida bem com as suas próprias fantasias (sim, mulheres também têm fantasias eróticas), e ter que vivenciar a fantasia do outro pode ser muito difícil para ela. Outras vezes, o desacordo pode ser referente ao papel que cada um deve ocupar na cena erótica. Por exemplo, se a mulher ocupa um papel passivo nas suas próprias fantasias – aquela que vai ser arrebatada por um herói - ela pode não sentir-se excitada por um papel ativo que o marido deseje que ela ocupe. Por fim, o caso mais complicado é quando se necessita de um terceiro para montar a cena erótica. Nesse caso, o sacrifício pode ser muito grande, já que cai por terra, do lado feminino, o véu romântico que encobre o ato sexual.

Maria Holthausen


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Da Vergonha a Culpa


Diz o filósofo inglês Bernard Williams que a vergonha está ligada à visão: a pessoa sente-se envergonhada quando alguém a vê fazendo algo vergonhoso ou numa postura vergonhosa; por isso a pessoa envergonhada quer sumir, desaparecer, entrar chão adentro. A culpa está ligada a uma peculiar forma de audição: a audição da implacável voz interior, que acompanha o culpado ainda que ele se enfie em qualquer buraco.

A vergonha ocorre, em geral, de forma imediata, aguda, visível: a pessoa fica vermelha, sua expressão facial se altera. Portanto na vergonha o componente emocional pode ser intenso. Já a culpa se instala mais lentamente, cronicamente; o componente emocional, quando existe, não é facilmente perceptível. A vergonha exige providências; depois de comer o fruto proibido, Adão e Eva, constatando que estão nus (já estavam nus antes, mas a nudez tornou-se instantaneamente vergonhosa), correm a cobrir "as vergonhas" com folhas. Também é um exemplo a história da mulher que, a bordo de um avião da American Air-lines, tentou disfarçar o odor de seus malcheirosos flatos acendendo fósforos, o que é proibido e levou a um pouso de emergência. Esta senhora poderia fazer de conta que nada tinha a ver com o cheiro dos gases; mas a vergonha obriga a pessoa a se acusar, a tomar providências.

A culpa nem sempre motiva uma ação; a pessoa pode se sentir culpada durante décadas e nada fazer a respeito, mesmo porque, como veremos, a culpa pode ser inconsciente e neste caso a pessoa nem sabe o que fazer. A vergonha é uma resposta à avaliação alheia, ao passo que a culpa resulta de uma avaliação interna, equivocada ou não; privilegia, por tanto, a autonomia individual. A culpa não precisa de audiência, de público; a vergonha ocorre mediante a desaprovação ou o deboche de outros.

Fragmento do livro Enigmas da Culpa, de Moacyr Scliar


segunda-feira, 4 de abril de 2011

AMOR OU AMIZADE? OS DOIS....


Encontrei esse texto na Internet. Segundo o site, é de Martha Medeiros. Como não conheço tudo o que essa autora publicou, não posso afirmar que, realmente, seja um texto dela. Mas, achei o texto ótimo, e por isso resolvi postar para dividir com vocês.

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No finalzinho da entrevista que Pedro Bial deu à Marília Gabriela, quando foi questionado sobre relacionamentos, ele deu uma lição que serve para todo mundo: trate seu amor como você trata seu melhor amigo. Sei que isso parece falta de romantismo, mas é o conselho mais certeiro. 
Não era você que estava a fim de uma relação serena e plenamente satisfatória? Taí o caminho. Vamos tentar elucidar como isso se dá na prática. Comecemos pelo exemplo que o próprio Bial deu: você foi convidado para o casamento de uma prima distante que mora onde Judas perdeu as botas, você tem que ir porque ela chamou você pra padrinho. Como é que os casais costumam combinar isso?

"Não tem como escapar, você vai comigo e pronto". Ou seja, um põe o outro no programa de índio e nem quer saber de conversa. É assim que você convidaria seu melhor amigo? Não. Você diria: "Putz, tenho uma roubada pela frente que você não imagina. Me dá uma força, vem comigo, ao menos a gente dá umas risadas...".



Ficou bem mais simpático, não ficou? Como esta, tem milhões de situações chatas que você pode aliviar, apenas moderando o tom das palavras.

Pro seu marido: "Você nunca repara em mim, não deu pra notar que cortei o cabelo? Será que sou invisível?" Mas pra sua melhor amiga: "Ai, pelo visto meu cabelo ficou medonho e você está me poupando, né? Pode dizer a verdade, eu agüento".



Pra sua mulher: "Você já se deu conta da podridão que está este sofá? Não dá pra ver que está na hora de trocar o tecido?" Mas pra sua melhor amiga: "Deixa a pizza por minha conta, eu pago, assim você economiza pra lavar o sofá. A não ser que este seja um novo estilo de decoração..."



Risos + risos+ risos.

Maneire. Trate seu amor como todas as pessoas que você adora e que não são seus parentes. Trate com o mesmo humor que você trata seu melhor amigo, sua melhor amiga. Até porque, caso você não tenha percebido, é exatamente isso que eles são.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Liderança e Comunicação



Em recente visita ao Brasil, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, esbanjou carisma e simpatia. Mostrou-se um líder comunicativo, característica muito valorizada no mercado profissional. No início de seu pronunciamento no Rio de Janeiro, Obama chegou a dizer algumas palavras em português, em uma demonstração de atenção para com a platéia. Essa disposição em falar a língua do expectador serve de exemplo a gestores no mercado corporativo, afinal, a fluência da comunicação entre os variados níveis hierárquicos ainda deixa a desejar em muitas empresas.

Quem trabalha com gestão de carreira elogia o comportamento comunicativo de Obama. Gestores com esse perfil são extremamente benéficos para as empresas e devem ser incentivados pelo setor de Recursos Humanos. Mas muitas empresas ainda não têm por prática facilitar a comunicação entre todos os níveis hierárquicos.

Na tentativa de mudança da cultura individualista de certas chefias, sugere-se que o Departamento de RH organize encontros entre colaboradores e o presidente da companhia. Pode ser um café com o presidente, ou mesmo uma reunião informal. Esses encontros dão a oportunidade ao subordinado de expressar suas ideias diretamente ao presidente ou ao diretor, e todos ganham com isso. O funcionário  passa a se sentir valorizado e motivado, não apenas mais um número dentro da corporação. Afinal, equipe valorizada e motivada gera resultados positivos.

No entanto, em boa parte das corporações o cuidado com as relações entre a diretoria e os funcionários é bastante falho. Algumas empresas ainda não perceberam a necessidade de aproximação entre os dois elos do processo produtivo para melhoria dos resultados, pois quando o funcionário sente que suas ideias são ignoradas, ele tende a ficar desmotivado. Nessas horas, a chefia erra ao substituir o profissional sem comunicar-se melhor com ele. Só depois, quando os problemas persistem, é que o gestor se dá conta de que o problema não era o profissional, mas aspectos culturais da companhia e processos internos de gestão.

As empresas que primam pela facilidade de comunicação acreditam que essa interação ajuda a otimizar o capital humano. Na política de portas abertas, compreender e ouvir o cliente interno são vetores fundamentais. Com esse novo fluxo de comunicação, consegue-se tomar as decisões estratégicas mais rapidamente e isso melhora o andamento de projetos.

Referencias: Canal RH

segunda-feira, 14 de março de 2011

Poeta(ndo)




A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.

Nesse ponto sou abastado.

Palavras que me aceitam como

sou - eu não aceito.

Não agüento ser apenas um

sujeito que abre

portas, que puxa válvulas,

que olha o relógio, que

compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,

que aponta lápis,

que vê a uva etc. etc.

Perdoai

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem

usando borboletas.


Manoel de Barros

terça-feira, 1 de março de 2011

Felizes para sempre?



Nunca gostei do clichê que os padres costumam repetir na cerimônia de casamento, que diz mais ou menos assim: “Duas chamas que agora se encontram para formar uma só”.
Já fui a um casamento em que essa ideia era encenada. O padre entregava uma vela para o noivo, outra para a noiva, pedia que eles unissem as chamas das duas velas e nesse encontro literal das duas chamas, repetia o tão famoso clichê. Muita gente a nossa volta suspirava: “Tão lindo”. A minha filha, que devia ter na época uns oito anos, olhou para mim e disse baixinho: “Mãe! Essa história na vida real não dá muito certo, né?” Sorrimos com cumplicidade.

É isso, nenhum outro discurso é tão cheio de clichês quanto o discurso romântico. Desde muito cedo somos mergulhados em narrativas românticas. Quem não passou a infância escutando história de príncipes e princesas? Branca de Neve, Cinderela, A Bela Adormecida, Rapunzel e tantas outras, fazem parte das “mulheres princesas” salvas por um príncipe jovem, lindo e heróico.

Esses personagens românticos estão tão enraizados em nosso imaginário que quando crescemos substituímos as histórias infantis pelas comédias românticas, de preferência com final feliz, que a indústria do cinema não para de produzir.

A princípio, não podemos condenar o romantismo amoroso. Afinal, ele pode ser um elemento poderoso nesse caldo hiper-realista da sociedade tecnológica e de consumo em que estamos mergulhados.

O que assusta é o olhar demasiadamente romântico em algumas relações amorosas. O que assusta é quando as pessoas tomam a narrativa romântica como ideal de vida: quando se passa a desejar que a união se transforme em metamorfose. Quando homens e mulheres se deixam metamorfosear-se em objeto do desejo e do gozo do outro, abrindo mão de suas singularidades para viver a ilusão romântica de terem sido salvos por seus príncipes e princesas.

Uso o termo metamorfose para falar desse processo de transformação intenso, radical e de pouca consciência que algumas pessoas passam quando entram numa relação amorosa. Um processo que elas, em momentos pontuais, se dão conta; mas que não tem força para resistir. E por não conseguir resistir, cada vez mais, vão se transformando em coadjuvante de sua própria história. Vivem em função das demandas e caprichos de seus heróis e, por isso mesmo, alienados de seus próprios desejos. Até o dia em que o príncipe e a princesa viram sapos, e o conto de fada vira um drama “mexicano”, ou pior, uma tragédia “grega”.